Thursday, 27 August 2015
A urgência da América Central: violenta, violentada e paranoica
Wednesday, 9 April 2014
Fome, sangue e impunidade: as transições incompletas de Brasil e El Salvador
Deixo o registro também aqui no velho combatente Dêiticos :)
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Entrevista com Benjamin Cuellar: um dos mais importantes ativistas de Direitos Humanos na América Central, convidado do Ministério da Justiça para o Congresso Internacional sobre os 50 anos do golpe militar-civil brasileiro, fala sobre os processos de verdade, justiça e reparação na conturbada região pós-guerra e sobre as expectativas de resultados desse debate e da Comissão da Verdade no Brasil
*Por Aleksander Aguilar
Nove anos na organização guerrilheira salvadorenha Forças Populares de Libertação (FPL); oito anos, dois meses e cinco dias no exílio no México e 22 anos como diretor do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Centro-americana (UCA). É assim, com o mesmo hábito que parece comum nas narrativas de ex-presos políticos ao contabilizar até o número de dias em que esteve fora do lugar de origem, que um dos mais importantes ativistas em Direitos Humanos da América Central, Benjamin Cuellar, resume os períodos mais definidores de trajetória.Cuellar foi um dos convidados entre os muitos nomes de alto perfil que participaram nos dias 10 e 14 de março, em Recife, do Congresso Internacional “50 anos depois: A Nova Agenda da Justiça de Transição no Brasil”, primeiro evento oficial da Comissão de Anistia do Ministério de Justiça sobre o aniversário de cinco décadas do golpe de Estado militar-civil no Brasil, que abriu uma extensa programação de atividades em todo o país.
Especialistas e pesquisadores de várias áreas acadêmicas e reconhecidos militantes da América Latina, Estados Unidos, Europa e África analisaram criticamente os atuais avanços e obstáculos da Justiça de Transição no Brasil, o que ainda resta da ditadura em nossos dias e como fomentar ações sobre memória, verdade, justiça e reparação. Entre esses, o juiz espanhol, responsável pela condenação do ditador chileno Augusto Pinochet, Baltazar Garzón; o Procurador Geral da Argentina, Pablo Parenti: o cineasta Silvio Tendler, que no evento comentou a pré-estreia do longa-metragem “Militares da Democracia: os militares que disserem não” e Patricia Valdez, da Coalizão Internacional de Sítios de Consciência.
O outro nome desse rol, em destaque nesta entrevista, o salvadorenho Benjamin Cuellar, é, aos 58 anos, um homem de muitas histórias e opiniões contundentes, certamente polêmicas, sobre a conjuntura política centro-americana e o estado dos Direitos Humanos nessa região historicamente convulsionada do globo.
Comumente negligenciado por boa parte do debate político de projeção internacional, entre o hegemônico Norte e o promissor Sul do continente americano, está o Centro, a chamada América Central, o pequeno istmo geográfico conformado por sete Estados com menos de 50 milhões de habitantes em pouco mais de 500 mil km² (o Brasil, sozinho, tem mais de oito milhões de km²). A realidade sociopolítica da América Central – embora geopoliticamente inscrita no que se entende como América Latina, área que mobiliza muitos interesses econômicos, políticos e acadêmicos nessas primeiras décadas do século 21 – situa-se nesse lugar periférico do sistema internacional.
No período da Guerra Fria, porém, a região centro-americana foi foco de atenção dos problemas internacionais de uma geração de analistas que entendiam o istmo como um dos principais palcos do conflito bipolar e concentravam-se em problemas relacionados, principalmente com as causas e consequências desses conflitos armados. Em El Salvador a guerra entre as forças rebeldes organizadas na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e os governos autoritários do país durou, oficialmente, de 1980 a 1992, e deixou marcas “exemplares” de terrorismo de estado, que chamou a atenção do mundo por altíssimos níveis de violência com mais de 75 mil mortos e desaparecidos e impressionou autoridades das Nações Unidas, ao ponto da ONU decidir concentrar grandes esforços de mediação no pequeno país e estabelecer uma Comissão da Verdade, como condição para negociação do fim da guerra, que foi considerada por essa organização internacional uma experiência “modelo” de reconciliação.
Logo dos Acordos de Paz, nos anos 90, que puseram fim a hostilidade bélica nos países que conformam a América Central, os desafios da transição à democracia perpassam velhos e novos problemas tais como migrações, violência, narcotráfico e crime organizado, memória histórica, desenvolvimento econômico, espaço urbano, novas relações internacionais e direitos humanos. Essa última é a área que Cuellar, um dos fundadores da Rede Latino-americana de Justiça de Transição, lançada oficialmente no Congresso Internacional do qual participou na capital pernambucana, analisa com base na experiência e nos dá importantes perspectivas de dentro da região que servem também de reflexão para o processo brasileiro nessa temática.
Como você se envolveu com a militância em Direitos Humanos? O que você observou e aprendeu do período da guerra salvadorenha?
A princípio, segui os passos do meu irmão mais velho, que foi fundador e diretor do Instituto Interamericano de Direitos Humanos, e também do meu pai, que foi secretário-geral da Universidade de El Salvador. Em 1972, quando os militares invadiram e passaram a administrar a universidade, ele foi perseguido e agredido por soldados na nossa própria casa. São imagens que marcam a formação de uma pessoa.
