Saturday, 1 February 2014

Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo

- outro texto meu publicado no Nota de Rodapé, sobre as eleições deste 2 de fevereiro em El Salvador e na Costa Rica.

Também pode ser acessado aqui, no blog do Núcleo de Pesquisas D&R.

 


"Amanhã, 2 de fevereiro, é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.
De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.
Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.  
Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.
Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.
Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.
O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.
Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam.  O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.
Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.
O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas."



* * * * * * * 

Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, e coordenador do Grupo de Estudos América Central (GEAC) do Núcleo de Pesquisas Desenvolvimento e Região (D&R), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Thursday, 30 January 2014

Bruno Maranhão, presente!


Novo texto meu no NOTA DE RODAPÉ, onde publicamos uma homenagem ao lutador social Bruno Maranhão, que faleceu no dia 25 de janeiro deste ano.
Pode também ser acessado aqui

 
Teimoso, polêmico, dedicado, afetuoso, louco, aberração. De todos os muitos adjetivos usados para descrever Bruno Maranhão esse último, que pode ser visto como o mais curioso e pesado, é paradoxalmente o que dá o melhor sentido para justificar a celebração da sua vida, pela qual lutou, como fez em toda sua trajetória política, até o dia 25 de janeiro deste ano.

Bruno, filho de usineiros de açúcar por parte de mãe e de pai, um herdeiro típico da alta burguesia tradicional pernambucana, legada diretamente da relação Casa Grande/Senzala, fez-se aberração suficiente para deixar o chicote opressor e lutar pelas emancipações dos oprimidos ao lado dos mais destacados comunistas da época das revoluções guerrilheiras no Brasil, e seguir lutando ao longo de toda sua existência. De sucessor da estrutura de dominação social pela terra, passou a vida em militância por reforma agrária.

 “Origem de classe não tem a ver com consciência de classe”, me disse em uma das inúmeras reuniões que tivemos no seu escritório no bairro Casa Amarela, em Recife. Bruno fez muitos amigos e amigas em sua história política, de tão longa data como da clandestinidade na ditadura e do exilio no exterior. Eu, porém, tive apenas a oportunidade de conviver com ele durante os últimos seis meses do vigor da sua militância, em 2011, quando nos reuníamos quase que diariamente, em Pernambuco e outros estados, para organizar a “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI”, do Movimento de Libertação do Sem Terra (MLST), do qual ele foi um dos principais coordenadores.

Bruno tinha uma inquietude otimista motivadora, e gostava muitas vezes de desafiar as “condições objetivas”, acreditava que só lançando-se aos projetos poderia faze-los realidade.

- Vai ser muito difícil conseguir a condição ideal pra caminhar 250 km com quase 1000 militantes, Bruno, em tão pouco tempo, argumentava-se.

-  Nem sempre há tempo para conseguir o ideal, companheiro, mas ao fazermos já vencemos, respondia.

Levamos 20 dias naquele ano, de agosto até o 7 de setembro, para caminhar da capital do Estado de Goiás, até Brasília. “Aperte a mão de quem o alimenta!” foi o lema, e a Marcha promoveu pelas cidades onde passou seminários para evidenciar a importância e a necessidade da reforma agrária para a superação da pobreza no Brasil. Essa atividade idealizada pelo Bruno foi sua última grande articulação de movimentos populares. Ele infelizmente não pode conclui-la, pois justamente ali se iniciou a manifestação da doença que levou o lutador. As fotos que fiz durante a Marcha (http://picasaweb.google.com/107212933358361519768) são suas últimas imagens em plena militância, no ato de lançamento da jornada, em que o vimos pela em punho levantado e de microfone à mão, como o foi na sua história de lutas por emancipação.

Em plena ditadura militar brasileira, aos 20 e poucos anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e integrou o Comitê Central ao lado de lendas como Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Mário Alves. Foi exilado político, e no retorno ao país ajudou a fundar o PT, tendo sido membro da Executiva nacional, e já com mais de 50 anos fui fundador do MLST, onde militou até a sua morte, aos 74 anos de idade.

