Monday, 6 December 2010

Um pouco sobre o frio


Este blog, quem tem a paciência de acessar-lo de vez em quando já bem deve saber, nada mais é do que o meu arquivo pessoal on-line das minhas pesquisa - ou pretensões - acadêmicas, das minhas contribuições jornalísticas que faço aqui e ali e de alguns registros de impressões pessoais desses anos de jornada a Ítaca. Claro que não tenho nenhuma pretensão, neste momento, de estar presente “as vera” na blogosfera. Digo isso porque foi preciso dizer, você sabe quem.


Pois bueno, na terça-feira passada nevou pela primeira vez neste inverno de Londres. Neve em novembro não é o mais usual para a cidade onde, em geral, não se costuma ver muita de todos modos, mas dessa vez a quantidade, além de ter caído em época antecipada, foi considerável. E como o frio aqui é daqueles bem úmidos, com bastante vento, que sopra gelado pelos poros até a alma, quando neva desse jeito é sinal que a coisa foi de “ranguear cusco” mesmo, para usar uma expressão tão conhecida lá nos pampas como esse tipo de frio.


Seguem então algumas considerações, depois de alguns dias afastado do blog justamente por conta das conseqüências desse frio, motivado por tal ambiente “inspirador”:


O parâmetro de frio para mim é quando me vejo obrigado a usar luvas. Não sou muito fã de luvas, mas há um momento em que é fisicamente impossível andar na rua com as mãos expostas, quando os dedos realmente doem de gelado e ás vezes chega a parecer que vão congelar mesmo. E as luvas foram dessa forma necessárias já no começo de novembro, isto é, a situação climática típica de Londres: frio de verdade que se estende de novembro até pelo menos abril. Ou seja, o frio não acaba em abril, mas vai certamente até lá e não raro chega a durar até o inicio de junho.


No entanto a primeira neve deste inverno caiu justamente no dia em que os estudantes saíram em marcha pela segunda vez em um mês numa série de grandes protestos de rua que, como há muito tempo não se via no Reino Unido, Londres tem testemunhado em função dos fortes cortes de subsídios para a educação no país que devem ser implementados em breve pelo atual governo e um tremendo aumento nos preços das universidades. Um excelente registro digno de se guardar, tanto pela neve caindo na capital como pelo ato, é o vídeo feito pelo jornal The Guardian, que reproduzo aqui:






Mas neve de verdade mesmo eu vi, pela primeira vez, em Estocolmo, onde a percepção sobre o que é frio atinge outro patamar. Uma paisagem realmente cinematográfica, cenário daqueles filmes natalinos, onde o local é absolutamente coberto de branco, em quantidades que ultrapassam um metro de neve e com temperatura média de -10 (sim, dez negativos!). Sem duvida a região nórdica é um dos lugares mais diferentes que já visitei e achei que valia a pena mostrar umas imagens:





E para terminar, para não dizer que não falei de flores, claro que me lembrei do verão do meu Brasil não -tropical, que faz juz a esse titulo inclusive por suas praias e o nosso típico “veraneio” gaúcho, que merece o textinho abaixo que recebi esses tempos por email. Como dizia aquele típico personagem de Pelotas “Isso é Brasil!”.


"Está chegando o verão e com ele o "veraneio", como chamamos aqui no Sul.

Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais fantástico litoral do País: de Torres ao Chuí, uma linha reta, sem enseadas, baias, morros, reentrâncias ou recortes. Nada!

Apenas uma linha reta, areia de um lado, o mar do outro.

Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes farroupilhas e devia estar em Santa Catarina. Característica nossa, não gostamos de intermediários.

Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar e pisar na areia. Nada de vistas deslumbrantes, vegetações verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e outras frescuras cultivadas aí para cima.

O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa. É marrom!

Cor de barro iodado é excelente para a saúde e para a pele! E nossas ondas são constantes, nem pequenas nem gigantes, não servem para pegar jacaré ou furar onda. O solo do nosso mar é escorregadio, irregular, rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.

Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas, balneários hiper-lotados, supermercados abarrotados, falta de produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, areia fervendo, crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo, porque protetor solar é coisa de fresco e em praia de gaúcho não tem sombra. Nem nos dias de chuva, quase sempre nos fins-de-semana, provocando o alegre, intermitente, reincidente e recorrente coaxar dos sapos e assustadoras revoadas de mariposas.

Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste ? também chamado de nordestão ? e o sul, cuja origem é a Antártida. O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.

Chega levantando areia fina que bate em nosso corpo como milhões de mosquitos a nos pinicar. Quem entra no mar, ao sair rapidamente se transforma no? como chamamos com bom-humor ? veranista à milanesa. A propósito, provoca um fenômeno único no universo, fazendo com que o oceano se coloque em posição diagonal à areia: você entra na água bem aqui e quando sai, está a quase um quilômetro para sul. Essa distância é variável, relativa ao tempo que você permanecer dentro da água.

Outra coisa: nosso mar é pra macho! Água gelada, vai congelando seus pés e termina nos cabelos. Se você prefere sofrer tudo de uma vez, mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do choque térmico."

Wednesday, 1 December 2010

Chico y Rita, passado e presente de Cuba

Nesta quarta-feira, a minha terceira participação como comentarista na RádioCom 104.5 FM, na cidade de Pelotas, Brasil, no programa Navegando.

Os comentários semanais são feitos por telefone desde aqui da ilha gélida e tratam, no contexto das relações internacionais, de apontar distintos ângulos de observação e perspectivas sobre arte e política entre o local e o global.

O programa Navegando vai ao ar de Segunda a Sexta, das 16h às 18h, (hora de Brasília) e eu estou ali toda quarta-feira as 16h30.

O texto neste post é o norte do tema abordado.

A RádioCom pode ser acessada online aqui.


Jazz, Havana, Cuba pré-revolucionária no final dos anos 40, a paixão pela música e entre dois músicos e, o melhor, tudo isso em forma de animação.



Chico y Rita é uma produção espanhola-britanica recém lançada aqui na Inglaterra na semana passada, que com uma admirável precisão histórica, narrativa e estilo de animação cativantes mostra o fantástico momento em que a musica cubana viaja para Nova Yorque para realizar a fusão com o jazz anglo-saxão: uma fusão que mudou a historia da musica da época.



Na Havana de 1948 um talentoso jovem pianista que toca na boemia da cidade conhece uma linda e sexy cantora de extraordinária voz que também batalha sua carreira. A parceria profissional e amorosa se vê ameaçada quando Rita recebe um convite para a gloria do showbiz em Nova Yorque que não inclui a Chico, mas isso permite o encontro entre estilos musicais que ajudou a definir a historia da musica do século XX.



Essa animação lírica dos diretores, vencedores do Oscar, Javier Mariscal e Fernando Trueba é certamente o melhor musical do ano e deixa o espectador envolvido com a atmosfera vibrante e sensual da boemia dois lados do Oceano. Num verdadeiro tributo ao jazz, o filme conquista com uma trilha sonora imbativel feita pela lenda da musica cubana Bebo Valdez e do seu filho Chucho Valdes. O filme consegue capturar um momento definitivo na evolução do Jazz, no período em os nomes que hoje são monstros sagrados como Charlie Parker e Dizzy Gillpsie passaram a ser reconhecidos. E então vierams “novos” músicos do Caribe, particularmente de Cuba. Dizzy Gillespie afirmou em varias entrevistas que haver conhecido e tocado com o cubano Chano Pozo foi um momento decisivo para ele. Foi quando novos instrumentos se uniram ao ritmo norte-americano, gerando um intercambio com a musica latina e africana que eram absolutamente novos. A lenda cubana Chano Pozo foi o primeiro percussionista a tocar numa banda de jazz. Outras lendas do jaz também aparecem na animação, como Thelonious Monk, Cole Porter e Freddy Cole, o irmão de Nat King Cole.



