Saturday, 24 September 2016

A sacanagem dos golpes no Brasil, e a realidade de imaginar o século 21

*Texto original em português, publicado no Nota de Rodapé, cuja versão em espanhol foi publicada semanas antes na Asuntos del Surr, como registrado abaixo neste blog.


Sacanagem. Essa parece ser uma das mais diretas e mais óbvias construções de sentido para o “golpe” consumado no Brasil. É a descrição suficientemente coloquial que poderia dar fim à disputa narrativa que se instaurou no país durante este ano – consequência de reorganizações, confusões e demais sacanagens políticas iniciadas, pelo menos, em 2013. Uma baita sacanagem! É possível imaginar algum petista do alto escalão reclamando quando no auge do circo:  “- Que? Impeachment? Pô, sacanagem. Daí é golpe! ”
Pois. É uma sacanagem mesmo, convenhamos. O espetáculo vinha todo em conforme. Lulopetismo “bombando” na idílica conciliação de classes do desenvolvimentismo, e os caras do PMDB, que estavam todos esses anos sustentando a amarração de mais de uma década, aproveitam as ainda não plenamente decifráveis manifestações de massa das Jornadas de Junho para armar a cama-de-gato em que Dilma cai para voltar a se eleger em 2014 e, simultaneamente, uma conspiração palaciana com o PSDB em 2015. Sacanagem!
Não é só ironia. No jogo brasileiro da política realmente existente, que os sábios da Ciência Política e outros mestres darealpolitik adoram definir e convocar, vulgarizar um procedimento constitucional de tamanha densidade e seriedade, ao destituir uma presidência da República por conta de tecnicismos burocráticos-fiscais (três contratos com inadequadas autorizações de gastos, coisa que essa “política realmente existente” permite em todas as esferas governamentais do país ordinariamente, inclusive já no próprio governo Temer) o ocorrido é, sim, uma sacanagem. Um golpe, no jargão do governismo agora pós-governista.
Realizado e (re)imaginar
Mas ainda que essa sacanagem tenha sido gerada por dentro do próprio governo que o PT mesmo hegemonizava, não há de se botar, contudo, toda a experiência petista na famigerada lata de lixo da história. Uma política externa “ativa e altiva”, a redução da pobreza extrema e algumas conquistas em direitos humanos estão entre o que poderíamos chamar de avanços, mas contrastam com as lutas sociais higienizadas, que passaram a ser vistas como resíduos do processo. Ribeirinhos, quilombolas, favelas, indígenas, reforma agrária, e tantos outros grupos e temas foram obstáculos do processo de modernização do Brasil da era PT, representado emblematicamente nos megaeventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) e na megahidroelétrica Belo Monte.
A era do Lulopetismo teve como eixo a lógica gerencial-empresarial levada ao terreno republicano, marcada por conflitos de repartição de status entre elites partidárias, e tendo na gestão de Dilma o auge da imersão oligárquica de um governo que, por suas origens e hegemonia partidária, poderia ter buscado romper com tal paradigma. Ao invés disso amarrou-se para sustentar-se, deliberada e arrogantemente, aos atores políticos que considerava “reais” e necessários – como os monstros da construção civil e do agronegócio, que passaram a dar as cartas das relações institucionais de poder –  e assimilou, assim, uma matriz socioeconômica que ao invés de ter permitido um duradoiro financiamento  da inclusão social baseada no consumo (como, erroneamente, operado), terminou por gerar descontentamentos profundos entre todas as classes sociais que quis conciliar.
As consequências desastrosas, e constantemente lamentadas através de toda a parafernália marqueteira na qual o petismo se especializou – incluindo militantes ingênuos órfãos e intelectuais dependentes que se contorcem em malabarismos teóricos para justificar o decadente – já conhecemos.
Ainda assim, não há em curto prazo sinais de paralelos imediatos com o terror de 1964, mas isso não significa que não há perdas, destruições, e reversões de difíceis, ainda que tímidas, conquistas sociais obtidas durante o período chamado de pós-neoliberal. Sempre pode piorar, diz um ditado da realidade.
Não será o “Fora Temer”, nem o “Volta, querida”, porém, que irão desgastar o atual governo ou reverter a situação. Talvez haja um quê de liberador em acusar moralmente os conspiradores, mas a desconstrução da sacanagem só ocorre através de um novo projeto social crítico-transformador, e não num natimorto intento de recomposição do Lulismo, e isso passa pela disposição, dura, de compreender e aceitar o que permitiu a restauração conservadora, e de projetar novos e imprescindíveis imaginários políticos.
Não se trata de crer na possibilidade de estabelecer o Paraíso na Terra (ou em nenhum outro lugar), nem de fazer da política o ponto nodal da constituição do moral. Mais perigosamente essencialista ainda seria, entretanto, cair eternamente na confusão entre realismo e cinismo ao tratar de ignorar propositalmente que é do que existe que se poderá romper com o existente. Para haver transformações há de se enfrentar rupturas constituintes, ou não passarão de meros conformismos que, ao se revelarem incapazes de manter longevidade, produzem o interregno de instabilidades severas que vive o Brasil.
Entre o Estado e o estar como se pode ser: hipocrisias
As chamadas políticas de inclusão da era PT, ainda que operadas com as migalhas que o sistema deixou cair, promoveram, involuntariamente, certa abertura de espaço político para novos e alguns renovados atores sociopolíticos e lutas sociais com efeitos sobre conformações identitarias daqueles grupos “residuais”, e que tem gerado ruídos capazes de reverberar sobre as estruturas de poder tradicionais.
A amplitude desse ruído alcança inclusive aqueles que se aferram à nostalgia do Estado de bem-estar social; as categorias teóricas e políticas do século XX tem sido, ainda superficialmente, postas em reflexão crítica diante das novas lutas e buscas de novas formas de organização que estão cada vez mais dadas em rede e detonando uma renovada preocupação sobre o “comum”. Nesse ínterim o Estado-nação westephaliano, tão severamente surrado na crítica das Relações Internacionais há quase meio século, segue sorrindo; com o rosto inchado, mas sorri.
A possibilidade de reinventar ou criar categorias se esmorece diante da entediante oposição Estado versus Mercado mantida por desenvolvimentistas e neoliberais. E a suposta esquerda – brasileira em particular e latino-americana em geral – se faz, paradoxalmente ao cuidado que teve com as regras no jogo para a inserção globalizada, cada vez mais nacionalista. Tal característica, aliás, é “um dos principais mecanismos de defesa da política econômica de Dilma ainda hoje”, na avaliação do jurista e filósofo, Moisés Pinto Neto.
Contudo, naquilo que o petismo e seus rivais-antes-aliados-antes-rivais entendem por política que realmente existe no Brasil, há ainda a busca pela primazia da regulação do jurídico. E isso é não apenas o que prevalece, senão muitas vezes o exclusivo no debate. Com as crises, a noção de política passou a se dar, mesmo pra quem nunca entendeu uma patavina do assunto, sobre o tecnicismo jurídico da coisa. “ah, mas ela pedalou fiscalmente, sim”; “ah, mas isso configura crime de responsabilidade”; “ah, mas nossas instituições mostraram que funcionam…” É evidente que a crítica aqui não é contra o Estado democrático de Direito per se, senão contra a hipocrisia.
Como afirma com precisão o professor de Direito da PUC-SP, Pedro Serrano, sobre o impeachment de Dilma “há um discurso de legitimidade pela casca, e não pelo conteúdo”. Em uma análise jurídica dos recentes casos de destituição presidencial em Honduras e no Paraguai – já considerados paradigmas dos “golpes de Estado de novo tipo do século XXI” – ele afirma em seu livro Autoritarismo e golpismo na América Latina: breve ensaio sobre jurisdição e exceção, que o poder judiciário latino-americano tem sido usado para dar um verniz de legalidade a medidas que, ao fim e ao cabo, são antidemocráticas, e assim esse poder se transforma em fonte de medidas de exceção que, paradoxalmente, facilmente se convertem na regra.
Esse é o atual discurso da direita liberal no Brasil – aquela mesma que até ontem estava de mãos dadas com o PT (que num espectro ideológico histórico, cada vez mais se fez liberal e\ou socialdemocrata também). Já que o processo do impeachment se dá por todos os meios e formas, ritos e fases jurídicas adequadamente dentro das regras desse jogo, nada há de “golpe”, estamos no corrente do processo jurídico constitucional. Na versão da “casca” da coisa toda, isso é o correto. Esse é o funcionamento “normal”, do nosso famoso Estado democrático de Direito.
Ocorre que a dialética entre o político e o jurídico se mostra extremamente complexa, e se destaca como uma questão atual,  fundamental e pendente também a enfrentar-se. Na última década, pelo menos, vem se falando na disciplina de Ciência Política sobre o fenômeno da judicialização da Política, sobre como transferimos, gradativa e intensamente, o debate do Político para o terreno do Direito. A politização do Judiciário, contudo, é a crítica que obrigatoriamente vem junto, e está na pauta do dia no Brasil.
Dito grosso modo, quando a vontade política existe e se impõe, todo o edifício jurídico parece ficar dependente desse terreno, todo o ordenamento do Direito – tão eloquentemente articulado por nossos juristas – faz-se sujeito à concatenação de ideias, ideologias, discursos. A política é a ontologia do social; “é o discurso que constitui a posição de sujeito do agente social e não é, portanto, o agente social que é a origem do discurso”, diria Ernesto Laclau.
O “real” jogo dos tronos
Na sacanagem executada em Brasília é a disputa cínica entre elites partidárias (porque o PT entrou faz tempo e deliberadamente para esse jogo de elites) para não largar o osso, o governo – que eles ainda acham que é sinônimo de poder – que é mostrada como luta política, quando na verdade é apenas a exacerbação da rivalidade da democracia procedimental.
Não é luta política. É administração da coisa pública, Afinal, queremos fazer política ou gerenciar o sistema? Apenas administrar – o melhorzinho que der – o capitalismo, essa inexorável “realidade”, é o nosso teto?
A retórica marqueteira do golpe, tão repetidamente veiculada pelo partido de Lula, pretendeu imobilizar as lutas em nome da volta do partido ao governo. A Universidade Nômade, em seu último editorial (“Quando a trama da terra treme”), situando o que enfrentamos hoje a partir das Jornadas de Junho, indica onde se iniciou o errático ponto de inflexão, fazendo até referência à cultura pop, pra que bem se entenda:
“A repressão de junho (de 2013) foi uma decisão consciente do governo do PT, indesculpável sob qualquer ótica de realismo político, e amparada inclusive por intelectuais que atuam mais como funcionários de propaganda do que pensadores. Em vez dos impasses serem metabolizados para um novo impulso, foram simplesmente negados, por meio da postulação conformista de ondas reacionárias, mídias malignas e terríveis retrocessos – como os Caminhantes Brancos de Game of Thrones, absolutamente outros, viriam do nada para destruir a civilização petista. O resultado, previsível e previsto, foi empurrar a justa indignação no colo de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL, o grupo ultraconservador que se fez liderança na oposição a Dilma). ”
Em termos ideológicos, a brecha que se abriu pela implosão do Estado desenvolvimentista petista atacado por esses “outros” tem sido efetivamente preenchido pelo pensamento liberal, quando não fundamentalista, em vários setores da sociedade brasileira. Falta projeto, falta discurso. A ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa, e o declínio dos governos progressistas sul-americanos demonstram que o quadro é amplo e as conexões irremediáveis.
A transcendental questão de Lênin
Esses episódios sobre a atual disputa pelos tronos no Brasil serão lidos no futuro com a surpresa de quem se depara com descaramentos, e sacanagens, claro, dos dois lados, que tentam fazer o maniqueísmo prevalecer. Destaque para o PT que não se cansa de querer tentar se tingir e retingir de vermelho quando lhe convém. Em tempos de comunicação através de memes, o brasileiro não perde tempo e se encontra no facebook: “Arte marcial com a técnica do PT-dô – atacar com a direita, defender-se com a esquerda”…
Então, “O que fazer?” Um dos grandes problemas hoje é o vácuo de organização entre as forças de esquerda ou progressistas no país – pelo menos em nível partidário – devido ao imenso descrédito em que despencou o PT e seus seguidores diante dos setores mais combativos da sociedade. Mas o partido Lulista parece não querer abandonar de vez o lugar de representação da esquerda no país, há muito tempo não merecido, incoerente e falsamente ocupado.
A recente rejeição oficial da cúpula petista à proposta de plebiscito por novas eleições presidenciais (proposta defendida na última hora, como último recurso de popularidade, pela própria presidenta Dilma) é mais um inequívoco gesto comprobatório de sua adaptação irreversível às regras do jogo, e, contudo, Lula não se cansa de repetir que será candidato em 2018. Isso caso não seja preso, e assim extirpado do jogo de curto prazo, pela mesma conspiração política atualmente vitoriosa – um cenário quase palpável.
Nós queremos fazer política, isto é, um pensar e agir socialmente que passa necessariamente por rupturas constituintes, e não gerenciamento do capital. Disputar sentidos de cenário de curto e longo prazo da democracia, não apenas se alinhar em jogar resignadamente nas regras reconhecidamente perversas. A pós-democracia, que alguns intelectuais reclamam começar a fazer-se vigente, é mesmo apenas o regime no qual as formalidades procedimentais são o que resta do seu esvaziamento (deliberado?) de conteúdo desse conceito?
O êxito da restauração neoliberal e conservadora no Brasil, extremamente agressiva, não reconhece os limites antes impostos pela própria democracia liberal. Mas essa ofensiva carrega em si mesma sua vulnerabilidade. A irregularidade do processo de impeachment fez impacto na suposta estabilidade institucional, e permitiu florescer a tese do golpe. Tal manobra reduziu, ou revelou, as atuais instituições dessa democracia a uma espécie de boneco mamulengo, e despertou com isso o desejo de superação do conceito de representação e de sua reinvenção. Novamente o texto da Univesidade Nomade ajuda a concluir:
“Os mesmos que agora atribuem o governo pós-impeachment a um golpe de estado minimizam o fato que votaram Temer e, em favor de sua eleição, participaram de uma campanha de hegemonia que contribuiu para saturar o ambiente político de binarismos, difamações, linchamentos virtuais. A saída não virá não virá simplesmente da prisão em massa dos corruptos e corruptores, sem a construção de novas instituições e a regeneração das existentes, a partir do ímpeto de lutas e indignações. Não há atalhos, nem pela via economicista, nem pela punitivista”.
O desafio da conformação do “comum” está latente na atual efervescência política brasileira. É necessário valer-se do momento para pensar, diante da oportunidade histórica, as estruturas sociais do país e as possiblidades concretas de melhora-las, torna-las efetivamente inclusivas, justas e dinâmicas, ou talvez realmente transformá-las. É um fazer político deixado de lado em nome do pragmatismo eleitoreiro plasmado pelos arranjos de elites partidárias que reduzem a política a um jogo de procedimentos e a um gerenciamento administrativo. Estas sacanagens, tão importante quanto as que passaram a ser chamadas de golpe, tampouco nos furtaremos de enfrentar.