Sua capacidade de liderança era inegável e era tão destacada quanto o seu carisma. Bruno ensinou gerações de militantes, do campo e da cidade, de movimentos sociais e de partido, aquelas particularidades do comportamento político, do trato com o adversário, da hora de ser firme, de negociar, de flexibilizar, que só a experiência forjada em muitos anos de prática podem dar.  Desde a roda de camponeses em um galpão de pouca cobertura no interior do Nordeste até o gabinete do governador do Estado, pelos assentamentos e acampamentos sem-terra à reuniões ministeriais no Distrito Federal, via-se aquela postura e leitura sociopolítica inabalável da realidade. Era o que lhe motivava a apostar e entregar-se a necessidade de transformações estruturais no país que, vista como uma grande excentricidade por parte de muitos, foi justamente o que lhe garantiu o respeito e um lugar certeiro na história da esquerda brasileira; uma coerência e chama sempre acesa por justiça social que fez de Bruno um militante revolucionário na juventude, na idade adulta e mesmo na terceira idade.

Bruno Maranhão foi um brasileiro que teve uma história particular. Na dedicatória do livro Os Colares e as Contas (2012), a síntese poética de uma experiência política, segundo seu próprio autor, o jornalista Marcelo Mario de Melo, que também foi militante do PCBR, aparece a homenagem a Bruno entre aqueles “que se mantém socialistas e de esquerda depois dos 60 anos”. E Bruno ainda depois dessa idade não apenas manteve suas ideias como as expressou constantemente desde caixotes improvisados em assembleias e reuniões camponesas nos campos desse Brasil.  Só se pode respeitar uma trajetória assim. O sonho e a luta por reforma agrária permanecem vivos na memória de Bruno Maranhão.

 

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

Tuesday, 24 December 2013

Textos curtos para Ítaca XXXI


.....h0000--------h0000.........h00000

Eu queria que não estivessem tão frios os meus pés, tão seco e pesado o meu espírito, tão quente e abrasante as rotações por minuto das minhas ideias deslocadas, tão carregada a minha postura e os meus gestos, engasgadas de inseguranças, excedentes de certezas, desmerecidas de realidade; mas o que eu queria não importa, eu tracejo fora do contorno, marco fora da medida, perfuro pungente minha própria pele até fluir a essência com que encho minha taça. Lacinante, e incalável.

Sunday, 27 October 2013

Textos Curtos para Ítaca XXX (!)

Um futuro-presente projeto literário. “Textos curtos para Ítaca” é a primeira materialização de uma das várias e extensas ideias em literatura, essencialmente em prosa, mas com flertes em verso, colecionadas ao longo da jornada até Ítaca. Em fato, os projetos para contos e novelas e outras literaturas de longo fôlego, ainda estão em fase sketch, talvez nem maquete, e irão tomando forma ao ritmo das circunstâncias que, sim, podem tardar como já tardam, mas ainda virão. Enquanto isso, num dia e momento aleatório, curiosamente com menos atraso, vão tendo agenda as mini-experiências em poesia e verso, do qual, lenta e despretensiosamente, faço um laboratório neste blog (único espaço onde o critério editorial é totalmente meu... ). Algum dia também ganharão forma impressa, sempre ao ritmo das possibilidades e, no dizer de Konstantinos Kavafis, do rogar por uma rota longa. Mas em textos curtos.




LOVE STATEMENT



My email password!

My alphanumerical bank account code!

Monday, 16 September 2013

Oito anos de jornada à Ítaca

Hoje faz oito anos que iniciei a "jornada a Ítaca", chegando a Londres num curioso e aventureiro setembro de 2005, logo após os atentados do metrô. Nesse caminho desde então as paradas tem sido além de Londres, Barcelona, San Salvador e Recife. "A viagem não acaba nunca". Deixo o poema-lema inspirador de Kavafis.