Entrei na universidade já militarizada em 1973, como estudante de Direito, e logo integrei a equipe de futebol da instituição. Disputávamos e ganhamos vários campeonatos, inclusive continentais, até que as FPL me proibiram de seguir jogando, sob o argumento de se tratava de uma atividade a serviço da ideologia pequeno-burguesa (risos). Uma pena, não é? Era a melhor cobertura que poderia ter, já que não imaginariam que um jogador da equipe oficial da universidade estava envolvido com a guerrilha. Mas apesar de terem-me feito sair do time, em 1982 me pediram para levar uma televisão até ao acampamento de Chalatenango (região ocidental de El Salvador que durante a guerra estava sob controle da guerrilha). E para que? Para ver a Copa do Mundo daquele ano…
Ainda como estudante, participei de projetos de alfabetização em zonas periféricas do país, utilizando o método Paulo Freire. E, em 1974, durante essas atividades, conheci algumas pessoas das FPL que me recrutaram para a organização. Estive nas FPL até maio de 1983 quando decidi me retirar. Ainda não tinha muita noção precisa de Direitos Humanos, mas uma intuição e, na guerra, via-se uma diversidade de temas problemáticos: crianças trabalhando como mensageiros, direitos das mulheres, trato de prisioneiros.
Em outubro daquele mesmo ano, fui para o exílio no México, para onde já havia ido o meu irmão, logo depois da morte de Monsenhor Romero (bispo de El Salvador cujo assassinato em 1980 foi o estopim da guerra civil). Ali, com a ajuda de um frade que havia apoiado meu irmão, participei do projeto de criação de uma instituição de direitos humanos e fundamos o Centro de Direitos Humanos Frade Francisco Victoria, que se torna um dos maiores do México.
Permaneci no país exatamente até 5 de janeiro de 1992, quando regresso a El Salvador, já às vésperas da assinatura oficial dos Acordos de Paz que deram fim ao conflito bélico no país (em 16 de janeiro daquele ano) e contratado pela Universidade Centro-americana José Simeón Cañas (UCA) para dirigir o recém-criado Instituo de Direitos Humanos (Idhuca).
Como você avalia a situação dos Direitos Humanos de maneira geral na América Central, e mais particularmente em El Salvador?
Eu divido a região em sub-regiões. Uma coisa é Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Os dois últimos já sabemos que se distinguem de características mais gerais de bem-estar do resto da região, mas também Nicarágua, que tem altos índices de pobreza e desigualdade social, não tem a violência e os problemas principais que temos no Triângulo Norte da América Central (El Salvador, Honduras e Guatemala) que são fome, sangue e impunidade.
Em Nicarágua, sim, há fome, mas não há sangue. E, junto à Costa Rica e Panamá, nesses países houve processos históricos, revolucionários ou institucionais, que se não alcançaram fazer mudanças estruturais, pelo menos trouxeram mudanças que os colocaram em melhor posição, com mais participação de comunidades organizadas, com melhores condições de educação e seguridade social.
Já nos países do Triângulo Norte, com maior ou menor intensidade, as revoluções truncadas ou empatadas que não chegaram ao poder, ajudaram a deixar os países do jeito em que estamos; em que prevalecem as causas que os levaram aos conflitos armados: fome, sangue e impunidade, para jogar com as palavras, mas que também se pode traduzir em falta de direitos econômicos, sociais e culturais, falta de direito à segurança cidadã e de direito à justiça.
Há outros, mas se não priorizamos caímos justamente na crítica de Ignacio Ellacuria (filósofo, escritor e teólogo espanhol, naturalizado salvadorenho, que foi assassinado pelas Forças Armadas salvadorenhas quando ocupava o cargo de reitor da UCA, em 1989, junto a outros cinco padres jesuítas dirigentes universitários no episódio da guerra que ficou conhecido como “o massacre da UCA”) sobre a falta de historificação dos Direitos Humanos que, por vezes, se apresenta como uma larga lista supostamente acessível para todos, que são iguais e universais… Isso é mentira, porque é preciso historicizar segundo a realidade de cada lugar.
Sobre o governo Mauricio Funes, da FMLN, (2009-2014) sobre o qual o senhor tem sido bastante crítico, qual sua avaliação da política de Direitos Humanos?
Eu sempre fui crítico de todos os governos. É o trabalho que corresponde a um ativista de direitos humanos, aplaudir o que é bom e apontar o que é mau. O problema não é botar o dedo na ferida, o problema é a ferida. Mas aqui foi preciso colocar o dedo na ferida com mais evidencia porque deveria ter sido o governo da mudança, porém a fome, o sangue e a impunidade persistem.
Às vezes, se escuta aqueles que dizem que a situação dos Direitos Humanos em El Salvador está boa, mas isso só pode ser dito porque a estão comparando com o inferno em que estávamos antes! Se compararmos com o paraíso que foi prometido na campanha de Mauricio Funes, ainda estamos, na verdade, muito mais próximos desse inferno.
E por que esse “governo da mudança e da esperança” teve esses resultados nas últimas eleições? (a FMLN se reelegeu no segundo turno da eleição de março com uma diferença de apenas 0.2% do candidato direitista da oposição, do partido Arena).
Porque fomentou o clientelismo político com programas assistenciais, criando grande gasto social, não investimento social, para que o povo se agarre aos sapatos e cadernos que lhes foram disponibilizados e permaneçam na posição de ajudados sem se converter em sujeitos políticos.
Mas não houve avanços em Justiça de Transição?
Fome e sangue são estruturais. Tem a ver com acordos internos entre os interesses presentes no país que incluem o setor privado – e não com os homens das cavernas que se dizem do setor empresarial-privado em El Salvador – e um Estado que faça investimento social. Já a impunidade tem a ver com algo que, para mim, faz de Mauricio Funes um presidente nefasto.