Sunday, 11 September 2016

LA CANALLADA DE LOS GOLPES DE ESTADO EN BRASIL, Y LA REALIDAD DE IMAGINAR EL SIGLO XXI


Por Aleksander Aguilar
10/09/2016

En ASUNTOS DEL SUR

Canallada. Esa parece ser una de las construcciones de sentido más directas y evidentes del significado del “golpe” consumado en Brasil. Es una descripción lo suficientemente coloquial como para poner fin a la disputa narrativa que se instauró en el país este año -a consecuencia de reacomodos, confusiones o otras canalladas políticas iniciadas, por lo menos, en 2013. ¡Una gran canallada! Es posible imaginar a algún miembro del PT (Partido de los Trabajadores) de alto rango reclamando al estilo de un circo: ¿Qué? ¿Impeachment? ¿Qué canallada? ¡Esto es un golpe!

Porque es una canallada, convengamos. El espectáculo se dio en consencuencia. El Lulapetismo “bombeando” una idílica conciliación de clases desarrollista, y los miembros del PMDB (Partido del Movimiento Democrático de Brasileño), que estuvieron todos estos años sosteniendo el anclaje de una década, aprovechando las aún no plenamente descifrables manifestaciones masivas de 2013 para tender una trampa en la que cae Dilma para ser reelegida en 2014 y, simultáneamente, una conspiración palaciega con el PSDB (Partido de la Social Democracia Brasileña) en 2015. ¡Inmoral!

No es una ironía. En el juego de la política brasileña realmente existente, que los sabios de la ciencia política y otros expertos de la realpolitik adoran definir y convocar, vulgarizar un procedimiento constitucional de tal densidad y seriedad para destituir a la presidenta de la república debido a tecnicismos burocrático-fiscales (tres contratos con permisos inadecuados de gasto, algo que "la política realmente existente" permite en todos los niveles de gobierno del país, incluyendo el propio gobierno de Temer), ponen en evidencia que lo que sucedió es sin duda una canallada. Un golpe, en la jerga del gobernismo ahora post-gobernista.

No hay que poner, sin embargo, toda la experiencia petista en el basurero de la historia. Una política exterior “activa y orgullosa”, la reducción de la extrema pobreza y algunos logros en derechos humanos están entre los que podemos llamar avances, pero contrastan con las luchas sociales esterilizadas, que pasaron a ser vistas como residuos del proceso. Ribereños, quilombolas, favelas, reforma agraria, indígenas y tantos otros grupos y temas fueron obstáculos del proceso de modernización de Brasil en la era del PT, representado emblemáticamente por mega-eventos (Copa del Mundo y Juegos Olímpicos) y la represa hidroeléctrica de Belo Monte.