ÍTACA (Konstantinos Kavafis)

Cuando salgas en el viaje, hacia Ítaca

desea que el camino sea largo,

pleno de aventuras, pleno de conocimientos.

A los Lestrigones y a los Cíclopes, al irritado Poseidón no temas,

tales cosas en tu ruta nunca hallarás,

si elevado se mantiene tu pensamiento,

si una selecta emoción tu espíritu y tu cuerpo embarga.

A los Lestrigones y a los Cíclopes ,y al feroz Poseidón no encontrarás,

si dentro de tu alma no los llevas, si tu alma no los yergue delante de ti.

Desea que el camino sea largo.

Que sean muchas las mañanas estivales en

que con cuánta dicha, con cuánta alegría entres a puertos nunca vistos:

detente en mercados fenicios, y adquiere las bellas mercancías,

ámbares y ébanos, marfiles y corales, y perfumes voluptuosos de toda clase,

cuanto más abundantes puedas perfumes voluptuosos;

anda a muchas ciudades Egipcias a aprender y aprender de los sabios.

Siempre en tu pensamiento ten a Ítaca.

Llegar hasta allí es tu destino. Pero no apures tu viaje en absoluto.

Mejor que muchos años dure: y viejo ya ancles en la isla,

rico con cuanto ganaste en el camino, sin esperar que riquezas te dé Ítaca.

Ítaca te dio el bello viaje.

Sin ella no hubieras salido al camino.

Otras cosas no tiene ya que darte.

Y si pobre la encuentras, Ítaca no te ha engañado.

Sabio así como llegaste a ser, con experiencia tanta,

ya habrás comprendido las Ítacas qué es lo que significan.

Friday, 23 August 2013

10 anos de autonomia Zapatista


* Texto meu originalmente publicado no website do qual sou colaborador, NOTA DE RODAPÉ

*Foto: José Andrés Solorzano

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo. 
São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na
 Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.  
ESCOLA PARA A LIBERDADE
No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal
 New York Timesdenominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde
 La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos. 

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.
Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.


*Aleksander Aguilar
 é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

Saturday, 6 July 2013

Textos Curtos para Ítaca XXIX

Um futuro-presente projeto literário. “Textos curtos para Ítaca” é a primeira materialização de uma das várias e extensas ideias em literatura, essencialmente em prosa, mas com flertes em verso, colecionadas ao longo da jornada até Ítaca. Em fato, os projetos para contos e novelas e outras literaturas de longo fôlego, ainda estão em fase sketch, talvez nem maquete, e irão tomando forma ao ritmo das circunstâncias que, sim, podem tardar como já tardam, mas ainda virão. Enquanto isso, num dia e momento aleatório, curiosamente com menos atraso, vão tendo agenda as mini-experiências em poesia e verso, do qual, lenta e despretensiosamente, faço um laboratório neste blog (único espaço onde o critério editorial é totalmente meu... ). Algum dia também ganharão forma impressa, sempre ao ritmo das possibilidades e, no dizer de Konstantinos Kavafis, do rogar por uma rota longa. Mas em textos curtos.

Já chegou o momento

criamos emoções

conseguimos.

Despedir-nos fará com que tudo seja mais intenso

sonhar fará com que vida não rime com tranquila.

Nós, como almas vagabundas e companheiras, que compartilham, que intercambiam

sempre perguntando-nos a hora, e olhando, na parede escrita

“la belleza es tu cabeza”

Somos música, somos filme.

Thursday, 27 June 2013

Mientras tanto, en Chiapas, ¡los NO invitados de las escuelitas zapatistas!