Apresentar-se como um discípulo de Monsenhor Romero, um santo de América, e chegar aos organismos internacionais, como à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e dizer que cumpriu com o que lhe cabia, com as reparações… Por favor! Que reparação no caso da UCA, por exemplo? Fizeram uma homenagem aos jesuítas, aos 20 anos do massacre, e entregaram a Ordem Jose Matias Delgado, a mais alta do país, e pediram perdão. Mas nem foram incluídas todas as vítimas fatais na homenagem, apenas os seis jesuítas, a mãe e a filha, funcionárias da universidade, que estavam lá e morreram pelo simples fato de estarem lá, nem foram mencionadas.
O mais importante, porém, é que a investigação, o julgamento e a sanção dos responsáveis pelo massacre não foi realizado. E menos ainda fez-se esforços para revogar a lei de anistia. Por qual razão? ‘Ah, o fiscal-geral da República não quer investigar. Pedimos para investigar, mas não o fez’. Isso foi dito pelo representante do governo salvadorenho na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, David Moraes, que agora é o Procurador de Direitos Humanos do país.
Veja, o trabalho em Direitos Humanos exige três coisas: recursos, capacidades, vontade política, que quaisquer políticos dizem que tem, todos querem acabar com a impunidade. Mas a isso é preciso agregar coragem, para tocar o intocável.
O governo FMLN teve aliados que lhe deram maioria na Assembleia em distintos períodos do mandato. Poderia ter apresentado a Assembleia Legislativa algo para, pelo menos, reformar, segundo standards internacionais, a lei de anistia, mas não o fez.
Isso foi a situação do governo Funes ou é a posição da FMLN? Agora que, pela primeira vez, a Frente estará no poder com um presidente que foi um ex-comandante guerrilheiro (Sanchez Ceren, recém eleito) isso não poderá representar progressos de fato nesse campo?
Irá ele revogar a lei de anistia? O primeiro, nesse caso, a ser acusado seria ele mesmo, por conta de todos os episódios de violência na guerra nos quais esteve envolvido. Ou seja, não irá fazer nada. E, além disso, na própria campanha já anunciava que é preciso olhar para a frente. Eu não falo de otimismo ou pessimismo. Porque se tivesse otimismo, eu seria como aquele a quem empurram de um edifício de 20 andares e, durante a queda, lá pelo décimo andar, ele fica contente porque ainda não lhe aconteceu nada… Eu falo é de realismo.
Há indícios de militares que sabia da ordem do massacre da UCA, por exemplo, que não colaboraram com a Comissão da Verdade, nem com o processo na Audiência Nacional Espanhola (os oficiais acusados de envolvimento no massacre foram intimados na Espanha). E os protegem. Há sinais que mostram que vai passar com Ceren o mesmo que passou com Funes. No governo de Funes, me olhavam como se fosse da Arena, mas trabalho com Direitos Humanos e aqui não há nem rico nem pobre, nem esquerda nem direita, mas, sim, a dignidade das pessoas.
Quando Funes estava em campanha ninguém se deu conta, ou se fizeram de desentendidos, que ele disse que não tocaria em três coisas que efetivamente impediriam que a fome, o sangue e a impunidade seguissem no país: no tratado de livre comércio com os Estados Unidos, na dolarização da economia de El Salvador (vigente desde 2001) e na lei de anistia. Sanchez Ceren já disse o mesmo.
Como centro-americano e a partir da experiência e expertise nesse debate de Justiça de Transição, como o senhor vê essa discussão sobre memoria, verdade e justiça no Brasil?
Eu acho que o Brasil é um exemplo de como fazer as coisas. Não são perfeitas, obviamente, mas além do Estado, na figura muito ativa do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abraão, eu sinto que há, na base, por baixo e por dentro, uma participação muito maior da sociedade. Porque El Salvador é um exemplo de que de por fora e por cima não se arrumam as coisas.
Nem com acordo, nem com eleições, nem com alternância, nem com governos “puro sangue”, ou seja, sem participação das pessoas, não se resolve. Se a FMLN trabalha bem, terá apoio da sociedade. Eu, como cidadão, como Benjamin Cuellar, vou aplaudir o que for bem feito. Mas não haverá solução sem a participação das pessoas. Em El Salvador, por conta de uma guerra tão intensa como a que houve, é que ocorre essa polarização que há no país, porque as pessoas esperaram que a guerrilha lhes resolvessem os problemas com a guerra e, depois dos Acordos de Paz, que a FMLN agora lhes resolvessem os problemas como partido, com eleições. Sabe como é o ditado: ‘só o povo salva o povo’, mas apenas se estiver organizando, demandando e exigindo soluções.
Considerando sua posição realista, como o senhor se define, considera que o Brasil está num melhor caminho? Digo isso, porque, pragmaticamente, falando que a lei de anistia segue sendo um entrave à Justiça de Transição no Brasil tanto quanto parece ser em El Salvador…
Sim, mas a diferença está enquanto às vítimas de fome, sangue e impunidade assumem o papel protagonista nesse processo reparatório e, no Brasil, sinto que o assumem muito mais do que em El Salvador. Tenho dois anos de trabalho com organizações brasileiras para a criação da Rede Latino-americana de Justiça de Transição e sinto que essa diferença é marcante.
Considerando a experiência também da Comissão da Verdade de El Salvador, do que foi e dos seus resultados, o que se pode esperar da Comissão brasileira?
Insisto, se o protagonismo da sociedade não se mantém, ocorrerá no Brasil o que ocorreu em El Salvador, isto é> aqui a comissão é nacional, criada pelo governo. A salvadorenha foi criada três meses depois do fim da guerra e toda a equipe era internacional, mas as recomendações, mesmo no governo da FMLN, não foram cumpridas e as coisas ficaram por isso mesmo.