La era del Lulopetismo tuvo como eje la lógica gerencial y empresarial llevada al ámbito republicano, marcada por conflictos de repartición de status entre elites partidarias y, pasando en la gestión de Dilma al apogeo de la inmersión oligárquica de un gobierno que, por sus orígenes y la hegemonía partidaria, podría haber buscado romper con este paradigma. Por el contrario, se ató para sustentarse, deliberada y arrogantemente, en los actores políticos que consideraba “reales” y necesarios, como los gigantes de la construcción civil y de los agronegocios, que comenzaron a repartir las cartas de las relaciones institucionales de poder, asimilando, así, una matriz socioeconómica que en lugar de financiar la inclusión social basada en el consumo (como estaba previsto erróneamente), terminó generando un profundo descontento entre todas las clases sociales que quiso reconciliar.

Las consecuencias desastrosas, y constantemente lamentadas por toda la parafernalia marketinera en la que el PT se especializó -incluyendo militantes ingenuos huérfanos e intelectuales dependientes que se retuercen en malabares teóricos para justificar la decadencia- ya las conocemos.

Aún así, no hay signos a corto plazo de paralelismos inmediatos, como el terror de 1964, pero esto no significa que no haya pérdidas, destrucciones y retrocesos difíciles de conquistas sociales –aunque tímidas- obtenidas durante el período llamado post-neoliberal. Siempre se puede empeorar, dice una verdad.

No será el “Fuera Temer” ni tampoco el “Vuelve, querida” que desgastará el gobierno actual o revertirá la situación. Tal vez haya algo de liberador en acusar moralmente a los conspiradores, pero la deconstrucción de esta canallada sólo es posible mediante un nuevo proyecto social crítico y transformador, no un fútil intento de recomponer el Lulismo, y esto pasa por la disposición, dura, de comprender y aceptar lo que permitió la restauración conservadora, y de proyectar nuevos e imprescindibles imaginarios políticos.

No se trata de creer en la posibilidad de establecer el Paraíso en la Tierra (o en cualquier otro lugar), ni de hacer de la política el punto nodal de la constitución moral. Más peligrosamente esencialista aún sería, sin embargo, caer para siempre en la confusión entre el realismo y el cinismo, tratando de ignorar deliberadamente qué es de lo que existe que se puede romper con lo existente. Para  realizar transformaciones hay que enfrentar cambios constituyentes, de lo contrario no pasarán del mero conformismo que se revelará incapaz de mantener cierta longevidad, produciendo un interregno de inestabilidades severas en Brasil.

Entre el Estado y el estar cómo se puede ser: hipocresías

Las llamadas políticas de inclusión en la era del PT, a pesar que operaban con las migajas que el sistema dejaba caer, promovían involuntariamente cierta apertura del espacio político para nuevos y algunos renovados actores socio-políticos y luchas sociales con efectos sobre las conformaciones identitarias de esos grupos residuales, que generan han estado generando ruidos capaces de resonar en las estructuras de poder tradicionales.

La amplitud de ese ruido alcanza inclusive a aquellos que se aferran a la nostalgia del Estado de bienestar social; las categorías teóricas y políticas del siglo XX, aunque superficialmente, han sido puestas en reflexión crítica ante las nuevas luchas y búsquedas de nuevas formas de organización que están cada vez más dadas en red, detonando una renovada preocupación sobre lo “común”. En ese ínterin el Estado nación westfaliano, tan severamente golpeado en la crítica de las relaciones internacionales desde hace casi medio siglo, sigue sonriendo; con la cara hinchada, pero sonríe.

La posibilidad de reinventar o crear categorías se desvanecen ante la tediosa oposición entre Estado y mercado mantenida por desarrollistas y neoliberales. Y la supuesta izquierda -brasilera en particular y latinoamericana en general- se hace, paradojalmente al cuidado que tiene con las reglas de juego de la inserción global, cada vez más nacionalista. Tal característica, por otra parte, es “uno de los principales mecanismos de defensa de la política económica de Dilma hoy en día”, evalúa el jurista y filósofo, Moisés Pinto Neto.

Sin embargo, aquello que el petismo y sus rivales-antes-aliados-antes-rivales entienden por política que realmente existe en Brasil, se enmarca aún en la búsqueda para la primacía de la regulación de lo jurídico. Y eso no sólo es apenas lo que prevalece, sino que en muchas ocasiones es lo único que se debate. Con las crisis, la noción que se tiene de la política pasó a enfocarse, incluso para aquellos que nunca entienden nada del tema, en los tecnicismos jurídicos de la misma. "Oh, pero ella pedaleó fiscalmente, sí"; "Ah, pero eso establece la responsabilidad del delito"; "Ah, pero nuestras instituciones han demostrado que funcionan..." Es evidente que la crítica aquí no está en contra del Estado democrático de derecho per se, sino contra la hipocresía.

Como afirma con precisión por el profesor de derecho de la PUC-SP, Pedro Serrano, sobre el impeachment de Rousseff "hay un discurso de legitimidad por lo superficial, y no por el contenido”. En un análisis jurídico de los recientes casos de destitución presidencial en Honduras y Paraguay -ya considerados paradigmas de los "nuevos golpes de Estado del siglo XXI"- dice, en su libro Autoritarismo y golpes de Estado en América Latina: un breve ensayo sobre la jurisdicción y la excepción, que el poder judicial en América Latina se ha utilizado para dar un barniz legal a las medidas que, después de todo, son antidemocráticas, por lo que el poder se convierte en una fuente de medidas de emergencia que, paradójicamente, fácilmente se convierten en regla.

Este es el actual discurso de la derecha liberal en Brasil -el mismo que hasta ayer estaba de la mano con el PT (que en un espectro ideológico histórico, se convirtió cada vez más en liberal y/o socialdemócrata también). Dado que el proceso de juicio político se da por todos los medios y formas, ritos y etapas legales, adecuadamente dentro de las reglas del juego, no hay nada de "golpe", estamos en el proceso legal constitucional actual. En la versión de la "cáscara" de todo el asunto, eso es correcto. Ese es el funcionamiento "normal" de nuestro famoso Estado de derecho democrático.

Resulta que la dialéctica entre lo político y lo jurídico se muestra extremadamente compleja, y se destaca como una cuestión fundamental y pendiente también a enfrentarse. En la última década, por lo menos,  se ha estado hablando en la disciplina de las ciencias políticas sobre el fenómeno de la judicialización de la política, sobre cómo se va transfiriendo, progresiva e intensamente, el debate político al campo del derecho. La politización del poder judicial, sin embargo, es una crítica que obligatoriamente debe realizarse, y está en la agenda del día en Brasil.

Dicho a groso modo, cuando existe la voluntad política y se impone, toda la estructura jurídica parece quedar dependiente de este terreno, todo el ordenamiento del  derecho –tan elocuentemente articulado por nuestros juristas- queda sujeto a una concatenación de ideas, ideologías y discursos. La política es la ontología de lo social; "es el discurso el que constituye la posición de sujeto del agente social y no es, por lo tanto, el agente social el que está en el origen del discurso", dice Ernesto Laclau.

El “verdadero” Juego de Tronos

La inmoralidad realizada en Brasilia es la cínica disputa entre las elites partidarias (porque el PT entró hace tiempo y deliberadamente en ese juego de élites) para no perder la costumbre; el gobierno -que ellos aún creen que es sinónimo de poder-  se muestra como en una lucha política, cuando en realidad es sólo la exacerbación de la rivalidad de la democracia procedimental.

No es lucha política. Es la administración de la cosa pública, después de todo, ¿Queremos hacer política o gestionar el sistema? Sólo administrar -lo mejor que se pueda dar- el capitalismo, esa inexorable "realidad" ¿es nuestro techo?

La retórica marketinera del golpe, cómo se transmite repetidamente por el partido de Lula, pretendió inmovilizar las luchas en nombre de la vuelta del partido al gobierno. La Universidad Nômade en su último editorial ("Cuando la trama de tierra tiembla"), situando a lo que nos enfrentamos a partir de las Jornadas de Junio, indica dónde se originó el errático punto de inflexión, haciendo referencia incluso a la cultura pop, para que bien se entienda:

"La represión de junio (2013) fue una decisión consciente del gobierno del PT, injustificable bajo cualquier punto de vista del realismo político, y amparada incluso por intelectuales que actúan más como funcionarios de propaganda que como pensadores. En lugar de metabolizar los impasses hacia un nuevo impulso, se les negó simplemente, a través de una postulación conformista de olas reaccionarias, medios de comunicación malignos y terribles retrocesos –como los Caminantes Blancos en Juego de Tronos, absolutamente otros, vendrían de la nada para destruir la civilización petista. El resultado, previsible y previsto, fue empujar la justa indignación en el regazo de grupos como el Movimiento Brasil Libre (MBL, el grupo ultraconservador que ha liderado la oposición a Dilma)."

En términos ideológicos, la brecha que se abrió por la implosión del Estado desarrollista del PT, atacado por esos “otros”, ha sido llenada con eficacia por el pensamiento liberal, cuando no fundamentalista, en diversos sectores de la sociedad brasileña. A falta de proyecto, falta de discurso. El ascenso de la extrema derecha en Estados Unidos y Europa, y el declive de los gobiernos progresistas de América del Sur demuestran que el cuadro es amplio y las conexiones irremediables.