"A l@s adherentes a la Sexta en México y el Mundo:
A l@s estudiantes de la Escuelita Zapatista:

Compañeros, compañeroas, compañeras:









No serán sus compañer@s de clase en la escuelita, porque no los invitamos, los siguientes:

Los legisladores que formaron la Comisión de Concordia y Pacificación (COCOPA) en el período 1996-1997.  Aunque les hubiera servido darse cuenta de que no se equivocaron con su iniciativa para el reconocimiento constitucional de los derechos y la cultura indígenas, misma que fue traicionada por todos los partidos políticos, el poder legislativo, el ejecutivo y el judicial.

Los legisladores de la COCOPA actual.  Aunque les hubiera ayudado a conocer por dónde está la puerta para la reactivación del diálogo con el EZLN.

Los presidentes de los partidos políticos con registro (PRI, PAN, PRD, PVEM, PT, MC y NA).  Porque no tenemos antiácidos suficientes para aliviar el coraje que les daría al ponerse en evidencia lo que se puede hacer, no sólo sin los partidos políticos, sino a pesar de ellos.

Los presidentes de las mesas directivas de las cámaras legislativas y los coordinadores de las fracciones parlamentarias.  Aunque les hubiera servido constatar lo que la contrarreforma de ley indígena que mantienen no pudo impedir.

La Secretaría de la Defensa Nacional, La Secretaría de Marina, el CISEN, la PGR, la Comisión Nacional de Seguridad, la Secretaría de Desarrollo Social, la Suprema Corte de Justicia de la Nación.  Aunque hubieran podido confirmar sus informes de inteligencia que les dicen que se está mejorando significativamente el nivel de vida de las comunidades indígenas zapatistas a pesar de sus labores contrainsurgentes, su apoyo a grupos paramilitares y el tratamiento policíaco que dan a una lucha justa y legítima.  Y, además, hubieran podido constatar, de primera mano, la persistencia de lo que con tanto empeño han tratado de destruir: la autonomía indígena.

El Departamento de Estado Norteamericano, la CIA, el FBI.  Aunque les hubiera ayudado a entender sus reiterados fracasos… y los que les faltan.

Las distintas agencias de espionaje que languidecen de aburrimiento en San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, y cuya única ocupación es alentar los chismes que pululan entre las ONG´s coletas.

El Mandón, el que realmente los dirige a todos ellos, ante quien se inclinan y a quien adulan.  Aunque sólo se hubiera estremecido al ver que esa pesadilla recurrente que padece, tiene visos de realidad.

No han estado, ni están, ni estarán como nuestros huéspedes.

En cambio, han estado, están y estarán como nuestros perseguidores, como quienes buscan la forma de destruirnos, de doblegarnos, de comprarnos, de rendirnos.

Estarán espiándonos, vigilándonos, maldiciéndonos siempre, como hoy, como ayer, como hace 10, 20, 30, 500 años.

No los invitamos no sólo porque nuestro plan de estudios no incluye grupos de nulo aprendizaje, o para no alentar el “bullying” del que serían objeto por parte de los demás estudiantes (lo sé, eso sí es una lástima), o porque tenemos mejores formas de perder el tiempo.

No los invitamos porque, así como nosotros, nosotras, no vamos a dejar de resistir y de luchar, ellos no van a dejar de despreciarnos, de tratar de explotarnos, de reprimirnos, de intentar despojarnos de lo que es nuestro, de desaparecernos.

Así como nosotras, nosotros, nunca vamos a aprender la lengua del dinero, ellos nunca van a aprender a respetar al diferente.

Y, sobre todo no los invitamos, porque ellos y quien en realidad los manda, nunca van a entender por qué, en lugar de morir, vivimos.

-*-

  Así que, ni modos, no contarán, entre sus condiscípulos, a tan “ilustres” personas.  Por lo tanto, no saldrán en los noticieros de la prensa escrita, radio y televisión, ni habrá mesas de debate, ni sesudos análisis.  O sea que, como quien dice, el aire estará limpio.  Y la tierra, la que nos vio nacer y nos alimentó hasta crecer, agradecerá el digno paso que la anda: el de ustedes.