Chico y Rita fazem juntos uma romântica e musical viagem em busca do êxito profissional que os leva desde a ilha caribenha para, além de Nova Yorque, Las Vegas e Hollywood, explorando o período pós-guerra através do swing, do bebop e dos ritmos latinos.



Mas também é determinante destacar que o filme, tão cativante, traz Cuba para as telonas e novamente para o imaginário popular no momento em que o país vive um período que realmente parece ser decisivo para o futuro da ilha.



Em abril do ano que vem, Cuba realiza o sexto congresso do Partido Comunista, um evento que sinaliza que algo realmente novo esta por acontecer na ilha. Segundo o presidente Raul Castro, o congresso servira para “fazer decisões fundamentais sobre como modernizar o modelo econômico cubano”. Recentemente o governo Castro publicou uma lista de 178 postos de trabalho que agora são permitidos como autônomos e pequenos negócios. As autoridades cubanas afirmaram que ninguém mais será estigmatizado por trabalhar dessa forma, mas que não será permitida a acumulação de propriedade.



A pesar dos pequenos sinais de flexibilidade não apontarem para profundas mudanças, muitos analistas já se perguntam se Cuba estaria se preparando para adotar um modelo econômico misto, como o que existe na China.



Os salários dos cubanos são baixos, numa média de 30 dólares mensais. No entanto, muito diferente do mundo em que estamos acostumados, o estado cubano garante emprego, sistema universal publico de saúde e de educação e subsidia intensamente moradia e transporte. Mas ultimamente, somado as dificuldades de gerenciar um estado de economia planificada num mundo que não é mais bipolar e enfrentando ha décadas o embargo comercial dos Estados Unidos, o país também sofreu vários recentes desastres naturais e a queda na indústria de turismo, devido à recessão mundial.


O chamamento para o sexto congresso do Partido Comunista Cubano marca o fim de um debate de quatro anos entre os lideres do país em que a posição de Raul, mais flexível que a de Fidel parece ter ganhado espaço. O que passará em Cuba a partir do ano que vem é uma pergunta que, assim como o filme Chico y Rita, mexe com a imaginação popular, mas não pela nostalgia do passado, e sim pela curiosidade com o futuro.

Monday, 29 November 2010

Iraque: guerra por fora, queima por dentro

O jornal Brasil de Fato publicou na sua edicao desta semana meu texto “Iraque: guerra por fora, queima por dentro”.
A nova colaboracao para o semanario nacional apresenta uma entrevista exclusiva que fiz com o diretor iraquiano-italiano Haider Rashid sobre seu recente premiado longa-metragem “Tangled Up in Blue” que retrata a guerra no pais atraves do olhar dos iraquianos exilados na Europa.

O trailer do filme pode ser visto website oficial da producao
www.tangledfilm.com e logo tambem publicarei o PDF com a pagina do jornal aqui neste post.

Segue a materia na integra:
"Um filme sobre a guerra no Iraque que não mostra o Iraque. Mostra, contudo, uma guerra, sem combates bélicos, ainda assim tão violenta quanto esses: o sonho por um país perdido e irrecuperável.

Lançado este ano no Oriente Médio e na Europa, Tangled up in Blue (ainda sem titulo em português) aborda temas tão latentes quanto globalizados com uma peculiaridade que começa pela sua própria nacionalidade: o filme é a primeira co-produção cinematográfica Ocidente–Oriente Médio, entre Itália e Iraque, mas inteiramente rodada em Londres.