Mesmo a depuração das Forças Armadas. Saíram apenas 100 de mais de 1300 oficiais, ou seja, se considera que apenas 100 foram violadores de Direitos Humanos durante a guerra. A criação da Policia Nacional Civil (PNC) foi marcada por uma falha de origem e continuou militarizada. O melhor exemplo do fracasso dessa Polícia é que, desde 16 de julho de 1993, apenas um ano e meio depois da assinatura dos Acordos de Paz, o exército tem estado nas ruas fazendo papel de polícia permanentemente. Em 2011, no governo Funes, segundo informe oficial do Ministério da Defesa, temos mais de 8 mil soldados na segurança pública.
Então, das recomendações da comissão, apenas aquelas que eram politicamente toleráveis e que se podiam implementar por acordo foram feitas. Do grupo de recomendações sobre reconciliação nacional estão, por exemplo, a construção de um monumento às vítimas, um dia nacional de honra as vítimas, indenização moral e material, discussão nacional sobre o que se fazer com essa verdade – nada se cumpriu. Segue pendente, ainda, como parte da garantia de não-repetição desses feitos, a assinatura ao Estatuto de Roma (que adscreve o país à Corte Penal Internacional). Enquanto os violadores de direitos humanos do passado estão brindados com a anistia, os violadores de direitos humanos do futuro estão brindados com a não adesão ao estatuto. Em El Salvador, cinco dias depois da divulgação do informe da Comissão, passaram a lei de anistia. Ou seja, mataram o informe, enterraram-no e a lápide se chama “lei de anistia”.
Para que serve o informe da Comissão da Verdade?
Ele não é um fim em si mesmo, é uma ferramenta para que as vítimas e a sociedade o tomem nas mãos e exijam o cumprimento. Se o povo ficar esperando que o PT, no Brasil, ou a FMLN, em El Salvador, tragam a solução, ficarão sem ver nada.
*Aleksander Aguilar é jornalista, mestre em Estudos Internacionais pela Universitat de Barcelona, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco.
Friday, 18 May 2012
El Salvador gangs celebrate a day without murders - in pictures
In "The Guardian" - http://www.guardian.co.uk/world/gallery/2012/may/09/el-salvador-gangs-in-pictures
Friday, 23 March 2012
AMENAZA: SER PERIODISTA EN EL SALVADOR

Periódico digital salvadoreño amenazado por sus informes
El miércoles pasado (14 marzo 2012) el periódico digital salvadoreño El Faro publicó una nota en la que revelaba la existencia de un pacto entre las pandillas – uno de lós más grandes y complejos problemas de El Salvador – y el gobierno para reducir los índices de homicidios.
El artículo se llama "Gobierno negoció con pandillas reducción de homicídios". Las investigaciones sostienen que este pacto incluía el traslado de líderes de las pandillas del penal de máxima seguridad a penales de menor seguridad, a mayores comodidades y a otros beneficios. Esa misma semana, la pasada, el promedio de homicidios se redujo más de la mitad.
El reportaje estaba basado en diversas fuentes de inteligencia de varias agencias del Estado, por funcionarios de gobierno y, en la calle, por jefes locales de pandillas. Dos días después, el gobierno respondió con una conferencia de prensa del ministro de Seguridad, en la que negó la existencia de este acuerdo.
A esta conferencia, con periodistas de varios medios, no invitaron al personal de El Faro, indicó Carlos Dada, director de El Faro (foto arriba). En la reunión, los funcionarios afirmaron que tenían información de inteligencia que sugería que los pandilleros estaban enojados por el artículo de periódico y que el personal del sitio estaba en peligro, señaló Dada.
Al día siguiente, el ministro de Seguridad Munguía Payés indicó al personal de El Faro que corría el riesgo de ser atacado por las bandas criminales, pero no dio más detalles ni ofreció protección para el personal.
“El trabajo de un medio de comunicación serio implica mantener una posición crítica, sospechosa y exigente con el poder. Implica cuestionar las versiones oficiales y las de personas e instituciones con poder económico, político, militar o de cualquier otra naturaleza.
Hacer este trabajo en estados débiles como El Salvador supone poner en riesgo, a veces, más que la credibilidad y el prestigio.”
En mayo de 2011, El Faro ya habia publicado un artículo titulado "El cartel de Texis," que reveló una red de crimen organizado que involucra a líderes de pandillas, empresarios prominentes, y políticos locales en el noreste de El Salvador.
Dada afirmó a la organización no gubernamental Committee to Project Journalists (CPJ) que en febrero, nueves meses después de la publicación del artículo, el personal del periódico notificó que estaban siendo seguidos y fotografías por individuos no inidentificados. Dada indicó que sospechaba que la policía estaba siguiendo al personal del medio con el propósito de identificar las fuentes del artículo publicado en mayo.
"Estamos preocupados por la seguridad del personal de El Faro y estamos monitoreando la situación muy de cerca", afirmó Carlos Lauría, coordinador senior para el programa de las Américas del CPJ. "Responsabilizamos al gobierno salvadoreño por el bienestar de los periodistas de El Faro".
La investigación del CPJ indica que periodistas que informan sobre la violencia de las pandillas en El Salvador asumen el riesgo de convertirse en blanco ellos mismos. En 2009, Christian Poveda, cineasta franco-español, fue asesinado por miembros de la pandilla Mara 18.
Thursday, 1 March 2012
As "maras" salvadorenhas no Brasil?

Para os muito poucos no Brasil que estudam a América Central, a notícia divulgada hoje é impressionante, quase surreal.
O assassinato do bispo da Igreja Anglicana Robinson Cavalcanti, e de sua esposa, Miriam Cavalcanti, ocorrido esta há dois dias em Olinda, chocou o opinião pública, principalmente aqui do estado de Pernambuco, onde o bispo era uma personalidade conhecida e bem quista. O casal foi assassinado pelo próprio filho, Eduardo Cavalcanti, de 29 anos.