Vale.  Salud y libertad, que el paso de l@s de abajo es bienvenido, como es bienvenido su corazón.

Desde las montañas del Sureste Mexicano.


México, Junio del 2013."

Saturday, 22 June 2013

Um retorno a Lênin? Organizaçao e espontaneismo em tempos de “tecnopolítica”

  • foto: fanpage "Manifesto Recife" - 20/06/2013

  • Por Aleksander Aguilar
Repetição, de acordo com Hegel, joga um papel crucial na história: quando alguma coisa acontece apenas uma vez, isso pode ser desdenhado como um acidente – algo que poderia ter sido evitado se tivéssemos tratado diferentemente a situação; mas quando o mesmo evento se repete, isso é um sinal de que um processo histórico mais profundo se desdobra. 
(Slavoj Zizek[1])

Desde 2011, com a surpresa da Primavera Árabe e subsequentes séries de revoltas e manifestações que atravessam vários e distintos países, o tema da organização popular, ou de massa, ou militante, tem estado na ordem do dia em inúmeros debates e produção intelectual. Há na era da Web 2.0 um momento de reconfigurações sociopolíticas, intimamente ligada à essa influência da incontrolável velocidade das novas tecnologias, que geram ondas de impacto em reverberação. Ocorrem no contexto europeu, em contra de medidas de austeridade fiscal; ou levantes, no contexto do Oriente Médio, em oposição aos velhos regimes de governos autoritários, e agora no Brasil, com uma indignação latente nas ruas por demandas de justiça social que ainda se buscam compreender e ter formato.  Há lutas que elencam muitas dúvidas e inúmeras posições de um suposto dualismo entre novas e antigas formas de organização.

Entre essas perguntas estão: Como remediar, ou prevenir, que níveis de massa de mobilização se dissipem ou sejam subaproveitadas?  Como canalizar a força difusa do desejo por mudanças sociopolíticas em uma luta efetivamente capaz de proporcionar transformações sociais emancipatórias?  Os temas da organização e do espontaneismo são centrais no corrente cenário e a reflexão conceitual na busca de respostas envolve nomes contemporâneos do pensamento social e político com renomado trabalho nesses assuntos e merecem ser citados.

O mais popular entre esses por enquanto, Slavoj Zizek, em diferentes ocasiões enfatiza que para a reorganização da vida social é preciso um corpo político firme o suficiente para realizar decisões rápidas que sejam implementadas também com a firmeza necessária.[2] No atual ambiente de despolitização das administrações pós-ideológicas – que, para Zizek, conforma uma dinâmica perigosa; humaniza e naturaliza o capitalismo e dá espaço para a organização de uma superdireita – o filósofo afirma que a democracia liberal não é suficiente e restabelece o horizonte do comunismo interpretado: “Quando debatemos com os liberais, não deveríamos dizer: 'ah, vocês são os inimigos burgueses, não discutimos como vocês!' Deveríamos, sim, alertá-los. 'Sim, nós também gostamos das suas liberdades, mas apenas uma esquerda bem estabelecida em longo prazo irá ajudar a salvar os aspectos dessas liberdades que valem a pena. Se não for assim se perderá cada vez mais espaço para a extrema direita'”.[3]

Outro filósofo caro a esse debate, Alain Badiou, na sua posição de reinventar a “ideia comunista” recebe críticas por parecer querer restringir à filosofia a tarefa de prover respostas que na verdade só podem ser construídas na prática. Um novo militante, uma nova organização e uma nova disciplina não são propostas necessariamente ligadas a uma nova hipótese comunista, nem a que o problema seja o de substituir os partidos, e corre o risco de pautar redefinições mais abstratas do que soluções.[4]

Teríamos assim uma divergência entre Zizek e Badiou, este cuja preferência seria a de uma política sem partido, organizada através da disciplina intelectual do processo político, e não de acordo a forma correlata à exercida no Estado. Mas há ao mesmo tempo um diálogo sobre os conceitos que permeiam o debate – como disciplina e capacidade de decidir e de agir de forma unificada, bem como estrutura e centralização – em relação direta com a forma do ativismo que se vê hoje.