O primeiro longa-metragem do jovem diretor iraquiano-italiano Haider Rashid, 25 anos, está em fase final de negociações para ser exibido nos cinemas brasileiros no ano que vem após haver ganhado o prêmio de melhor filme nos prestigiosos festivais internacionais de médio porte Gulf Film Festival (Dubai, Emirados Árabes), I´ve seen Film Festival (Milão, Itália) e Cinema Digital Seul Film Festival (Seul, Coréia do Sul). O filme, cujo script também foi escrito por Rashid, estará disponível a partir de fevereiro na internet e no website da produtora www.tangledfilm.com e seu rápido reconhecimento se explica em parte pela sutil profundidade com que explora, através da singular ótica de um artista de dupla nacionalidade (filho de pai iraquiano e de mãe italiana), alguns dos mais relevantes assuntos da atualidade: imigração forçada, conflitos e diferenças culturais entre Ocidente e o Oriente Médio, vida em metrópoles cosmopolitas, e exílio. Tangled Up in Blue vem se tornando um símbolo para os iraquianos exilados.

Não há paz para um país perdido

Em entrevista exclusiva para o jornal Brasil de Fato, Rashid explica que Tangled Up in Blue, porém, não é simplesmente outro trabalho sobre os exilados e/ou refugiados iraquianos e a crise humanitária – resultado das várias décadas de emaranhados conflitos militares e étnico-religiosos no conturbado mundo árabe que permeia de forma quase mítica e infestada de ignorância o imaginário ocidental. “É um filme que fala sobre a paz que não existe, nem no Iraque nem dentro dos indivíduos que foram forçados a deixar o país; sobre aqueles que nunca deixaram o Iraque por inteiro e acabaram por passar esse sentimento de “permanente busca pela pátria-mãe perdida” para seus filhos, a segunda geração de exilados”, analisa.

Tangled Up in Blue, cujo título é uma referência direta a uma conhecida canção de Bob Dylan, passa numa Londres austera e ao mesmo tempo caótica onde o filho de um mundialmente famoso escritor iraquiano tenta lidar com as repercussões do seu assassinato, lutando com a sua consciência ao planejar publicar um livro que explora a fama do seu pai e duelando com o amor não-correspondido pela sua melhor amiga.

“Cresci num ambiente confortável, mas fruto dessa bizarra combinação iraquiana-italiana que desde criança me despertou o interesse por integração e mistura de culturas em que o tema exílio sempre esteve presente. Um país que se perde para os pais é um sonho para os seus filhos. Enquanto fazíamos o filme percebi que ele apresenta uma forte afirmação sócio-política: ser forçado a deixar o seu próprio país é uma das piores coisas que podem acontecer com alguém”, descreve Haider.

O Iraque é o segundo maior país de origem de refugiados no mundo. Segundo as Nações Unidas, aproximadamente dois milhões e 200 mil iraquianos deixaram o país desde a invasão dos Estados Unidos, em 2003, mas o número de refugiados é ainda maior quando se leva em conta as conseqüências da guerra contra o Irã (1980-1988), e a Guerra do Golfo (1990-1991). No Brasil, porém, dos atualmente 4.294 refugiados registrados, apenas 199 são iraquianos, conforme as estatísticas do Comitê Nacional para Refugiados, órgão vinculado ao Ministério da Justiça (Conare), divulgadas no dia 15 de junho deste ano. Ainda assim, o Brasil é lar para o maior numero de descendentes de árabes – particularmente palestinos e libaneses – fora do mundo árabe, num numero estimado em aproximadamente 10 milhões de pessoas de segunda e terceira gerações.

Nesse sentido, Tangled Up in Blue é conscientemente inserido no seu tempo e simultaneamente busca decifrá-lo e apresentá-lo. É uma leitura honesta, sóbria e original sobre dilemas sociológicos – e as esperadas conseqüências psicológicas individuais – tão contemporâneos que ainda mal são percebidos no complexo processo de conformar e/ou conceituar uma sociedade internacional. “É um filme sobre o desconforto do deslocamento que se utiliza de um estilo original para abordar o tema. Eu nunca quis gravar no Iraque, mesmo que muitos insistissem que eu deveria. Eu preferi que a guerra fosse sentida, não vivida”, descreve Rashid que não nega – ao contrário, quase faz questão em destacar – que o filme tem muito da sua história pessoal.


Muçulmano não, comunista!