La cuestión trascendental de Lenin

Estos episodios sobre la actual disputa por el liderazgo en Brasil serán leídos en el futuro con la sorpresa de quien se enfrenta a descaros e inmoralidades, por supuesto, en ambos lados, tratando de hacer prevalecer el maniqueísmo. Especialmente el PT que no se cansa de querer teñirse rojo cuando le conviene. En tiempos de la comunicación a través de memes, el brasileño no pierde el tiempo y se encuentra en Facebook: "Arte marcial con la técnica del PT-do, atacar con la derecha y defenderse con la izquierda”.

Entonces, "¿Qué hacer?" Uno de los grandes problemas que hay hoy en día es el vacío organizativo entre las fuerzas de izquierda o progresistas en el país -al menos a nivel partidario- debido al inmenso descrédito en que se sumergió el PT y sus seguidores ante los sectores más combativos de la sociedad. Pero el partido de Lula no parece querer abandonar de una vez el lugar de representación de la izquierda en el país, que inmerecida, incoherente y falsamente ha ocupado por mucho tiempo.

El reciente rechazo oficial de la cúpula del PT a la propuesta de plebiscito para nuevas elecciones presidenciales (propuesta defendida en el último minuto, como último recurso de popularidad por la propia presidenta Dilma) es más un gesto inequívoco y comprobatorio de su adaptación irreversible a las reglas del juego y, sin embargo, Lula no se cansa de repetir que será candidato en 2018. Esto en caso que no quede preso, y así extirpado del juego a corto plazo, por la misma conspiración política actualmente victoriosa -un escenario casi palpable.

Queremos hacer política, esto es, un pensar y actuar socialmente que necesariamente implica rupturas constituyentes, no gestionar el capital. Disputar sentidos del escenario de corto y largo plazo de la democracia, no sólo ajustarse a jugar con resignación con las reglas reconocidamente perversas. La post-democracia, que algunos intelectuales reclaman comenzar a hacerse vigente, ¿es sólo un régimen en el que las formalidades procedimentales son lo que queda del vaciamiento (deliberado?) de contenido de este concepto?

El éxito de la restauración neoliberal y conservadora en Brasil, extremadamente agresiva, no reconoce los límites antes impuestos por la propia democracia liberal. Pero esta ofensiva lleva en sí misma su vulnerabilidad. La irregularidad del proceso de impeachment se repercute en la supuesta estabilidad institucional, y permite que florezca la tesis del golpe. Esta maniobra redujo, o reveló, las instituciones actuales de esta democracia a una especie de títere, y despertó así el deseo de superación del concepto de representación y de su reinvención. Una vez más el texto de la Universidad de Nômade ayuda a concluir:

"Los mismos que ahora  le atribuyen al gobierno post-impeachment la acusación de un golpe de Estado minimizan el hecho de que votaron por Temer y, en favor de su elección, tomaron parte en una campaña de hegemonía que contribuyó a saturar el ambiente de binarismos, difamaciones, linchamientos virtuales. La salida no vendrá simplemente a partir de la detención masiva de corruptos y corruptores, sin la construcción de nuevas instituciones y la regeneración de las existentes, a partir del ímpetu de las luchas e indignaciones. No hay atajos, ni por la vía economicista ni por la vía punitvista".

El desafío de la conformación de lo “común” está latente en la actual efervescencia política brasileña. Es necesario aprovechar el tiempo para pensar, dada la oportunidad histórica, las estructuras sociales del país y las posibilidades concretas para mejorarlas, volverlas efectivamente inclusivas, justas y dinámicas, o tal vez realmente transformarlas. Es una actitud política que deja de lado el pragmatismo electoralista plasmado en los arreglos de las élites partidarias que reducen la política a un juego de procedimientos y a un gerenciamiento administrativo.  A estas canalladas, tan importantes como las se convirtieron en llamadas de atención, tampoco nos vamos a contener de hacerles frentes.

Thursday, 8 September 2016

Au Brésil, le Parti des travailleurs doit-il disparaître ?

Outro registro da circulação colaborativa de publicações, desta vez no altereco+plus de artigo originalmente publicado, em abril de 2016, na Asuntos del Sur
Primeira vez que me vejo traduzido em francês :) 
ALEKSANDER AGUILAR - 22/04/2016
La procédure de destitution de la présidente brésilienne Dilma Rousseff, qui s’apparente à un coup d’Etat, sera menée jusqu’au bout par la coalition qui l’a lancée. Cette coalition mêle des milieux d’affaires, des parlementaires, des médias et des magistrats. Si la procédure aboutit, elle engendrera des conséquences graves et durables pour l’Etat de droit démocratique du Brésil et pour toute l’Amérique du Sud. Pourtant, face à cette crise politique profonde, certains espèrent encore «sauver » l'identité du Parti des travailleurs (PT). Les identités politiques, cependant, ne sont ni fixes, ni stables pour pouvoir être ainsi simplement « sauvées ».
Un front contre la dictature
Le Parti des travailleurs, qui selon l’expression de Luis Inacio Lula da Silva, son principal représentant se flatte d’être « la plus grande et la plus aboutie des organisations de gauche latino-américaines »  est né en février 1980 et a longtemps fonctionné comme un vaste front au sein duquel ont cohabité des groupes de différentes origines et orientations idéologiques, toujours assimilés au champ politique présumé de la gauche. Un champ qui s’est constitué durant les dernières années de la dictature et contre celle-ci.
Mais aujourd’hui, après 36 ans d’existence et quatre victoires successives lors des élections présidentielles, le Parti des travailleurs n’existe que parce Luis Inacio Lula da Silva lui-même existe. Des récents sondages sur les intentions de vote désignent Lula comme le favori pour l’élection présidentielle de 2018, confirmant que le parti dépend d’abord de son nom. Cette situation ne découle pas simplement des circonstances, mais résulte de la volonté délibérée du parti et de ses choix.
Le man
Concessions éthiques
Dans un exposé sinueux, André Singer, politologue, journaliste, et porte-parole de la présidence durant le premier gouvernement de Lula, confirme cette analyse quand il écrit que le lulisme est dans le coma, mais qu’il n’est pas encore mort. Le PT semble en effet chercher une issue à son affaiblissement chronique dans un nouveau recours à Lula, mais en retombant dans la même erreur méthodologique que celle de ses seize années de gouvernement. C’est-à-dire en évitant de mettre en oeuvre des réformes structurelles et en continuant à faire des concessions, y compris (et même surtout) éthiques.
Ces concessions, il les a faites dans le passé à l'industrie agro-alimentaire et aux géants internationaux du bâtiment qui ont diffusé la « culture de la corruption » et qui ont assuré la croissance économique du pays à un coût social terrible. Il les a faites également aux partis politiques néo-pentecôtistes, présents au Parlement, qui ont fait reculer les droits humains et sociaux.
Le PT s’est également montré très accommodant avec les grands groupes médiatiques (ceux-là mêmes qu’ils critiquent aujourd’hui à cause des accusations portées contre lui). Des groupes auxquels il a concédé des budgets publicitaires considérables pour esquiver le débat sur la nécessaire démocratisation des moyens d’information. Enfin, plus récemment, le PT n’a pas hésité à proposer sans vergogne de plus en plus de postes gouvernementaux à la droite nouvelle et traditionnelle (son alliée depuis le premier gouvernement Lula, en réalité) en échange de votes contre la procédure de destitution de Dilma Rousseff.
Changement lentAndré Singer reconnaît que Lula et le PT n'ont jamais été préoccupés par la transformation des règles du jeu politique, mais qu’ils ont cherché à tout prix à devenir un acteur pertinent dans ce paysage. A ses yeux, l’idée que des réformes structurelles auraient pu être réalisées dans le pays pendant le boom des matières premières qui a assuré le succès des gouvernements Lula est une idée « abstraite » car le modèle défendu par le leader du PT a toujours prôné une méthode de changement très lent, par la marge.
De manière délibérée, les gouvernements du PT n’ont pas voulu créer les conditions matérielles qui permettent de forger un projet national. Ils se sont transformés, aux côtés des élites traditionnelles, en otages de leur propre succès. Le PT a bâti une présumée intégration sociale fondée en réalité sur la consommation, et non pas sur une véritable citoyenneté, convaincu que tout irai bien tant que les pauvres seraient de moins en moins pauvres, mêmes si les riches devenaient de plus en plus riches.
Au lieu de modifier l'équilibre du pouvoir au Brésil, qui penche à l’évidence du côté des élites lesquelles maintiennent les inégalités et l'injustice sociale en repoussant les réformes indispensables (propriété de la terre, loi électorale, démocratisation des médias…), le parti a préféré continuer à jouer à « Games of Thrones », un jeu dans lequel soit on vainc, soit l’on meurt.
Le Lulisme et PT sont donc en train de mourir aujourd’hui. Le parti, en vertu de la fameuse « habileté » politique de Lula, a préféré payer un prix absurde pour conserver ses honteux alliés au nom d'une prétendue realpolitik, plutôt que de gouverner avec le peuple, comme l’affirme Luiza Erundina, députés fédérale et figure reconnue sur la gauche dit Brésil, c’est-à-dire en formant une alliance, efficace avec la société civile.
Ses alliésL’aspect le plus pathétique de ce choix est que ses « alliés » de près de 20 ans contre lesquels il avait pourtant été mis en garde, y compris depuis l’intérieur du PT lui-même montrent aujourd’hui, à travers la procédure de destitution, qu’ils n’ont jamais vu dans le parti qu’un allié tactique qui leur a permis de garantir et de maximiser leurs profits pendant la décennie de boom des matières premières.
Mais précisément le capitalisme ne peut offrir une croissance économique stable, solide et durable. La combinaison de la chute de l'économie mondiale et des lourdes carences de la politique industrielle brésilienne ont mis un terme au cycle néo-libéral de l’insertion internationale du pays. En n’étant plus utile aux intérêts des élites et en ne bénéficiant plus par ailleurs de sa popularité passée, le PT est devenu un outil obsolète, comme le montre la procédure de destitution, aux allures de coup d’Etat, par laquelle les élites traditionnelles cherchent à contourner l’Etat de droit.
C’est la leçon que le PT doit encore apprendre : un parti politique ne constitue pas une fin en soi. Et ces outils que sont les partis politiques s’usent, et du coup peuvent ou même doivent disparaître.
Au centre-droitEn l'état, avec son évidente orientation de centre-droit, le PT ne sert plus à  personne aujourd’hui. Au vu de l’enfer que le gouvernement vit en ce moment, le parti sait (ou devrait savoir) qu’il n’obtiendra pas d’appui à droite. Et alors que le second gouvernement Dilma Rousseff a clairement mis en œuvre une politique économique néolibérale, le parti utilise maintenant la rhétorique du coup d’Etat mené contre lui pour solliciter l'appui d'une "base" de gauche. Comme on l'a fait remarquer de manière critique Frei Beto, le PT ne se souvient des mouvements sociaux que lorsqu’il doit éteindre un incendie…
Avec le même réalisme dont il s’est tant glorifié ces dernières années, le gouvernement devrait comprendre que c’est sur la gauche qu’il pourrait compter aujourd’hui pour peu qu’il envoie des signaux montrant qu’il est prêt à mettre en œuvre un programme progressiste, et même radical. Ce qui est en jeu au Brésil, ce n’est pas le gouvernement du PT, ni son héritage. Les manifestations des 18 et 31 mars ont montré que les forces politiques de gauche, et pas seulement les forces partisanes, sont prêtes à défendre le pays, à défaut de défendre le gouvernement.
Le PT doCes défilés " contre le coup d'Etat " ne sont pas historiques parce qu'elles étaient favorables au PT, mais parce qu’ils ont regroupé les gauches brésiliennes autour du slogan « A bas le réseau Globo » (NDLR : le plus grand groupe brésilien de médias) ce qui ne s’était pas vu depuis trente ans, renforçant ainsi leur revendication d’une démocratisation des médias de masse. Ce message doit être respecté et compris.
Il reste peut-être un dernier espace politique pour une réorganisation du PT en lien avec les mouvements sociaux pour peu qu’il s’engage à réaliser au minimum le programme qu’il avait mis en avant durant la campagne de l’élection présidentielle de 2014.
Dans le cas contraire, le PT aura atteint ses limites. Par cohérence et par un sens minimal de ses responsabilités, il devrait disparaître, devenir une référence du passé et laisser germer la nouveauté.
Aleksander Aguilar est journaliste et linguiste. Il coordonne la plateforme OISTMO

