Tuesday, 22 June 2010

O delirio salvadorenho

*TEXTO PUBLICADO NA EDICAO IMPRESSA DO JORNAL BRASIL DE FATO, DO DIA 1 DE JULHO DE 2010

No limite do macabro. Assustadoramente desafiante e revelador. O crime ocorrido em El Salvador no dia 20 de junho deste ano põe em evidência o nível de barbárie e extremismo que chega a situação da violência na América Central. Um caso sintomático particularmente nesse que é, ao mesmo tempo, o territorialmente menor e mais violento país do continente. Um indicativo de que, analogicamente ao Brasil, há espaços na sociedade em que a segurança pública é controlada pelo crime organizado e que isso, se segue seu ritmo crescente, pode abalar a estabilidade nacional.

No inicio da noite do domingo passado, um ônibus do serviço de transporte urbano da capital, San Salvador, foi metralhado e incendiado com todos os passageiros dentro. Foram 14 pessoas, incluindo menores de idade, mortas, todas queimadas vivas, dentro do veículo. Eram cidadãos comuns, em suas rotinas diárias, viajando no percurso da sobrevivência de uma sociedade que massificou o medo e trivializou a violência ao nível do absurdo. Imediatamente após a matança, apenas duas vitimas tinham sido identificadas: uma mulher de 37 anos e uma menina de um ano e meio de idade. Os demais estavam irreconhecíveis e apenas testes de DNA poderiam confirmar sua identidade.




A tragédia ocorreu quando todas as unidades da Polícia Nacional Civil (PNC) e quase metade das tropas do exército do país estão nas ruas cumprindo um controvertido plano anti-delinquência do governo na tentativa de frear a criminalidade. El Salvador é atualmente, segundo as estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS) o mais perigoso país da América Latina e um dos mais violentos do mundo. Os índices de homicídios são de 76 para cada 100 mil habitantes, os mais altos do continente e quase iguais aos que havia durante a guerra civil dos anos 80.

El Salvador é um estado sobrevivente dessa “delirante” guerra, como define a própria ONU no informe da Comissão da Verdade sobre o conflito. O fratricídio que vigorou oficialmente entre os anos de 1980 a 1992 deixou um saldo de mais de 70 mil mortos e desaparecidos – mais de 3% da população total do país. Hoje é uma nação que busca a paz e o equilíbrio entre as condições de insegurança, desigualdade social e falta de justiça que se arrastam como conseqüência de processos não finalizados e de lutos não superados. Os Acordos de Paz de 1992 puseram um fim à guerra entre o governo e as organizações marxistas revolucionárias salvadorenhas e isso deu passo a uma nova fase na história política do país. No entanto, a partir disso, também se passou a assumir que o fim da hostilidade bélica significava viver em paz. Como mostra o estremecedor evento do dia 20, um estado de paz significa muito mais que a mera ausência de guerra.

Um grupo pequeno que pertence a uma grande organização, articulada e coordenada, planejou deter um ônibus, metralhar-lo e incendiar-lo com todos os passageiros dentro. Trata-se de um exemplo de força – e crueldade abismal – dessas organizações que extorsionam, roubam, seqüestram, matam e se digladiam em um conflito aberto entre si diante da incapacidade do Estado para parar-las.


LAS MARAS

Conseqüência indireta das imigrações provocadas pela guerra civil e pela globalização, em Los Angeles, nos Estados Unidos, jovens imigrantes centro-americanos criaram no início dos anos 80 as duas principais gangs (“maras”, no jargão da região) que atualmente se enfrentam na América Central: a Mara Salvatrucha (MS) e a Mara 18. Cada uma delas possui sua linguagem codificada, seus rituais, suas tatuagens e seu ódio visceral.


Oriundos do istmo entre o Sul e o Império, uma região quase sempre esquecida mesmo no contexto latino-americano, jovens desorientados como resultado da imigração forçada, econômica política, desertores do exército e/ou da guerrilha, desenvolveram no breve espaço de uma década organizações criminais estruturadas e hierarquizadas para defender seus territórios e negócios ao custo da vida dos seus inimigos. A primeira foi a MS, mas logo surgiu a 18, que ocupava precisamente a rua 18, no sul de Los Angeles.