Haider Rashid nasceu em Florença, na Itália, onde seu pai, Erfan Rashid, um destacado jornalista e ativista político iraquiano, instalou-se depois de haver sido forçado a sair do país nos anos 80, durante a guerra contra o Irã no regime de Saddam Hussein.

Graduado em teatro na Academia de Artes de Bagdá, hoje Erfan, aos 58 anos, é consultor em diversos festivais e eventos culturais na Itália e no mundo árabe e já trabalhou para diversas mídias internacionais como France 24 e Deutche Welle. Atualmente é também o correspondente na Itália para o jornal libanês Al Hayat – o maior e mais lido jornal árabe no mundo ocidental.

“Quando as pessoas perguntam para o meu pai se ele é muçulmano, ele responde: sou comunista”, conta Haider. Erfan foi ainda um conhecido critico do regime de Saddam que hoje denuncia o risco do Iraque se tornar uma cópia do Ira fundamentalista. Em entrevista à revista eletrônica italiana ResetDoc, Erfan alerta para a influência nociva do Ira no Iraque que tem sido ampliada desde a invasão estadounidense em 2003. Na sua opinião, caso o Iraque siga controlado pelas milícias ou partidos xiitas haveria uma “fundamentalizaçao” do país, forçando premissas religiosas em lugar de programas políticos. Erfan nunca voltou ao Iraque desde seu exílio, há 30 anos, e pensa em fazê-lo por primeira vez no ano que vem. “Nossa preocupação com a segurança é séria, principalmente com a possibilidade de seqüestros”, alarma-se o filho Haider.

Sem aprofundar-se na avaliação da retirada das tropas dos Estados Unidos do país – embora afirmando que a saída gradual é melhor que uma abrupta – o diretor (“não sou um analista político”), assim como seu pai, defende que o futuro do Iraque se relaciona com a extirpação do fator religioso das relações de poder do país. “O governo iraniano está financiando xiitas e fazendo uso de um oportunismo sinistro desse caos. O país não é unido e todo o petróleo que possa ter não será suficiente para arrumar o Estado enquanto os iraquianos matarem a si mesmos por conta da religião”, opina.

O Iraque é um tema cada vez mais presente na agenda do cinema internacional e há duas tendências principais quando se retrata a questão. A primeira são os filmes feitos por profissionais não-iraquianos, que geralmente abordam a volatilidade política do país, mas tratando do tema filmando em outros lugares. Essas produções têm permitido uma maior atenção para os dilemas de diferentes ordens causados pelas incessantes guerras no país, mas costumam estar permeada de estereótipos, onde o mais recente exemplo é o filme “Guerra ao Terror” (rodado na Jordânia) vencedor da última edição do prêmio Oscar.

A segunda são as produções de cineastas iraquianos residentes no país que, no entanto, por não possuir uma indústria cinematográfica local enfrentam escassez de recursos e de estrutura. Ainda assim, a perspectiva árabe do tema é essencial e única e há uma forte presença de novos profissionais. O trabalho de Haider Rashid situa-se exatamente na fronteira dessas tendências. Ele se considera uma espécie de imigrante na Itália apesar de nunca haver estado no Iraque e tem recebido grande atenção e critica da mídia iraquiana. “Creio que recebemos uma resposta positiva em função da maneira como abordamos a questão. No mundo árabe, essa maneira de falar da guerra, a partir da visão dos filhos dos exilados, é totalmente inesperada. No Iraque eu sou considerado um iraquiano mesmo sem nunca ter estado lá, porque sou filho de um”.

“Bagdá é inferno”

O filme é dedicado a um amigo da sua família. O jornalista Kamel Shiaa Abdallah. Kamel era um notório intelectual, assassinado em 2008, em Bagdá, logo de ter regressado ao país depois de décadas de exílio. Kamel havia sido designado conselheiro no Ministério de Cultura do Iraque, como coordenador do Comitê de Proteção do Patrimônio Cultural do país na Unesco.