Para além do brutalidade do crime, em que em um ataque de fúria Eduardo matou a facadas seus pais adotivos, o mais curioso e chocante é que o assassino havia chegado há pouco tempo dos Estados Unidos e era parte da Mara Salvatrucha.
Trechos da matéria do Jornal do Commercio do dia 28/02/12:
“Eduardo Cavalcanti, 29, tinha a intenção de matar desde que voltou dos Estados Unidos para o Brasil, há duas semanas.
Ele havia mudado completamente. Do garoto dócil e amoroso, adotado pelo bispo e a esposa ainda criança, pouco restara. Estava com o corpo coberto de tatuagens.
O jovem tem passagens pelos departamentos de polícia das cidades de Plantation e Pembroke Pines, na região de Miami. Nos últimos dois anos, ingressou numa das maiores gangues de imigrantes dos Estados Unidos conhecida como Mara Salvatrucha.
Para ser aceito na facção criminosa, dominada por imigrantes de El Salvador, Eduardo tatuou a parte superior do corpo inteira.
A Mara Salvatrucha é conhecida pela extrema violência de seus integrantes e por dominar o tráfico de drogas em Los Angeles e na Flórida.”
Não é exagero dizer que a violência é uma característica da história salvadorenha, em particular, mas também como toda a centro-americana, em geral.
Dois exemplos: a revolta camponesa de 1932 que foi afogada em sangre de mais de 30 mil mortos, a a maioria indígenas, em apenas dez dias; e o golpe de estado militar organizado em 1954 pela CIA na Guatemala.
Além disso, em El Salvador os anos da guerra civil (1980-1992) deixaram marcas profundas, com um legado de uma violência endêmica alimentada por 400 mil armas de foto que circulam pelo país e comercializas a preços irrisórios. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, El Salvador tem um quadro epidêmico de criminalidade, com uma média de mais de 60 assassinatos para cada 100 mil habitantes anualmente, num país de 6 milhões de habitantes e de 21 mil km2.
O cineasta franco-espanhol, Cristian Poveda, autor do filme “La Vida Loca”, sobre as maras salvadorenhas e assassinado pelas próprias pessoas que retratou logo após o lançamento da obra, em 2009, analisou:
“Consecuencia indirecta de las migraciones provocadas por la guerra civil en El Salvador y la globalización, fue en Los Ángeles donde los jóvenes inmigrantes centroamericanos crearon, a principios de los años 80 del siglo pasado, las dos principales pandillas que se enfrentan hoy día en América Central: la Mara Salvatrucha (MS) y la 18, que tienen cada una su lenguaje codificado, sus ritos, sus tatuajes y, sobre todo, su odio inveterado. No hay diferencia ideológica o religiosa que pueda explicar esta lucha a muerte, cuyo origen, perdido en los bajos fondos de los barrios latinos de Los Ángeles, ha sido olvidado por todos.
Oriundos de América Central, esos adolescentes desorientados, inmigrantes económicos y políticos, desertores del ejército y de la guerrilla, miembros de los escuadrones de la muerte e hijos de los centenares de miles de salvadoreños que huían de la guerra civil, devinieron, en sólo una década, organizaciones criminales estructuradas, jerarquizadas, que para defender sus territorios y negocios, asesinaban a sus enemigos, tanto a los “internos como a los externos”. La primera pandilla centroamericana se llamó Mara Salvatrucha. Pero pronto apareció otra, la temible 18, que sentaba sus reales precisamente en la calle 18, al sur de Los Ángeles”.
É comum a presença de nacionais de outros países que não da América Central nas fileiras das maras?
É a condição de imigrantes ilegais nos Estados Unidos que atrairia mais membros de regiões fora do contexto centro-americano para essas gangs?
Há estudos sobre a presença desses outros nacionais nas maras?
Há mais brasileiros integrando as maras? Estão apenas nos Estados Unidos? Estão também no Brasil?
O Brasil prestará mais atenção a América Central a partir deste episódio, pelo menos em termos de segurança pública e dos significados da transnacionalizaçao das maras?
Questões em aberto e para o debate.
Wednesday, 29 February 2012
Silvio Rodriguez bisiesto

Silvio Rodriguez solo existió una vez en El Salvador, en un día que solo existe a cada cuatro años. Es decir, hoy hace exactamente cuatro años de su concierto literalmente histórico en el completo, y casi en transe, estadio “Magico Gonzalez”, en San Salvador.
Yo estaba allí. Llevaba un par de días de haber llegado al país desde una de las principales capitales del mundo para ir a vivir, tomado por la decisión-guía de mis elecciones desde entonces, en la capital del pulgarcito de América, buscar comprehender más directamente de que está hecho la sangre de la cual he sido educado a enorgullecerme desde cipote y coincidir con legitimidad mi historia personal y profesional.
El primer y, hasta la fecha, único concierto de uno de los más grandes mitos de la música latinoamericana, Silvio Rodriguez, en El Salvador fue como una recepción de honor, una calurosa bienvenida a mi curiosa y decidida llegada. Las canciones del cubano animaron los sueños de tantos hombres y mujeres que admiro en el país, y en todo el istmo - este vigoroso trozo de tierra entre el Sur y el imperio de historias tan intensas como muchas veces olvidadas.
Lo he visto desde lejos, las mejores plazas son siempre las más caras, pero había un respeto en la atmosfera, mutuo, entre todos y todas que ahí estaban con el intuito de mirar y oír lo más atentamente posible el cantante. La gente actuaba como si supiesen del privilegio de ser testigo del evento, había una complicidad tacita, “si, aquí estamos, viendo a Silvio Rodriguez, lo de las canciones aquellas que cantábamos en la lucha, o para celebrar, o para recordar”.