Cet article est publié avec l’accord de Asuntos del Sur

Wednesday, 31 August 2016

To coup or not to coup: radical political reform is the only way to resolve Brazil’s political crisis

Today, when the Brazilian Federal Senate has voted for the definitive impeachement of  the president of the Republic (now former), Dilma Roussef, I have found out this article I wrote in July for "Asuntos del Sur", originally in Spanish, which has been translated into English and published by Open Democracy. (thanks guys!).

As its ideas and main arguments remain updated even after this odd institutional decision of forcing her to step down, I am posting it here in this old  personal archive for personal recording purposes.


To coup or not to coup: radical political reform is the only way to resolve Brazil’s political crisis
ALEKSANDER AGUILAR 22 July 2016

Brazil continues to struggle with a political and representational crisis. As the country’s institutions collapse, the slogans Fora Temer and Volta Dilma no longer serve a purpose. Español


Demonstrators march holding a banner with a drawing depicting Brazil's President Dilma Rousseff that reads in Portuguese "In defense of democracy, Dilma stay" during a protest. Sao Paulo, Brazil. 2015. AP Photo/Andre Penner.

Political debate in Brazil is reaching a new level. Since May this year, when the incumbent President Dilma Rousseff was ousted and replaced with the interim government of Michel Temer, the country has been contesting the narrative surrounding the political ‘coup’. Meanwhile, the country continues to struggle with the surrounding political, institutional and representational crisis, one that since February, has been crippling the entire institutional framework of the Republic and its infamous (or rather, infamous) balance of power.

The roots of this beleaguering crisis are deep and diverse. But it is clear that it is the distorted political alliances that come as a consequence of Brazil’s ‘proportional’ institutional framework are of central importance to the debate. That is to say, that electoral system that serves the legislative powers at their various levels (municipal, state and federal), in a system of coalition Presidentialism, form the national order we see today – with all its oddities and failings. And this national order has produced a Congress that is incompatible with the programme set in 2014 by the suspended president, Dilma Rousseff, of the Partido dos Trabalhadores (PT).

On April 17th this year, the current National Congress of Brazil caused the nation world-wide embarrassment when it voted for the impeachment of President Rousseff, despite the lack of legal basis behind this horror-show of a decision. It lacks political reasoning and is characterized by extremely conservative fundamentalism. On May 12th, the Senate – Brazil’s upper house – approved Congress’ decision. This has created deep divisions across the country, fueled by widespread confusion and disappointment. Nevertheless, a margin of hope remains, as the country-wide debate on the future of the political system could be pointing towards a constitutional referendum that would establish early general elections.

A Rousseff return or new beginnings?

The majority of the Left’s critics complain of a current political process that is conducted with such malice and depravity. They warn of the headache that the interim government of Michel Temer, chairman of the Brazilian Democratic Movement Party (PMDB), would bring as a long-term replacement to the previous Rousseff government.

Within Temer’s government, most of its members are associated with the denouncing of illegal election funding and wider corruption, as well as supporting the ‘Lava-Jato’ investigation. Yet this interim government now behaves as if it has assumed its position as the Federal Executive to promote an entirely new agenda from the one that was given a mandate following 2014 general election. And as such, his ongoing presidency of the Republic should be seen as an unwelcome tarnishing of Brazil’s democratic credentials.

However, the length of Temer’s provisional government, which neither provides stability nor holds popular support, should not be at the centre of the current debate: Fora Temer is not enough. For this interim government plays only a minor role in the chaos of this year’s most talked about political drama, which culminated in the political ‘coup’ that ousted Rousseff.  Yet neither would the return of unseated President guarantee any true capacity to govern, considering the congressional nature of her impeachment and the ongoing conflict between the legislative powers of the Brazilian Republic.

Therefore, in finding a solution to Brazil’s political crisis, we should be asking which legal institutions have the capacity to break the impasse between the executive and legislative branches?

What does a ‘counter coup’ look like? 

Stood in the situation it is in, one of the possible solutions to solve this institutional crisis would be to call for a constitutional referendum, in order to conform the commitment to early general elections.

However, this alternative can hardly be justified if it is understood as a political opportunity, as it has in the past, but rather as the return to a serious debate over the meaning of Brazilian democracy and the role of its institutions – with radical reform in mind.

The majority of the population (62% according to the Instituto de Pesquisa de Opinião) hold the view that civil society movements and parliamentarians can unite around a proposal for fresh presidential elections, which would set a kind of remake of Diretas Ja – in reference to the largest nation-wide mass political campaign at the beginning of the 1980s, which called for general elections as part of the end of the military dictatorship that had dragged on since 1964.

Within the ranks of the divided PT, there are those who understand that this is this alternative is the best to bring them votes in the Senate (which in August, must vote on the impeachment of Rousseff), whilst also ensuring reprisal against the previous Rousseff government for its actions. This could be resolved if the President were to block the existing agreement for a new general election. This could be resolved if the President were to block the commitment to hold fresh general election.

However, there is a group within the PT feel that see the success of the political ‘coup’ and its surrounding narrative as the best outcome. By this option, the PT could distance itself from the tarnished image of Rousseff, instead realigning with the name of Lula in its campaign to return to power as soon as possible.