Rashid denuncia os constantes ataques à intelectualidade acadêmica e artística do país. “Há inúmeros casos de pessoas da cultura e da ciência que foram assassinadas por conta de suas idéias”, aponta. Essa situação é a responsável para que o filme, paradoxalmente, ainda não tenha tido exibição no Iraque. “De fato nos preocupamos com o fator segurança. Mas ao que tudo indica poderemos exibir-lo proximamente em Bagdá”, revela Rashid. Em março do ano que vem o diretor viajará pela primeira vez ao Iraque, junto ao seu pai.

Bagdá, explica Rashid, é uma cidade mítica para o mundo árabe. “Meu pai e seus amigos viviam falando da cidade, de quão linda era Bagdá. Mas a realidade é que aquela cidade agora só existe na imaginação deles. Passaram 30 anos sonhando com isso e de repente tudo o que você conheceu antes não existe mais. Como o próprio personagem do filme afirma: Bagdá é inferno”.

Aquela Bagdá já não existe. Agora resta o sonho do país perdido, vivido pelos filhos dos exilados, a segunda geração; que luta para deixar a memória presente na eterna busca pela pátria-mãe através da arte.

Sunday, 28 November 2010

Textos curtos para Ítaca X

Um futuro-presente projeto literário. “Textos curtos para Ítaca” é a primeira materialização de uma das várias e extensas idéias em literatura, essencialmente em prosa, mas com flertes em verso, colecionadas ao longo da jornada até Ítaca. Em fato, os projetos para contos e novelas e outras literaturas de longo fôlego, ainda estão em fase sketch, talvez nem maquete, e irão tomando forma ao ritmo das circunstâncias que, sim, podem tardar como já tardam, mas ainda virão. Enquanto isso, num dia e momento aleatório, curiosamente com menos atraso, vão tendo agenda as mini-experiências em poesia e verso, do qual, lenta e despretensiosamente, faço um laboratório neste blog (único espaço onde o critério editorial é totalmente meu... ). Algum dia também ganharão forma impressa, sempre ao ritmo das possibilidades e, no dizer de Konstantinos Kavafis, do rogar por uma rota longa. Mas em textos curtos.


KRONA POLA

The lions were awake, she says.

There is a particular way we speak to each other on Sundays.

It deems from that Eurasian island country, home to some of the oldest water wells in the world,

site of the earliest known example of feline domestication

from where you came to broad me so widely that it is now incomprehensible.

I did not understand, particularly, what happened during the first three seconds.

It is the smell of sharpened pencils in Athens in September,

I saw the whiteness of the clouds that we were cutting across

and I screamed, only for myself, as the winds pushed the sound back inside me.

Let me go up again, as a child running to the slides to coast one more time.

Yes, the lions are awake.

I saw the vastness. And I wanted to continue falling.

I see water in you.

Friday, 26 November 2010

Panorámica Social, de España, también publica el texto sobre prejuicio en Brasil

El texto originalmente producido para mi estreno como comentarista semanal en uno de los programas de la Radiocom. 104.5 FM (Pelotas/Brasil) fue traducido al castellano y publicado en la revista online de El Salvador, ContraPunto.

El tema sigue provocando repercusión y ahora también fue publicado en el sitio español, Panorámica Social, de lo cual también soy colaborador, bajo el titulo “Lo peor de las elecciones brasileñas: prejuicio y divisiones sociales”.

Thursday, 25 November 2010

Yes, I would.

After today, it is official, I really need to relax. I would even drink a cup of tea.


Tuesday, 23 November 2010

Um casamento, várias distrações - Comentário da semana na RádioCom 104.5 FM

Nesta quarta-feira, segunda participação como comentarista na RádioCom 104.5 FM, na cidade de Pelotas, Brasil, no programa Navegando.

Os comentários semanais são feitos por telefone desde aqui da ilha gélida e tratam, no contexto das relações internacionais, de apontar distintos ângulos de observação e perspectivas com foco em arte e política entre o local e o global.

O programa Navegando vai ao ar de Segunda a Sexta, das 16h às 18h, (hora de Brasília) e eu estou ali toda quarta-feira.