Acompañé el concierto de hecho al lado de una imprescindible amiga, ex guerrillera, quien me ha invitado para el momento histórico. En aquel memorable concierto cantaron el público y también los caídos en la guerra, fue un tributo no solo a Silvio sino a las quimeras de una generación que hizo de su historia la característica identitária de una nación. Silvio rindió homenaje a Roque Dalton, el escritor más emblemático de El Salvador y uno de los más importantes de Centro América, a quien dedicó su concierto, con la canción “Expedición” y “Unicornio”. Roque Dalton aún sin tumba aún porque su cuerpo está desaparecido por la acción de sus victimarios.
Como ha recordado Juan José Dalton, periodista salvadoreño, hijo de Roque Dalton, en el concierto estaba prohibido filmar, pero “¿cómo prohibirles algo a los reyes de la clandestinidad y las conspiraciones?” Arriba el link de una canción en el espectáculo.
Han pasado cuatro años, y sin embargo no ha pasado ni un solo día.
Wednesday, 14 December 2011
30 anos de El Mozote: A maldição de Marcos Diaz



*Por Aleksander Aguilar
O episodio ocorrido em El Mozote, em El Salvador, em 11 de dezembro de 1981, é um dos maiores massacres cometidos contra civis na história recente da América Latina, com pelo menos o dobro de vitimas que My Lay e quiçá levado a cabo com mais requintes de crueldade do que o da vergonha mundialmente famosa promovida na aldeia vietnamita pelos Estados Unidos durante a guerra, nos anos 60.
O famigerado ex-batalhão Atlacatl do exército salvadorenho, numa tentativa desesperada de conter o brote revolucionário no país no inicio dos anos 80, aterrorizou e assassinou quase 1200 civis pacíficos, incluindo idosos, mulheres e crianças de colo. A missão do Atlacatl, financiado e treinado pelos Estados Unidos, era colocar em prática as medidas necessárias para operações conhecidas como tierra arrasada ou, no jargão do próprio exército na época “secar o rio para evitar que os peixes cresçam”.
Contudo, para muitos salvadorenhos, especialmente os da geração pós-guerra (1980-1992), El Mozote é distante, no tempo e também no espaço, apesar do cenário da matança estar a menos de 300 km da capital, San Salvador.
Essa é a ironia da recente e obscura história salvadorenha. El pulgarcito de America (o pequeno polegar da América), como é carinhosamente chamado pela população, também quer, há quase 20 anos, virar páginas de dor. Mas punir os criminosos, rechaçar a impunidade e manter viva a memória nem sempre foi – e muitas vezes não é – entendida como a prova séria dessa disposição. O país continua ignorando-se e sendo ignorado. Setores da sociedade, aqueles envolvidos com massacres, esquadrões da morte e desaparecimentos, querem incentivar o esquecimento em lugar da toma de consciência critica e isso faz com que, como nação, o lugar se mantenha olvidado.
Em nível latino-americano essa invisibilidade e desmemoria é igualmente latente. Brasileiros, particularmente, também tendem a conhecer mais da simbólica história de My Lay do que sobre os fenômenos e dores, com semelhança de caráter e motivações, que nosso continente sofreu. Não temos a menor idéia do que foi o El Mozote. A América Central toda, e quase sempre, não é vista no senso-comum mais do que como um pedaço de terra entre o sul e o império onde houve guerras, há vulcões e terremotos e nem nos envergonhamos dessa grotesca e absurdamente rasa idéia que temos da nossa própria geografia e história.
PARA CHEGAR AO EL MOZOTE
Sem veiculo próprio - como acontece em muitos destinos de El Salvador - o acesso não é muito simples, embora as estradas hoje em dia sejam bastante razoáveis. A falta de um sistema de transporte público decente no país (tema central de recentes acordos de cooperação entre Brasil e El Salvador) faz com que a viagem seja uma jornada.
Saímos no início da tarde do deprimente Terminal do Oriente de San Salvador com destino à cidade de San Miguel, de onde se toma outro ônibus. Ao chegar aí, pouco depois das cinco horas, já não há transporte até a famosa Perquin, (cidadela que foi o centro do controle guerrilheiro na região nos anos 80), com exceção das populares traseiras de camionetes em uma viagem de duas horas até outro lugarejo histórico, Francisco Gotera, para dai pegar outra pick-up. Para evitar estar na estrada ao anoitecer, decidimos passar a noite em San Miguel para seguir às seis da manhã seguinte.
No outro dia, depois de mais três horas de outro precário ônibus, chegamos ao lugar onde esta o Museu da Revolução Salvadorenha, um pequeno e humilde prédio, organizado pelos próprios ex-combatentes que ainda vivem na região, que abriga um verdadeiro arquivo histórico: armas usadas na guerra, cartazes do Frente Farabundo Martí Liberación Nacional (FMLN) e de organizações internacionais em solidariedade à ex – guerrilha, fotos de homens e mulheres que lutaram na revolução, cascos de bombas de 500 libras do arsenal norte-americano que eram despejadas pelo exército de El Salvador (financiado pelos Estados Unidos na sua política de contra-insurgência e intervencionista) e até os carros utilizados por dois dos cinco comandantes do FMLN durante a guerra, Schafik Handal e Joaquin VillaLobos.
Visitamos o museu pela manhã com a idéia de ir ao El Mozote pela tarde, mas depois das 13h já não há nem pick-ups que passem pelo desvio de Arambala, de onde temos que tomar outro ônibus para, por fim, chegar ao cenário do massacre. Assim, foi apenas na manhã seguinte que conseguimos chegar. Uma minúscula vila, entrada nas montanhas da parte Norte-oriental do país, quase na fronteira com Honduras. Hoje, o vilarejo não deve ser muito diferente do El Mozote do inicio dos anos 80, a não ser pela presença de um monumento a memória do massacre e pelo simpático e singular “posto de informação turística” em frente à igreja.
