Tuesday, 8 April 2008

Mil peruanos equivalem a dez franceses

Nao sou um blogueiro "profissional". Ja mencionei isso mais de uma vez desde a decisao de me atrever a escrever esporadicamente, por fruicao ou por exercicio, na blogsphere. A motivacao central foi praticar a redacao em ingles, unindo assim o util ao util, pois estaria tambem registrando as vivencias desse processo de aprendizagem na Inglaterra.
Agora, fora terra dos "Brits" (ao menos por enquanto) e em andancas centroamericanas, ja deveria ter mudado o carater desse blog, mea culpa, mantendo a proposta de pratica de redacao, mas em espanhol e com historias bem mais latinas. Alias, ja tinha dito que isso seria adotado. E sera. Mas como nao sou um blogueiro que se preze, as historias salvadorenhas se atrasam, se acumulam na memoria e no meu ultimo Moleskine e ainda cedem lugar a tres ou quatro posts que tenho que escrever (quando houver tempo) sobre Londres. Eh soh entao que praticarei meu espanhol escrito enquanto registro a emocao de experiencias como a de haver escalado o vulcao Pakaya na Guatemala, o carater da Antigua, a insanidade dos onibus salvadorenhos, as historias dos ex-combatentes da FMLN, o charme de Suchitoto, a visita historica (e vista por mim ao vivo) de Silvio Rodriguez a El Salvador ,e a imponencia do vulcao de San Salvador todos os dias bem diante da minha janela.
Mientras tanto, ainda que os blogueiros de carteirinha tenham asco do post de textos de terceiros porque seria uma estrategia rala de manter o blog vivo, vale muito a pena ler a cronica da Natalia Viana, reporter da Caros Amigos a quem eu conheci na redacao da JungleDrums, em Londres, quando ambos colaboravam com a revista. Falei poucas vezes e poucos minutos com ela, mas por textos como esse se percebe que foi uma pena nao ter conversado mais.
Aproveitem.
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Cem Marias para cada Madeleine - por Natalia Viana
Esse texto poderia começar de muitos jeitos, mas acho que o melhor é começarpelo sábado, 26 de janeiro de 2008. Eu, sentada ao lado do editor do jornal britânico Independent, onde trabalhei durante alguns meses, anunciava minhasaída e aproveitava para perguntar se a eles interessariam reportagens free-lancer sobre a América do Sul, que eu poderia fazer quando voltasse. A resposta:- Olha, ainda vale a velha regra: mil peruanos equivalem a 10 franceses. Então é assim, se tiver um acidente, um desastre muito grande...
A frase não me surpreendeu. Não foram poucas às vezes, ao longo desse anoe meio vivendo em Londres, em que ouvi jornalistas me dizendo claramente que à imprensa inglesa não interessa a América Latina. Mas ela apontou parauma coisa seriíssima que está acontecendo com o nosso próprio jornalismo internacional. Explico.
Com a falta de dinheiro na maioria das empresas de mídia no Brasil, e aomesmo tempo com o advento da internet e dos canais de notícias 24 horas,a notícia internacional, se antes era mercadoria, agora virou mercadoriabaratíssima.Para preencher tanto espaço em branco, em tão pouco tempo, os veículos optaram pelos serviços das agências internacionais, um punhado de empresas – todassediadas em países ricos – que dizem ao mundo todo o que é notícia e o quenão é. Assim, a Reuters, de origem alemã e sede em Londres, a CNN americana,a AFP francesa, a BBC inglesa – financiada, não por acaso, pelo Ministério do Exterior britânico – difundem a sua visão de mundo, a sua própria culturae o seu jeito de fazer jornalismo.
Não é negativo o advento das agências de notícias. É fantástico poder ter informações rápidas de vários cantos do globo com um grau razoável de confiabilidade.O problema é como o nosso jornalismo internacional tem cada vez mais se baseado apenas no que dizem essas agências.
Funciona assim: o repórter de uma agência escreve a matéria, entrevistando essa e aquela pessoa que considera relevante. Seu texto então é editado por alguém na sede, invariavelmente em um país do norte, e checado contra as informações de outra dessas agências. Se há um serviço em português, os redatores terão que simplesmente traduzir a notícia, e assim ela chega a nós. Hoje, no caso do Brasil, é cada vez mais comum que as publicações diárias usem esses mesmos relatos, vindos de diferentes agências, para compor a reportagem que virá na edição do dia seguinte. O mesmo acontece com as revistas e comos canais de notícia da TV.
Há exemplos chocantes, como o fato de muitas informações que lemos sobre a América do Sul terem sido coletadas por repórteres americanos, ingleses,franceses, enviados para a Europa e traduzidas antes de serem reescritaspara o nosso consumo.
Estamos, na prática, terceirizando a nossa visão sobre o mundo.Um dos tristes resultados desse novo modelo é a morte lenta e dolorosa dafigura do nosso correspondente internacional. Há ainda ótimos correspondentes,claro, mas cada vez em menor número.Os que ainda sonham testemunhar e reportar coisas significativas que acontecemno mundo têm que se contentar com um pagamento magríssimo. Em conseqüência,sou testemunha da explosão de novos tipos de jornalistas até então inéditos, como a correspondente-e-garçonete, correspondente-e-carregador-de-malas, correspondente-e-babá. Sendo, sempre, o subemprego o trabalho principal eo jornalismo quando se tem tempo.
É o colonialismo noticioso: embora a globalização tenha trazido melhoresrelações internacionais para o Brasil, com negócios, turismo, imigração,etc, estamos aceitando sempre a versão da história que nos está sendo contadapelas agências, condizente com a sua linha editorial, e, mais a fundo, comos seus preconceitos.
Um bom exemplo foi a avidez com que a imprensa brasileira acompanhou o sumiço da menina inglesa Madeleine MCcann, em Portugal, no ano passado. Por aqui,a cobertura foi obsessiva, pra pegar leve. A cada dia novos detalhes, na maioria infundados, apareciam e eram reproduzidos incessantemente por sites brasileiros, canais de TV e até jornais. Engolimos sem refletir que, na balançadas agências globais, a vida de uma linda menininha inglesa sempre vai valer mais do que cem Marias brasileiras.
Foi isso que me veio à cabeça ouvindo a resposta do colega do Independent.Antes de agradecê-lo pela honestidade – e ir embora com o rabinho entre aspernas – respondi:- Claro, mil peruanos valem o mesmo que dez franceses, ou uma Madeleine.Ao que ele consentiu com a cabeça e um sorriso sem-graça.

1 comment:

imigrante said...

Aleks,

Como você não me considero um blogueiro profissional, e mesmo "mexendo com esse negócio de computador" há muito tempo nunca tive motivação para blogar.
Como vou me mudar para Londres em breve pesquisando achei o seu blog. Me darei a liberdade de plagiar a sua idéia na prática da redação.

Tive o prazer de conhecer El Salvador ano passado e o seu vizinho, Guatemala. Desde então sou apaixonado pela América Central, uma pena que nós Brasileiros em geral estejamos tão perto geográficamente mas ao mesmo tempo tão distantes. Tenho algumas histórias muito divertidas e outras muito sérias que participei no pouco tempo em que estive aí que espero um dia poder contar, se um dia nos esbarrarmos por esse mundo.

Cara, parabéns pelo blog e muito boa sorte na sua jornada.

Abraços,

Daniel Gouveia
http://imigrante.wordpress.com