O texto neste post é o norte do tema abordado

A RádioCom pode ser acessada online aqui.


A contínua e insistente existência da instituição monárquica no Reino Unido é ao mesmo tempo um mistério, um mito que move o imaginário de muita gente em todo o planeta e um sintoma de algumas peculiares características sócio-comportamentais gerais deste país; daquilo que o genialmente irônico jornalista brasileiro Ivan Lessa definiu como “britanicidades”.


Isso chega ao ponto da famosa BBC, a empresa estatal de Comunicação Social britânica, possuir uma “Editoria real”, isto é, uma equipe jornalística dentro da empresa apenas para tratar dos temas relacionados à família real e à Coroa.


Esses temas sobre a royal family, na minha humilde opinião, não costumam ser exatamente algo de extrema importância a não ser que se julgue, e muita gente julga, que o bom funcionamento da família real, ou seja, o fazer valer as tradições britânicas, as noticias dos detentores de títulos de nobreza engajados em atividades de caridade, o saber representar a pompa e a circunstância de uma instituição milenar como a monarquia britânica seja algo importante para a sociedade desta ilha.


Talvez seja mesmo, afinal, que outra justificativa se teria para manter, com rios de dinheiro público, umas centenas de pessoas vivendo em palácios e tendo o titulo da própria encarnação do Estado? A manutenção da monarquia na Inglaterra é um tema polêmico, acalorado, que encontra oposição de muita gente aqui que, assim como os estrangeiros, não entendem o porquê se insiste em manter essa tradição.


CONTO DO VIGÁRIO (OPS...) DE FADAS


De todo modo, essa editoria real da BBC terá mais trabalho do que o normal a partir daqui e pelo menos durante todo o ano que vem. Um casamento real foi anunciado e toda a mídia, especialmente os também famosos tablóides britânicos, estão em polvorosa com a notícia. O filho mais velho do Príncipe Charles, o William, vai se casar com a Kate Middleton. Assim como seu pai se casou com a “plebéia” da Diana, William também se casa com uma mulher que não é de sangue-azul. Como William será o futuro rei da Grã-Bretanha, esse casamento já esta virando uma febre, uma nova mania, da mesma forma que, no inicio dos anos 80, foi também o casamento de Charles e Diana.


Vários casais ingleses estão marcando a data do seu casamento também para 29 de abril, dia em que a família real anunciou que ocorrerá a cerimônia na Abadia de Westeminster. O governo britânico também já anunciou que esse dia será feriado nacional em função do matrimônio.


ON DIVERSION


Tudo isso que parece bastante fútil, todo esse frisson sobre o “casamento do futuro rei da Inglaterra”, apresenta na verdade um importante ponto de analise: quão útil esse “grande evento” será para distrair a nação, e até mesmo o mundo, dos problemas domésticos do Reino Unido.


Se pudesse me arriscar em fazer uma critica bem geral da mídia anglo-saxônica, poderia dizer que quando analisa os problemas internacionais, ela é rápida em apontar o dedo para as “estratégias populistas dos países terceiro-mundistas” em querer desviar o foco da atenção dos seus problemas internos. Por exemplo, na famigerada guerra das Malvinas, em 1982, entre Inglaterra e Argentina, os ingleses não paravam de dizer que o atrevimento dos generais argentinos de "la Junta", particularmente Jorge Anaya, em questionar a “britancidade” das ilhas “Falklands” era apenas para apelar para o nacionalismo-patriótico dos argentinos e distrair a nação da crise do regime que naquele momento dava sinais de que ia se desmantelar.


Muito mais contemporaneamente, na recente e ainda sem solução disputa territorial entre Nicarágua e Costa Rica, prestigiosas revistas de política internacional, como The Economist, afirmam que todo o problema entre os dois países vizinhos foi gerado pela tentativa de Daniel Ortega de conquistar o povo nicaragüense através também do nacionalismo-patriótico para que ninguém grite muito e deixe passar batidas as possíveis alterações na Constituição que estão em debate no pais centro-americano para tentar garantir o terceiro mandato do sandinista.


