Tuesday, 3 July 2007

Terroristas pagam ônibus?

Do alto de uma crise de indignação e por haver incorporado a oportunidade de expressão desmedida, sou obrigado, ou tenho o direito, a discordar do irreprensível (mas “discordável”) Ivan Lessa. A novidade do verão não é Gordon Brown. O que há de novo no nome que tão previsivelmente assumiria o lugar de Blair? Apontar a ausência do verão na estação que leva esse nome ainda passa, mas para um país de clima tão notoriamente miserável mesmo moradores recentes aprendem a não se surpreender. Com o que não se acostuma são algumas das “britanicidades”para usar uma expresão do senhor Lessa. Nisso não me refiro ao testezinho de Brown de como ser Britânico, assando no forno A la America e que inclusive logo terá, porque merece, um post específico neste blog. O que me irrita - e é novidade para mim porque não me acostumo - é a disposição, pretensão e cara-de-pau “britanicística”.
Quanto será que se gasta com o arranjar de uma sessão na Corte Britânica? São 95 libras cada teti-a-teti com a pomposa Justiça inglesa para debater se fulano pagou ou não uma (1) libra nos lotados e mais caros ônibus da Europa? E quantas libras são necessárias para que a famosa Polícia e/ou Inteligência inglesa saiba de antemão quando vão colocar um, dois ou vários carros-bomba na frente de boates nas ruas mais movimentadas de Londres? Decerto, o poder, seja governo ou corporações, não tem nada mais importante a fazer do que perder tempo processando estudantes e trabalhadores nos ônibus only deck; do que gastar sabe-se lá quanto com máquina burocrática para manter fiscalização nesses ônibus; do que adicionar mais e mais despesas preparando medidas judicias contra os “infratores”que não tocam o Oyster Card nos leitores eletrônicos. Ora, mas que britanicidade admirável! Organização, tolerância zero e imposição de ordem e respeito. À forca, mas respeito. Politicamente correto, e atrapalhado!
Jogar bagana de cigarro no chão? multa: 100 libras. Não tocar o oyster? multa: 20 libras ou, se reclamar, processo na cabeça e juizes ingleses, ouvindo uma empresa pública inglesa contra um imigrante aprendendo inglês, é que decidirão...
Enquanto isso
...London’s burning! Metros explodem; brasileiro inocente é, por engano, assassinado pela própria Polícia; médicos do NHS (sistema público de saúde inglês) planjeam carros-bombas e os ônibus seguem lotados. Uma coisa não tem nada ver com a outra? Correto, mas creio que errado para as autoridades londrinas! A mim soa como se eles acreditassem que justamente por isso é que vale a pena processar alguém por uma libra. Pois se explodirem Piccadily Circus, não será com uma bomba transportada no ônibus 38, vinda da "desprezivel periferia" de Hackney, porque os bravos fiscais do Transport for London, antes de se alcançar o centro, interceptarão os infratores em punho com suas valentes máquinas leitoras de saldo. Ou será que terroristas pagam o ônibus? Nada, eles usam Mercedes.

2 comments:

Sílvia Tavares said...

É mais ou menos como em Brasília... "Somos só o avião", as cidades satélites não tem o direito de importunar a paz e a ordem da bela e funcional (em todos os sentidos) capital brasileira. Certamente a fiscalização nos ônibus passa longe do terrorismo, é mais provável que a intenção seja manter a "desprezível periferia" (como definiste) "abroad" da grande organização londrina. Infelizmente isso acontece em todo o mundo mesmo, independente do grau de desenvolvimento. É o que senti quando, por breves 5 dias, fiz parte da "organização suíça", em países de primeiro mundo ninguém reclama e tudo funciona, primeiro porque pra quem tem dinheiro funciona mesmo e segundo porque pros meros mortais, "I am awfully sorry", mas não existe serviços do tipo "sugestões e reclamações". A saída deve ser mudar de planeta!! Pra ser só um comentário... Já compartilhei demais da tua irritação! hehe

Leticia said...

Humm... Gostei de ter sido demasiadamente humana na entrevista.
Beijos enormes,
Leticia.