Washington, em 1996, aprovou as terríveis “Immigration Reform” e a “Immigrant Responsability Act” que permitiu às autoridades dos Estados Unidos expulsarem imediatamente mais de 100 mil membros de gangs para a América Central. Esse fluxo de delinqüência gangrenou a ordem social principalmente de Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador.

Os anos da guerra em El Salvador deixaram marcas profundas. Há uma violência endêmica alimentada por mais de 400 mil armas de fogo que circulam no país e que se pode comprar por preços irrisórios. O nível de consumo de drogas é alto e aumenta com a liberalização, a toda velocidade, da economia, dolarizada desde 2001, que desestabiliza o tecido social do país. No informe de 2007 do Escritório das Nações Unidas para o controle de Drogas e Delitos, El Salvador aparece como a terceira nação do mundo em consumo de cocaína. O país, juntamente com o México, (onde o exército também foi mandando às ruas para tentar combater o narcotráfico) é o corredor pelo qual passa 90% da cocaína que chega aos Estados Unidos.

Os números oficiais de membros de gangs são muito variáveis, devidos as dificuldades de se calcular o nível de envolvimento dos jovens com as organizações, mas estima-se um mínimo de 10 mil “mareros” em El Salvador. No começo dos anos 2000, o presidente salvadorenho Francisco Flores, adotou o programa “Mão Dura” para combater as maras, utilizando um forte aparato repressivo. Mas dos mais de 16 mil suspeitos detidos apenas 807 foram considerados culpados. Essa legislação foi então considerada inconstitucional e criticada por não enfrentar os problemas ligados à miséria e à violência familiar que determina a marginalização dos jovens o desenvolvimento de vínculos com as maras.

Os subúrbios de San Salvador são um ninho de casebres e pequenas favelas que formam um limbo, um espaço que separa a capital de sua cadeia de vulcões que, segundo o cineasta franco-espanhol Christian Poveda (assassinado em 2009 pela mesma mara que retratou em documentário internacionalmente premiado, La Vida Loca), conforma a topografia ideal para a violência. Ao contrário dos guerrilheiros dos anos 70 e 80, os jovens mareros rechaçam ideologias e expressam sua rebeldia em uma violência que ultrapassa as raias do absurdo.



Faltam hoje em El Salvador, ainda, vontade política e recursos financeiros para combater a violência urbana. A inédita e histórica chegada da FMLN ao Executivo do país no ano passado – a antiga guerrilha convertida em partido institucional depois dos Acordos de Paz – trouxe consigo a expectativa de mudanças substanciais na nação. Porém ainda não se iniciou no país o desmonte de estruturas de privilégios na sociedade que geram corrupção e inviabilizam o avanço social e econômico. Um estado com alta sonegação de impostos obstrui a distribuição de recursos e as instituições nacionais terminam debilitadas e incapazes.

A violência constante em El Salvador se inicia desde a política e a educação. A violência direta, resultado da violência estrutural vigente, conforma a inconsistente base sobre a qual se tenta realizar a reconstrução da sociedade salvadorenha. A conformação de uma cultura de violência está determinada pela incidência de um sistema de normas e valores que aceitam, toleram e retroalimentam culturas violentas.

O conflito salvadorenho não está encerrado, senão manifesto em atos abomináveis como o ocorrido na capital no dia 20 de junho. Este conflito precisa ser transformado tendo como norte o estabelecimento de uma paz positiva, sem violência estrutural, que permita o desenvolvimento de uma cultura de paz. Isto passa por uma diferente atitude do Estado frente as suas dividas em matéria de verdade, justiça e reparação com o seu próprio passado recente; por uma nova postura do setor privado diante de seus compromissos para com o país e pela decisão do Estado em enfrentar-se decididamente com as enormes falhas do seu sistema político e judicial.

2 comments:

[dii] said...

Não sei por onde começar. Mas talvez eu precise me omitir ao relatar as tantas sensações tristes que tenho ao ler que essa violência é tão exacerbada e desumana.

Aceleradamente perturbador e muito lamentável tudo isso.

Desejos de consolo, mudança e paz,
é o que posso dizer.

Juliana Vitorino said...

"Los nombres de los asesinados irán cambiando, pero siempre habrá asesinados. Las violencias seguirán cambiando de nombre, pero habrá siempre violencia mientras no se cambie la raíz de donde están brotando todas esas cosas tan horrorosas de nuestro ambiente".

(Monseñor Romero, en 1977)
Monseñor era/é uma pessoa tão necessária pra esse mundo doido.