Quando consideramos, então, o momento de manifestações de massa que se desenvolvem e se espalham desde 2011, as incertezas e inseguranças manifestam-se ao lado, porque sua natureza indeterminada, de significar qualquer coisa para quaisquer pessoas, pode atrair enormes contingentes de pessoas às ruas ao mesmo tempo que torna ações concertadas cada vez mais difíceis: qualquer intervenção decisória pode provocar dispersões e divisões e, logo, é no fazer as coisas acontecerem que se determinará quem está dentro e quem está fora.

Há, sobretudo, mesmo que se busque ser neutro sobre os significados desse novo militante, dessa nova organização e, portanto, dessa nova política, uma avaliação negativa do que existe hoje. O declínio da organização leninista não representou o seu desaparecimento; as ideias dos partidos não necessariamente representam sentido completo, mas a prática partidária sim, tal qual os Bolcheviques foram copiados, em termos pragmáticos, porque o formato funcionou. Dito isso, há certamente um espaço hoje para uma reavaliação teórica da noção de vanguarda da esquerda que deve se guiar pelo empenho em encontrar e sistematizar (o que seria bastante útil) noções não-vanguardistas de política ainda assim entendidas como radicais ou revolucionárias. Com isso seriamos capazes de pensar o problema do militante e da organização através do presente, da tecnopolítica (o uso tácito e estratégico das redes digitais para a organização, comunicação e ação política coletiva, que implica também em utilizar a rede para tomar o espaço urbano[5]) e combinar propositivamente a questão do “o que é” com o da “o que é preciso”.

Há espaço para que nos movamos mais adiante da polarização conceitual entre partidos vanguardistas, vistos como muito rígidos, e redes de articulação virtual, vistas como muito frouxas? É possível que os movimentos contemporâneos transcendam o espontaneismo pejorativo e sejam articulados como novas formas de criação e de organização?

A evolução desse debate, hoje mais do que nunca enraizado no prático, deve estar pautado num horizonte de emancipação social. O esvaziamento político daquilo que começou como atos propositivos, e agora tem como tom predominante o de paradas cívicas moralistas e conservadoras, precisa ser preenchido, com a construção de uma identidade coletiva que marque distância da direita e tenha uma projeção mais estratégica.  Propostas emancipatórias radicais precisam ser desenhadas, debatidas e massificadas de modo a se ter um objetivo sociopolítico estruturalmente transformador. Eis a reflexão chave, segundo Zizek: o espaço da sociedade como conhecemos está para terminar e é tempo para interpretações mais radicais.

*Aleksander Aguilar é jornalista e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais



[1] ŽIŽEK, Slavoj. “Shoplifters of the World Unite”. In: London Review of Books, 19/08/2011. http://www.lrb.co.uk/2011/08/19/slavoj-zizek/shoplifters-of-the-world-unite
[2] IDEM
[3] AGUILAR, Aleksander. “O fim dos tempos, segundo Zizek” In: Jornal Brasil de Fato, 15/09/2010. http://www.brasildefato.com.br/node/258
[4] Rodrigo Nunes, "Rethinking the Militant", in Shannon Brincat (Ed.). Volume III: The Future of Communism, Third volume of Communism in the 21st Century, 3 Volumes, Santa Barbara, CA: Praeger, (in-press, 2013).
[5] Ander Iñaki Oliden entrevista a JAVIER TORET. "La acción política va a estar cada vez más mediada por la tecnología" In: eldiario.es 21/06/2013. http://www.eldiario.es/turing/accion-politica-vez-mediada-tecnologia_0_145586203.html