Alguns minutos depois de descermos do ônibus – com mochilas e caras de turista – no meio da silenciosa e polvorenta vila, uma jovem se aproxima disposta a nos contar a historia. Ao redor, só se vê uma dúzia de residências; a igreja; o passo eventual de uma criança ou adolescente de bicicleta; dois ou três homens, depois da cerca, com lenha ou apetrechos de trabalho agrícola nas costas; alguns cachorros famintos perambulando; um poço pintado de branco de onde se ergue um alto bambu com uma bandeira vermelha do FMLN no topo, e uma pequena mercearia de onde nos observa uma curiosa senhora.
Estamos em frente a diminuta praça onde está o monumento à memória do massacre e que guarda os restos mortais de um milhar de pessoas assassinadas. É ali, em frente aquela placa de metal recortada na forma da silhueta de uma família, colocada em frente a um muro de tijolos com os nomes das vitimas, que ouvimos a humilde guia turística do El Mozote relatar a triste historia da miserável vila e recorrer os lugares exatos das execuções, dos escombros das casas que resistiram aos incêndios provocados pelos soldados para esconder a vergonha da barbárie ali cometida.
VERGONHA ESCONDIDA
Durante 11 anos uma mulher, Rufina Amaya Marquez, foi diante de todo o mundo a única testemunha do massacre, mas pouca gente lhe dava crédito. Ela foi a única pessoa que, milagrosa e bravamente, sobreviveu a asquerosa operação “Yunque y Martillo” do famigerado Batalhão Atlacatl do exército salvadorenho no dia 11 de dezembro de 1981, quando foi executada toda a população de El Mozote e arredores.
Até outubro de 1992, ano em que a guerra civil de pelo menos 12 anos em El Salvador por fim havia terminado, Washington teve sucesso em manter o crime em segredo; enterrado entre mais de mil cadáveres no extremo oriente do país.
Rufina, que viu seu marido e quatro filhos (um deles de oito meses de idade que lhe foi arrancado do peito) serem assassinados, conseguiu, com uma extraordinária forca psicológica, contar a história ao mundo. Seu relato, verificado in locu por jornalistas norte-americanos, foi manchete do The Washington Post e do The New York Times após a legendária Radio Venceremos (órgão oficial de comunicação da guerrilha) ter denunciado o massacre. Porém a Casa Branca, que naquele momento, começo de 1982, debatia se manteria ou não mais apoio para o governo ditatorial salvadorenho combater a guerrilha, precisava desacreditar a história que, no período intrincado da Guerra Fria, deixava o país entre o dilema de manter a “segurança nacional” e o suposto respeito aos direitos humanos (já que os políticos americanos estavam cientes do nível de violência em El Salvador) que os Estados Unidos julgavam, e julgam, exercer.
“SECAR O RIO”
No dia primeiro de dezembro de 1981 a guerrilha foi informada de que havia sido confirmado um operativo militar de grande envergadura na região. O governo salvadorenho queria “resgatar” Morazan das mãos dos guerrilheiros que tinham o controle político no Oriente do país. Os oficiais temiam que se a guerrilha não fosse retirada de Morazan, o país, o menor de todo o continente Americano, com apenas 21 mil km quadrados, pudesse terminar dividido em dois.
O batalhão Atlacatl, treinado pelo carismático e truculento coronel Domingos Monterrosa (homem de confiança dos norte-americanos) era uma classe diferente da maioria dos soldados salvadorenhos. Eram mais ferozes, mais profissionais e muito melhor equipados. Sempre com dinheiro e estrutura norte-americana. Nesse período os EUA haviam dado um passo em frente no financiamento da guerra (que totalizou 500 milhões de dólares, oficialmente, entregues ao governo salvadorenho para combater a guerrilha), mas não estavam dispostos a envolver seus soldados diretamente, já que o país ainda estava sob a ressaca histórica do Vietnam.
O El Mozote estava dentro da zona controlada pela guerrilha, mas os rebeldes não eram capazes de oferecer aos civis suficiente proteção. Em uma operação do exercito de grande porte a população civil também tinha que fugir. Mas a população do El Mozote, no inicio daquele dezembro, decidiu ficar.
A MALDIÇÃO
Como em muitas outras comunidades do Departamento de Morazan, a população se esforçava em manter-se neutra durante a guerra e muitas vezes, de fato, tinha medo da guerrilha. Contudo, a confiança no exército, e em Marcos Diaz, contribuiu para levar todo o vilarejo à morte.
Segundo o livro “Vagalumes no El Mozote” (tradução livre do espanhol) publicado em El Salvador pelo Museu da Palavra e da Imagem (MUPI) com relatos da história feitos por Santiago, responsável pela legendária Radio Venceremos (Carlos Henrique Consalvi, atual diretor do MUPI), pelo jornalista norte-americano Mark Danner e pela própria Rufina Amaya, o dono da única mercearia da comunidade organizou uma plenária em frente a sua casa no início de dezembro de 81. Ele contou aos moradores o que lhe haviam dito em San Miguel, onde ele fazia as comprar para abastecer sua lojinha.
Um oficial do exército lhe garantiu que, apesar da operação militar estar realmente dirigindo-se ao El Mozote, o melhor a fazer era ficar na vila e permanecer nas casas para não correr o risco de que os soldados os confundissem com guerrilheiros em retirada. Marcos Diaz confiou na sua fonte no exército e a população do El Mozote confiou em Marcos Diaz.