The two largest trades unions and social movements in Brazil, the CUT and MST respectively, are not convinced either. However, they could well accept the proposal of a constitutional referendum if it were to convene an Exclusive Constitutional Assembly to, among other things, push for political reform – something that has been frequently been raised in Brazil for years.

With this in mind, it is clear that the situation in which Brazil finds itself in has signaled both the need and the opportunity to organize a ‘counter coup’: to start debate and to mobilize ahead of October’s general elections.

The Ongoing Debate

The debate on the meaning of the ‘coup’, and the now looming proposal of a ‘counter coup’, has proved both polemic and far reaching - not just between competing groups on the Left of the political spectrum, but also those on the Left.

The PT’s opposition to the impeachment of President Rousseff has been based entirely on the illegitimacy associated with the word ‘coup’, enabling them to mobilize large parts of the Left. It is a body of popular support that for over 30 years have seemed fragmented and dispersed, now supporting a party that – particularly in Rousseff’s second term in office – became widely accepted as being politically indefensible.

The term ‘coup’, when in the context of the 1964 coup d’état that led to the overthrowing of the democratically elected government by parts of the armed forces, obviously carries strong historic connotations for the PT and its supporters. However, it is clear that even the most fervent PT supporters know all too well that the ‘coup’ of 2016 does no align with its historic meaning in the strict sense of the word.

Meanwhile, those on the Left who reject the ‘coup’ narrative - devised and broadcasted by the PT – are not only recognizing this conceptual, or historical, adaptation of the term, but they are also looking to mark their distance from Lula´s influence on the PT and their associated models of neo-Developmentalism. In some cases, this goes as far as to question the representation of the ‘serious’ Left itself, claiming that it is time to overcome the PT era and replace it with something new.

There is as much consistency as inflexibility among those of the ‘not to Coup’ narrative, because they don’t want to allow any room for the Lulo-PT to take advantage of this situation, presenting themselves as a progressive force being attacked by the evil forces of the right - reminiscent of Joao Goulart’s government following the coup d’état.

But if this means of categorization is forced upon us (and it seems that it already is), it would still be a sensible option for those who conform with the term ‘coup’ in describing the events of May 12th understand the debate to be an actual and virtual trivialization of the word. Because, in the words of the political philosopher Rodrigo Nunes, in light of today’s context, “perhaps we still have not trivialized the word enough”.

And so, where is the democracy?

Much like the term ‘coup’, democracy – this ‘empty signifier’ in Laclauian terms – is another overused and poorly defined term. While a furor surrounds Brazil’s ‘coup’, there seems to be little understanding of what it actually is and what how it relates to what is wanted from democracy. This is despite the fact that it is seems central to the debates concerning the country’s political and institutional crises. Few seem to understand or see the opportunity that this turbulent situation presents, or more specifically, that it offers the opportunity for serious debate on the alternative way of doing politics, a new national political project.

Early general elections present this opportunity: to think about democracy in Brazil, for the exiled political forces of left to exercise their imagination and capacity for action. They offer a realistic opportunity for the mobilization of the Left, and therefore the potential for a ‘counter coup’. With the strength of popular support, there would be the opportunity to approve the institutional rites of Congress and generate the required political debate – debate that is fundamental to the reorganization of the social and political fabric of the country.

PT members and sympathizers of Dilma, instead of continuing to focus their efforts on opposing the impeachment as an attack on democracy should perhaps provide a more constructive input into the debate and see the upcoming elections as a viable ‘counter coup’, applying pressure on these institutions which, at the end of the day, they both criticize and ultimately succumb to.

What is most important to understand is that this current crisis is an ongoing process that allows for the questioning of Brazil’s institutional design, as we know it today. If Brazilians aren’t able to respond to this crisis in the radical manner that is required, they are likely to see their political and social rights take a step backwards, to a position far more threatening than that experienced under Rousseff’s leadership.

And so, as the country’s institutions collapse, the slogans Fora Temer and Volta Dilma no longer serve a purpose. There will ultimately the need to face the challenge of radical political reform.

If the state of exception became the rule, it would make no sense to continue shouting “here comes the wolf!” That wild animal devoured much of the village a long time ago and it’s now our responsibility to save what remains. The system cannot be allowed to continue in the same way, the way that allowed for the conciliation between these beasts and ordinary men. We must accept that the past cannot be changed, but the future can.

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This article was published previously by Asuntos del Sur. 

Sunday, 21 August 2016

Mais da Satolep que te recebe, ou um pouco da local digna raiva

Mais de quatro horas numa delegacia de polícia para fazer o registro de uma ocorrência criminal. Um ato político, eu diria, gastar-se tempo e paciência, em fazer constar nas estatísticas oficiais do Estado a narrativa, já conhecidíssima dos escrivães da Civil, de mais um assalto violento com arma de fogo na cidade de Pelotas, na zona do Porto, claro – este bairro óbvio para a criminalidade desta cidade cada vez mais inóspita, e certamente tão umidificadora quanto brutalizante, do extremo Sul do Brasil onde nasci; não menos hostil, atualmente, do que muitas outras deste pais, dizem muitos. Em uma cidade do tipo universitária (cuja comunidade se concentra no Porto), de pouco menos de 400 mil habitantes, de uma complexidade étnica e social bastante razoável, e que se notabiliza pelo aumento constante e sintomático da violência multifacetada que é resultado de grandes (des)ordens políticas, sair ileso de uma agressão com arma apontada na cara já “é de botar as mãos aos céus”, também dizem. Foi “só” celular e alguns 60 pila. E ainda com o bônus, fruto do risco assumido de fazer uma argumentação com o indivíduo que me aponta o revólver, de ter ficado com os documentos. É, “o bagulho é doido”, “a vida é loka”, e “a coisa não tá fácil pra ninguém”, nem pra quem se dispõe ao trabalho de ir pessoalmente à repartição pública, praticamente para prestar um serviço gratuito ao Estado, experienciando delegacias com pouquíssimo staff, mal-organizadas, de estrutura física precária, com filas enormes e atendimentos demorados, apenas para colocar mais um número nos alfarrábios da Secretaria de Justiça e Segurança do RS (atualmente governado por uma direita patética) de forma a evidenciar a inadiável necessidade de ações, de resoluções, de reações. E nem pra quem está do outro lado do guiché, ouvindo que o fogo do circo está cada vez mais alastrando-se, trabalhando em condições sucateadas, cumprindo burocracias pra também tentar acreditar que a obviedade dos números somada a indignação em algum momento resultarão em mais do que uma mesma repetida história nos arquivos. Que o valor da vida está banalizado já é uma afirmação cliché. “Tás demorando muito, magrão, vou te estourar aqui mesmo”, o da vidalokagem afirma autoritário e quase solene, enquanto convenço-o, retirando os poucos e baixos bilhetes da niqueleira, a me deixar com os cartões de identificação e bancários fundamentais nesse tipo de vida urbanoide do qual também somos reféns. E que a zona do Porto é um dos grandes, talvez principal alvo da criminalidade em Pelotas, também é uma obviedade. É um problema de falta de policiamento? Também. Segundo o grosseiramente apurado são apenas 4 (quatro) viaturas pra cobrir toda a cidade. Toda! Mas é claro que também há o tráfico, a influência do consumo de crack, as disputas das gangas rivais cada vez mais evidente e aterrorizando a cidade, os presídios de péssima estrutura de onde lideranças do crime fogem cinematograficamente ou lá permanecem exigindo celulares e outros recursos – desses subordinados que saem às ruas assaltando - para controlar seus negócios. Somemos os fatores subjetivos da importância – ou necessidade – do jovem de periferia ter status dentro dessas organizações em ascenso enfrentando e matando sem pudor e com orgulho, e as segregações sociopolíticas clássicas marcadas pelos muros invisíveis entre os bairros pobres e o centro desta cidade, chegando até a simples influência do maldito consumismo que leva ao desejo de uma roupa de marca melhor, ou smartphones mais avançados, custe o que custar. E hoje em dia em Pelotas isso não custa muito. “É mu-mu, tio!”(marca de doce de leite pastoso), dizem os guris que se dedicam a essa atividade, principalmente nessa região da cidade, que concentra os campi da Universidade Federal de Pelotas e da Universidade Católica de Pelotas. Ou seja muito fácil, atacar a comunidade universitária, e também outros e outras trabalhador(as) de qualquer classe social, em deslocamentos profissionais, de lazer ou residencial, em toda essa zona. Sem polícia, sem medo, e sem razão para não cometer, esses crimes – em que já é comum envolver morte ou pelo menos ferimentos graves – tratam-se quase de uma simples coleta. Dois, cada um em uma bicicleta, ou em uma mesma moto, com revólver ou pistola mesmo (arma branca já é demodê) abordam transeuntes, qualquer deles – homens, mulheres, grupos, sozinhos, não importa, com o conhecido “Perdeu, perdeu!” e exigem o que quiserem, fazem o que quiserem. Se saíres vivo, agradeça tua sorte. Perdemos mesmo. Todos. Aqui estamos, e assim está, a Princesa do Sul, a Satolep, a terra do Sopapo, e todas as cidades médias e grandes deste país, e o nosso cotidiano – tal qual tantos outros lugares latino-americanos, que nos ferem a alma e nos fervem a digna raiva. O que virá, com potência, não será só de um lado, pois muitos lados vão cada vez mais fazer questão de se configurar, disso também podemos estar certos em esperar.