Mas pouco ou quase nada é falado sobre como o evento real entre Charles e Diana em 1981, foi vendido para o mundo como o conto de fadas perfeito para distrair a atenção dos cidadãos da alta taxa de desemprego que a Inglaterra vivia na época e de uma serie de problemas sociais que causavam diversas manifestações violentas.


E agora, com o novo casamento real, tampouco se ouve falar de quão conveniente esse período de “grande celebração nacional”, como definiu o primeiro-ministro David Cameron, será para criar outros focos de atenção que não sejam a crise européia e a desaceleração da economia inglesa.


CORTES E REAÇOES DE NOVO NAS RUAS


Na semana passada Londres vivenciou uma manifestação violenta, coisa que não se via ha alguns anos. A comunidade universitária, furiosa com o aumento nas taxas na educação, fez uma demonstração de cem mil pessoas em frente à sede do Partido Conservador que, além de centenas de presos, resultou em vários feridos, inclusive policiais.


As medidas de “austeridade fiscal”, uma das expressões mais usadas no jargão econômico europeu atualmente, afeta violentamente e com mais visibilidade a Grécia e, agora a Irlanda, porque esses países pediram socorro para União Européia, mas toda a Europa tem cortado direitos dos trabalhadores, aumentado o tempo de contribuição previdenciária, diminuído investimentos sociais. A grande bola da vez na Inglaterra é o NHS, o sistema universal de saúde britânico, grande conquista e orgulho do país no pós-guerra que tem sido tema de enormes escândalos e alvo de drásticas reduções orçamentárias, comprometendo todo o sistema em si e, inclusive, sob o risco de ter seus serviços definitivamente comprometidos.


Mas todos os desafios sócio-políticos ingleses do momento serão decantados, convenientemente, por conta do novo conto de fadas do matrimonio do futuro rei. E, como se trata da realeza da Inglaterra e não dos comuns da Nicarágua ou Costa Rica, o evento agora não é estratégia de distração política, mas o grandioso – ou ridículo – coroar da tradição britânica.

Monday, 22 November 2010

Nueva colaboración para la revista online salvadoreña ContraPunto

"Brasil todavía vive la euforia de una elección que estableció marcos importantes en la joven – pero tratando de presentarse como madura – democracia del país.


En el periodo en que se prepara la sucesión y los nombres que conformarán el nuevo gobierno, analistas de todo el mundo parecen preocupados en discutir cuanto del éxito de la victoria de Dilma Roussef (PT) sobre el candidato de la oposición, de centro-derecha (PSDB), José Serra, pertenece a sus propios meritos políticos o a la irrupción de Lula en la campaña electoral.



Lo “novedoso” y lo que conforma lo que realmente merece análisis en esta elección en Brasil, sin embargo, es la revelación de los prejuicios latentes y el rompimiento del mito de la tolerancia brasileña."



Lea el texto completo en el sitio de ContraPunto.

Saturday, 20 November 2010

Zack de la Rocha apóia o MST

Não é o vídeo com a música que a banda dedicou para o MST no show em São Paulo, em outubro, (apesar de começar com essa cena) e sim uma declaração de apoio do Zack de la Rocha, vocalista do Rage Against the Machine - uma das maiores bandas da história do rock - ao maior movimento social da América Latina, feita nos bastidores do show. Legendada em português e com um minuto de duração.



Friday, 19 November 2010

Beware of Greeks Bearing Bonds

Àqueles que lêem em inglês e querem uma interessante visão da “questão grega”, os dilemas do país diante da crise européia e principalmente o papel da igreja ortodoxa em meio a toda “mess” da gestao econoômica doméstica, fica a dica para o fim de semana: produzida no mês passado, esclarecedora e lúcida, (apesar da forçadinha exagerada pela via liberal) uma excelente reportagem de jornalismo investigativo da revista Vanity Fair, Beware of Greeks Bearing Bonds, disponível online aqui.