A maioria ficou na vila, sabendo que o exército se aproximava, mas confiantes de que, por não serem colaboradores da guerrilha, nada de mal lhes ocorreria. A certeza converteu-se em decepção e morte e para Marcos Diaz, em uma maldição. O batalhão Atlacatl estava ali para levar a cabo uma estratégia política. civil organizada. A inédita e histórica vitória eleitoral no ano passado do FMLN, o ex-grupo guerrilheiro transformado em partido institucional depois dos Acordos de Paz de 92, tem gerado expectativas positivas em diversas organizações de direitos humanos e atores políticos do país, inclusive na comunidade internacional, para a plena realização dos direitos das vitimas por justiça e reparação nesse episódio do El Mozote e em diversos outros casos de violação dos direitos humanos durante a guerra civil no age:PT-BR">Oficialmente, a missão era aniquilar a Radio Venceremos. A rádio da guerrilha era a obsessão do coronel Monterrosa que não admitia e se enfurecia com a sua existência. O Atlacatl foi ao norte de Morazan, com destino a Guacamaya, onde de fato foi um dos lugares de funcionamento da emissora. Porem a inteligência da guerrilha já havia tomado conhecimento do operativo e o coletivo da rádio partiu do acampamento muito antes da chegada do exército. Durante seu trajeto a Guacamaya, o Atlacatl aterrorizou e assassinou em Perquin, em Torilas e no El Mozote finalizou sua missão de barbárie.
“Vagalumes no El Mozote” relata que o batalhão levou dois dias para cumprir o se pode chamar de ritual. A população foi dividida entre homens, mulheres e crianças; cada grupo encerrado em uma casa da comunidade. Os homens, que estavam na igreja, foram os primeiros. Foram levados em pequenos grupos atrás do prédio e metralhados e os que ficavam agonizando eram decapitados. As cabeças, cujos crânios foram encontrados anos mais tarde, foram amontoadas perto da sacristia. Pouco depois foi a vez das mulheres. Os soldados selecionavam as mais jovens e as arrastavam para os cerros nos arredores. As outras ouviam os gritos das que estavam sendo estupradas. Depois, os soldados voltaram às casas e começaram a separar as mães dos filhos. Grupos de mulheres eram levados a execução na pequena praça da vila e a casa aos poucos se enchia de órfãos aos prantos. Os soldados do Atlacatl por fim terminaram sua missão, matando todas as crianças do El Mozote.
Rufina Amaya assistia todo o repugnante ritual escondida atrás de um pé de maçã, que ainda existe no El Mozote reconstruído. Quando enfileiravam as mulheres na praça, ela, que estava ao final de um dos grupos, aproveitou a distração do soldado em meio ao alarido de desespero e se arrastou por baixo de uma cerca escondendo-se atrás da arvore onde permaneceu por todo um dia e toda uma noite. Ela faleceu em 2007, mas deixou registrado no livro publicado pelo MUPI o seguinte depoimento:
“Yo no sabía qué hacer. Estaban matando a mis hijos. Sabía que se regresaba allá me harían pedazos, pero no podía resistir escuchar los gritos de mis hijos. No podía soportarlo. Tenía miedo de llorar ruidosamente. Pensé que iba a gritar, que me iba a volver loca. No podía soportarlo y suplicaba a Dios que me ayudara. Le prometí que si él me ayudaba, yo le contaría al mundo lo que había ocurrido aquí. Después me amarre el cabello y la falda entre las piernas y me arrastre sobre el estomago detrás del árbol. Allí había animales. Unas vacas y un perro me vieron e yo tuve miedo de que hicieran algún ruido, pero Dios hizo que estuvieran silenciosos. Me arrastre entre ellos. Cruce la calle bajo un cero de púas y cruce entre las plantas de maguey hacia el otro lado. Me arrastre lejos a través de las espinas. Cavé un pequeño hoyo con mis manos y coloque mi cara dentro de él para poder llorar sin que nadie me oyera. Todavía podía oír los niños gritando y llorando. Me quedé allí con la cara en la tierra y lloré”.
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Durante as negociações para a paz em El Salvador, já no começo dos anos 90, foi estabelecido que seria criada, com intermediação da ONU, uma comissão internacional, chamada Comissão da Verdade, para investigar e fazer público os acontecimentos que marcaram a historia país e apontar recomendações. O documento define a guerra civil salvadorenha como “loucura” e “delirante”.
Assim como no Brasil pós-ditadura, a luta por memória, verdade e justiça em El Salvador têm sido conduzida pela sociedade civil organizada. A inédita e histórica vitória eleitoral no ano passado do FMLN, o ex-grupo guerrilheiro transformado em partido institucional depois dos Acordos de Paz de 92, tem gerado expectativas positivas em diversas organizações de direitos humanos e atores políticos do país, inclusive na comunidade internacional, para a plena realização dos direitos das vitimas por justiça e reparação nesse episódio do El Mozote e em diversos outros casos de violação dos direitos humanos durante a guerra civil no país que deixou um saldo de pelo menos 70 mil mortes.
Entretanto, permanece como o grande desafio da democracia salvadorenha e da plena reconciliação nacional – analogicamente ao desafio brasileiro pós-regimes militares – a revisão da Lei de Anistia. Ela é uma norma ainda vigente que estabelece a extinção penal de todos os que estiveram envolvidos na violação dos direitos humanos durante o conflito salvadorenho. Na prática, a possibilidade das vitimas exigirem justiça com base na informação do relatório da Comissão da Verdade está vedada por esse obstáculo.
Ainda hoje, nenhuma investigação ampla foi levada a cabo no país pelo Estado, ninguém foi condenado em El Salvador e permanece a impunidade.
*Aleksander Aguilar é jornalista graduado, mestre em Estudos Internacionais pela Universitat de Barcelona e doutorando em Ciência Política pela UFPE.