Thursday, 7 July 2016

De uma noite de outono pelotense em 2016

Estou passando um frio incrível na cidade de Pelotas.

Incrível não apenas porque quase não consigo acreditar que nasci e me criei nele, nisto que minha atual percepção de clima facilmente classificaria de absurdo gélido, mas também porque há um quê de extraordinário neste inverno recém chegado, em particular, pois vejo os pelotenses reclamando do quão cedo e intenso o frio chegou neste ano.

Websites de previsão do tempo afirmam que a temperatura por aqui nesta madrugada é de 4c, com sensação térmica de -4c. “London feelings”, uma amiga carioca que conheci em Londres reage a um post meu mostrando a temperatura do momento em Pelotas.

Incrível ainda porque, tomando como base o que parece ser minha atual relação com este tipo de frio, chego a falar em pelotenses em terceira pessoa. “Mas criado aqui e tanto tempo em Londres, para de frescura, tchê”, já me disseram.

E por isso, e outras razões, fui procurar no meu blog o que já havia escrito sobre frio, enquanto morava naquela ilha quase polar, e vou confirmando o quanto minha relação com o gelado já foi outra, de fato. Note-se que disse “gelado”. Porque buscando esses comentários climático-existencialistas anteriores, percebi que o meu frio costumeiramente sempre foi o gelo, e me dei conta que hoje aprendi que o frio pode sim ser apenas frio.

Mas não aqui em “Satolep”.

Por exemplo, em dezembro de 2010, sendo natural destes pampas e com alguns anos em Londres, escrevi: “O parâmetro de frio para mim é quando me vejo obrigado a usar luvas. Não sou muito fã de luvas, mas há um momento em que é fisicamente impossível andar na rua com as mãos expostas, quando os dedos realmente doem de gelado e ás vezes chega a parecer que vão congelar mesmo. ”
Hoje, entretanto, aqui nesta minha cidade natal, estou usando luvas desde primeiro dia que cheguei, e agora mesmo enquanto escrevo sinto meus dedos tesos pela falta delas. Alterno o digitar no teclado com breves aquecidas das mãos no ventinho quente embaixo do laptop, e isso estando na cama debaixo de camadas de cobertores e edredom, e com cachecol ao pescoço. O manual de sobrevivência instintiva pelotense recomenda sentar por um tempinho em cima das roupas recém tiradas do guarda-roupa e que serão vestidas, caso contrário é quase como esfregar uma barra de gelo nas costas, barriga e pernas. Faço interjeições de espanto e indignação cotidianas com o sentir literalmente na pele a falta de estrutura para o frio de uma região brasileira que urbanisticamente, na configuração interna das casas, esquece que não é tropico. Pelo menos para nós, os sem-dinheiro, que não temos lareira, nem fogão a lenha, nem climatizador, e neste momento (porque quebrou) nem uma estufa pequena para deixar um bafinho quente no banheiro por alguns minutos antes de enfrentar o chuveiro, elétrico, que simplesmente quase não dá conta de aquecer a agua quase em ponto de congelamento nas tubulações. E porque tem que se deixar o registro o mais fechado possível, para que a agua, caindo em menor quantidade, possa ficar mais quente, as vezes sinto um cheiro de queimado vindo da ducha e me preocupo que o bendito queime a resistência em meio a uma ducha. O banho diário, nessas condições, é um momento que exige concentração, preparação e desprendimento - uma prova de coragem, especialmente se for cedo pela manhã. A agua direto das torneiras sem aquecedor, senhoras e senhores, é de uma temperatura anestesiante, e é com ela que temos que lavar a louça nossa do dia-a-dia... Absurdo gélido.

Encontrei ainda nestes posts climático-existencialistas no meu blog comentários sobre como o frio em Londres “é daqueles bem úmidos, com bastante vento, que sopra gelado pelos poros até a alma, coisa de “ranguear cusco”. Lendo isso hoje, e sentindo todo o gélido diário que estou sentindo, sempre que possível tentando estar sob aquele raiozito de sol que esteve persistentemente ali por mais de meia hora só pra dar a entender que ele não fica presente por muito mais tempo mesmo, me pergunto, atualmente, e aqui é muito diferente?

Foi preciso eu entender outros Brasis, que no meu caso só foi possível conhecer tendo ido pro exterior antes, pra aceitar que parece que há mesmo semelhanças entre Londres e Pelotas nesse quesito. Não que isso seja novidade. Ao menos não o é para um certo pelotense modus vivendis que, ao fim e ao cabo, adora comparar a umidade desse pântano do Sul com a Londoner, adora associar a “murrinha” desse inverno pampeano com o tal do fog...

O fato é que  “ O frio geometriza as coisas”, como disse um personagem de Vitor Ramil, no livro “Satolep”. Talvez porque ele possa permitir, ou nos fazer crer, que a partir dele as coisas se encaixam; talvez porque encaixar-se, por conta de frio, é também embrutecer-se. Eu não quero deixar embrutecer-me:
"Mas também é bom sentir a densidade,
o cair grave em forma de azul-escuro, pesando sobre a estratosfera,
reverberando,
sentando-se em espirais,
lentas.
Ouvir timbres marinhos em mínimas solfejadas por bocas grossas,
acompanhadas pelo estalejar daquelas esquecidas pela varredura.
E tocar o vidro gélido,
sujo,
penetrar o fleumático desses tons homogêneos, de consistência escura,
cheirar emanações esbafejantes das alvoradas soturnas, nebulosas,
respingantes, menos que chuva.
Sons baixos sussurrados no vapor negativo, arfantes entre as espessuras invisíveis,
o toque de se encolher."

Wednesday, 27 April 2016

Textos curtos para Ítaca (?)

Quando eu abro os olhos pra onde estou olhando afinal?
Quando o olho abre, afinal?
Quando, olhando, o olho abre, afinal?
Quando o olho abre afinal?

Monday, 25 April 2016

Del por qué el PT debe desaparecer, o el realismo de pedir lo imposible

* Por Aleksander Aguilar
 http://www.asuntosdelsur.org/blog/2016/04/15/del-por-que-el-pt-debe-desaparecer-o-el-realismo-de-pedir-lo-imposible/
El impeachment-golpe de la presidenta Dilma Roussef, en Brasil, será llevado a las últimas consecuencias por el grupo empresarial-parlamentario-mediático-judicial que lo promueve y conduce. Caso efectúese generará graves y largos efectos sobre el Estado democrático de derecho brasileño y sobre toda la región suramericana (1). Sin embargo, ante esta profunda y dramática crisis política y de representatividad brasileña, hay gente que aún habla de un “rescate” de la identidad del Partido de los Trabajadores (PT).
Las identidades políticas, sin embargo, no son fijas ni estables para que sean simplemente “rescatadas”. Éstas se constituyen, precaria y de manera contingente, a partir de una articulación alrededor de un punto nodal, generando un nuevo discurso que puede hegemonizarse, creando una narrativa que da terreno para que las diferencias innegociables de los actores involucrados no desaparezcan, sino que configuren cadenas de equivalencia que permitan la acción conjunta.
Esta agremiación que se enorgullece, en las palabras de su principal exponente (2), en ser “la más grande y exitosa organización de izquierda de América Latina”, ha sido resultado de una situación discursiva de finales de 1970. Ha surgido precisamente en febrero de 1980 y ha funcionado por varios años como un gran Frente donde conviven muchos colectivos políticos oriundos de distintos orígenes y matrices ideológicas, siempre asociados a un presunto gran campo de izquierda, que se articuló durante el período final de la dictadura civil-militar en torno al discurso por Diretas Já! y a partir del antagónico común que la dictadura representaba.
Luego de 36 años y de victorias tan importantes como cuatro elecciones al gobierno federal brasileño, el Partido de los Trabajadores solo existe porque Luis Inacio Lula da Silva existe. Las recientes encuestas de intención de voto que apuntan a Lula como el favorito para la presidencia de la república en 2018 (3) apenas comprueban que el petismo es demasiado lulista, sumamente dependiente de este único nombre, lo cual no fue obra de las circunstancias pues el partido así lo quiso, hizo todas sus apuestas y canalizó su arrogancia en esta dependencia.
La sigla estuvo tan dedicada a construir su famosa “gobernabilidad” a lo largo de todos estos años en el Poder Ejecutivo Federal, sin una real renovación de cuadros y líderes con, al menos, una mínima fuerza electoral, que todo su “legado” en cuanto proyecto nación – que es algo como mínimo conceptualmente disputable – se perdió en la obvia falta de autocrítica que enmarcó su actuación gobernante. Un error que cobra ahora un precio letal.
Del coma a la muerte
En líneas torcidas, el politólogo y periodista, vocero de la Presidencia en el primer gobierno de Lula, André Singer, confirma esta idea cuando afirma que el lulismo está en coma pero aún no está muerto (4). El PT parece buscar, todavía, su salida para este debilitamiento crónico a partir de Lula y con la errónea metodología que siempre mantuvo en estos 16 años de gobierno, es decir, evitando reformas estructurales y haciendo concesiones, incluso (y principalmente) éticas. Estas concesiones fueron hechas a lo peor habido en los poderes republicanos y fácticos contemporáneos: a la industria del agronegocio y de los gigantes internacionales de la construcción, que permitieron la expansión de la “cultura de corrupción” y se hicieron garante del crecimiento económico del país a un terrible costo social; a la base parlamentaria neopentecostal que ha hecho retraher derechos humanos y sociales; a las grandes corporaciones mediáticas (las mismas que ahora critica en el contexto de la operación “Lava Jato”) con acuerdos publicitarios millonarios que evitaron el necesario debate sobre la democratización de las comunicaciones, y más recientemente, ofreciendo descaradamente más y más cargos de gobierno a la derecha nueva y la tradicional (sus aliados desde el primero gobierno Lula, a propósito) a cambio de votos que eviten el avance del proceso de impeachment.
Singer reconoce que el Lulo-petismo nunca ha tenido la preocupación en romper con las reglas del juego, sino en hacerse un jugador de relevancia a cualquier costo. Él ha sido perentorio en afirmar que las reformas estructurales durante el periodo de auge de las commodities, que en gran medida han asegurado el éxito de los gobiernos Lula, nunca fueron parte de la agenda, era una tesis demasiada “abstracta” (5).
Los gobiernos del PT no han querido, deliberadamente, establecer las condiciones materiales para crear un proyecto de nación y se convirtieron al lado de las élites tradicionales, en rehenes de su propio éxito. El PT creó una presunta inclusión social a partir del consumismo, y no de la ciudadanía, creyendo que todo se mantendría bien en cuanto los pobres se hiciesen menos pobres, aunque los ricos se hiciesen más ricos.
En lugar de buscar cambiar la balanza del poder de Brasil, tan obviamente pendiente hacia el lado de las élites que aseguran la desigualdad e injusticia social en el país – con medidas como la históricamente esperada reforma agraria, la urgente reforma política y electoral, la democratización de los medios de comunicación, por ejemplo –, el PT ha preferido jugar el juego de los truenos, que es aquel que cuando juegas, vences o mueres.
Es así que el Lulismo y el PT se están muriendo. El partido, bajo la celebrada “habilidad” política de Lula, prefirió pagar un precio ridículo para mantener sus aliados parias en nombre de la presunta realpolitik de la gobernabilidad, y en lugar de gobernar como dice la diputada federal y figura de renombre de la izquierda brasileña Luiza Erundina, con el pueblo (6). Es decir, en lugar de una alianza concreta, efectiva y orgánica con la sociedad civil, el PT decidió hacer “lo posible en las condiciones que encontró”, sin dar batalla a ningún esfuerzo para transformar estas condiciones y, especialmente en este segundo gobierno de Dilma,  con un Legislativo podrido para el cual tuvo que dar concesiones, incluso éticas, inmensas, con las cuales se metió y se entremezcló.
Lo más patético es que estos “aliados” de casi 20 años de gobiernos petistas – avisados que estaban desde siempre por las fuerzas realmente progresistas, incluso desde adentro del PT – han probado ahora, con el proceso de impeachment-golpe en curso, que nunca vieron al partido más que como una alianza táctica, aquella que permitiría, y permitió, que sus ganancias fueran garantizadas y maximizadas durante la década del boom de lascommodities. Dilma puede caer no por haber enfrentado los intereses de las élites en favor de un Estado más social, sino por no haber tenido la capacidad de seguir atendiendo sus expectativas y deseos.
Pero un constante y fuerte crecimiento económico es justamente aquello que el capitalismo no puede ofrecer, no se sostiene por mucho, y la combinación de la caída de la economía global, con pésimas políticas nacionales de incentivos industriales, han cerrado el ciclo neoliberal de la inserción internacional brasileña. Esto ha puesto en explícito de qué manera al dejar de ser útil a sus intereses y al ya no ostentar la popularidad de antes, el PT seria desechado como una herramienta obsoleta, tal cual se ve ahora con el impeachment-golpe que buscar doblar el Estado democrático de derecho a voluntad de sus elites tradicionales.
Esta es la lección pendiente del PT: aprender, por fin, la metáfora del instrumento sin finalidad, entender que un partido político no es un fin en sí mismo, que herramientas – tal como lo son partidos políticos en general– se desgastan y por lo tanto pueden o deben desaparecer.
Realismos y realidades imposibles
Esta desaparición petista puede ocurrir de dos modos: un entierro absoluto de la sigla o un “fin de lo que es tal cual la conocemos”.
Así como está, con un claro matiz de centro-derecha el PT ya no sirve a nadie. Con la derecha, considerando el infierno que el gobierno vive en este momento, el partido ya sabe (o debería saber) que no tendrá apoyo. Y después de utilizar la “amenaza del retroceso” como chantaje electoral en 2014, aunque luego en el segundo gobierno Dilma haya descaradamente pasado a implementar precisamente una agenda económica neoliberal, ahora utiliza el discurso del golpe para buscar apoyo junto a una “base” de izquierda. Como ha criticado Frei Beto, el PT apenas se acuerda de los movimientos sociales a la hora de apagar los incendios (7).
Es decir, el PT está en la capacidad de cocinar todos los ingredientes para quedarse solo, sin embargo, paradójicamente, en lugar de soledad, puede optar por desaparecer.
Pensar que el partido ahora está más lejos que cerca de la posibilidad de promover algún tipo de reforma estructural, es ignorar que todos los ratones abandonaron el barco. Y por lo tanto, por el mismo pragmatismo o realismo del cual se hizo tanto autobombo en los últimos años, el gobierno debería entender que es con la izquierda con quien podría contar si llega a dar señales de una agenda progresista, o incluso radical. Lo que está en juego en Brasil hoy no es el gobierno del PT, ni su legado. Las protestas callejeras del 18 y del 31 de marzo han probado que las fuerzas políticas de izquierda, y no apenas las partidarias, están dispuestas a defender el país, más no al gobierno.
Tales marchas “contra el golpe” no han ganado la tilde de “históricas” porque fueron a favor del PT, sino porque como no ha sido visto en más de 30 años, articularon alrededor del punto nodal Abaixo a rede Globo! a las izquierdas brasileñas, incluso y principalmente las no-partidarias, fortaleciendo a su paso el discurso por la democratización de los medios masivos de comunicación. Esto debe ser respetado y comprendido.
Quizá quede aún un pequeño y último espacio para una reorganización del PT con los movimientos sociales, si aquél decide llevar a cabo mínimamente la agenda y programa con los cuales se comprometió durante la campaña electoral.
De otra forma, en un momento tan crucial, determinante e histórico como el actual en todos los sentidos, y alcanzando el máximo de irrespeto hacia su base de origen al dedicarse de lleno a la política mediocre de una ingeniería institucional basada en intercambio de votos por cargos públicos, reforzando su estelionato electoral y, al fin y al cabo, evitando realmente ser realista, el PT habrá llegado a su límite total en este año. Y por coherencia y mínimo de responsabilidad con su historia, debería desparecer, destruirse, convertirse en una referencia del pasado y dejar brotar lo nuevo.
Porque si el futuro no es un horizonte de predicciones, al menos algunas importantes lecciones los brasileños podemos sacar de todo esto, principalmente de la ingenuidad del realismo puro. Tal como alguna vez pensó Macchiavello, el realismo político no es un valor abstracto, sino apenas en relación a su empleo en el tiempo. “¡Seamos realistas, pidamos lo imposible!”
1- La crisis política de Brasil afecta a toda la región http://www.lanacion.com.ar/1886120-la-crisis-politica-de-brasil-afecta-a-toda-la-region
2- Exclusive Interview by Glenn Greenwald with Former Brazilian President Lula da Silvahttps://theintercept.com/2016/04/11/watch-exclusive-interview-with-former-brazilian-president-lula-da-silva/
4- “O lulismo está enfraquecido, até em coma, mas não terminou”, analisa André Singerhttp://ihu.unisinos.br/entrevistas/553303-qo-lulismo-esta-enfraquecido-ate-em-coma-mas-nao-terminouq-entrevista-especial-com-andre-singer
5- IDEM
6- Aliança com povo evita governo “refém do Legislativo”, diz Erundinahttp://www.cartacapital.com.br/politica/erundina-buscar-governabilidade-nao-significa-fazer-concessoes-eticas
7- PT só se lembrou dos movimentos sociais na hora de apagar incêndios, diz Frei Bettohttp://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/04/10/se-dilma-antecipar-eleicoes-estara-renunciando-diz-frei-betto.htm

* Aleksander Aguilar es periodista, lingüista, y doctorando en Ciencias Políticas. Coordina la red-plataforma O ISTMO www.oistmo.com