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Friday, 12 December 2014

"para que não se esqueca, para que nunca mais aconteça"

Apesar das lacunas, criticadas até por militantes históricos de Direitos Humanos no Brasil, a entrega do informe da Comissão Nacional da Verdade (CNV), no dia 10 de dezembro de 2014, é um marco inconteste do processo de democratização do país, especialmente diante da conjuntura presente, logo de mais de três décadas de obscurantismo.

  Logo de uma eleição federal complexa, polêmica e polarizada em larga medida, vê-se cidadãos, de percepção política atrasada ou de deliberada má-fé, que... vão às ruas brasileiras pedindo pateticamente uma intervenção militar na condução política nacional. Por isso trazer à luz agora, oficialmente, as denúncias dos abusos e atrocidades realizadas nos períodos de regimes autoritários é essencial. 

 Como disse o presidente da CNV, Pedro Dallari, "o informe da Comissão acaba com qualquer nostalgia da ditadura"; explica principalmente aos mais jovens, e de todxs aqueles que não vivemos diretamente, onde me incluo, as violências do autoritarismo institucional no país, os malefícios do seu legado, que nos afeta a todxs no Brasil.

  O informe da CNV deve dar terreno para um novo período de lutas contra a impunidade e a favor da justiça no Brasil, baseada na denúncia das dívidas históricas do Estado brasileiro. A agenda de uma profunda reforma política, através de uma Constituinte, ganha força, e já há rumores de que inclusive no Supremo Tribunal Federal há margem para afastar, por fim, os obstáculos jurídicos à penalização dos violadores dos Direitos Humanos e da democracia no Brasil, como a própria Lei da Anistia.

Ao longo dos anos, pelo menos desde 2008, tenho acompanhado as discussões sobre Memória Histórica e Justiça de Transição, principalmente em El Salvador e no Brasil, nos meus dois países onde, igualmente, a lei de anistia é uma grande barreira. Tenho desde então escrito algo sobre os temas, deixo aqui e nos comentários alguns links de exemplos dessas pequenas contribuições:


Wednesday, 9 April 2014

Fome, sangue e impunidade: as transições incompletas de Brasil e El Salvador

No mês passado tive a oportunidade de entrevistar Benjamin Cuellar, tão conhecido quanto polêmico ativista de Direitos Humanos em El Salvador. Importante material que a agência Rede Brasil Atual comprou e originalmente publicou e reproduzimos no blog Centro-américa em foco - nosso projeto de construção de uma rede de opinião especializada centro-americana, para ter visibilidade principalmente no Brasil,  que impulsionamos desde a UFPE como parte das atividades do doutorado.
Deixo o registro também aqui no  velho combatente Dêiticos :)

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Entrevista com Benjamin Cuellar: um dos mais importantes ativistas de Direitos Humanos na América Central, convidado do Ministério da Justiça para o Congresso Internacional sobre os 50 anos do golpe militar-civil brasileiro, fala sobre os processos de verdade, justiça e reparação na conturbada região pós-guerra e sobre as expectativas de resultados desse debate e da Comissão da Verdade no Brasil

*Por Aleksander Aguilar




Nove anos na organização guerrilheira salvadorenha Forças Populares de Libertação (FPL); oito anos, dois meses e cinco dias no exílio no México e 22 anos como diretor do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Centro-americana (UCA). É assim, com o mesmo hábito que parece comum nas narrativas de ex-presos políticos ao contabilizar até o número de dias em que esteve fora do lugar de origem, que um dos mais importantes ativistas em Direitos Humanos da América Central, Benjamin Cuellar, resume os períodos mais definidores de trajetória.

Cuellar foi um dos convidados entre os muitos nomes de alto perfil que participaram nos dias 10 e 14 de março, em Recife, do Congresso Internacional “50 anos depois: A Nova Agenda da Justiça de Transição no Brasil”, primeiro evento oficial da Comissão de Anistia do Ministério de Justiça sobre o aniversário de cinco décadas do golpe de Estado militar-civil no Brasil, que abriu uma extensa programação de atividades em todo o país.

Especialistas e pesquisadores de várias áreas acadêmicas e reconhecidos militantes da América Latina, Estados Unidos, Europa e África analisaram criticamente os atuais avanços e obstáculos da Justiça de Transição no Brasil, o que ainda resta da ditadura em nossos dias e como fomentar ações sobre memória, verdade, justiça e reparação. Entre esses, o juiz espanhol, responsável pela condenação do ditador chileno Augusto Pinochet, Baltazar Garzón; o Procurador Geral da Argentina, Pablo Parenti: o cineasta Silvio Tendler, que no evento comentou a pré-estreia do longa-metragem “Militares da Democracia: os militares que disserem não” e Patricia Valdez, da Coalizão Internacional de Sítios de Consciência.

O outro nome desse rol, em destaque nesta entrevista, o salvadorenho Benjamin Cuellar, é, aos 58 anos, um homem de muitas histórias e opiniões contundentes, certamente polêmicas, sobre a conjuntura política centro-americana e o estado dos Direitos Humanos nessa região historicamente convulsionada do globo.

Comumente negligenciado por boa parte do debate político de projeção internacional, entre o hegemônico Norte e o promissor Sul do continente americano, está o Centro, a chamada América Central, o pequeno istmo geográfico conformado por sete Estados com menos de 50 milhões de habitantes em pouco mais de 500 mil km² (o Brasil, sozinho, tem mais de oito milhões de km²). A realidade sociopolítica da América Central – embora geopoliticamente inscrita no que se entende como América Latina, área que mobiliza muitos interesses econômicos, políticos e acadêmicos nessas primeiras décadas do século 21 – situa-se nesse lugar periférico do sistema internacional.
No período da Guerra Fria, porém, a região centro-americana foi foco de atenção dos problemas internacionais de uma geração de analistas que entendiam o istmo como um dos principais palcos do conflito bipolar e concentravam-se em problemas relacionados, principalmente com as causas e consequências desses conflitos armados.  Em El Salvador a guerra entre as forças rebeldes organizadas na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e os governos autoritários do país durou, oficialmente, de 1980 a 1992, e deixou marcas “exemplares” de terrorismo de estado, que chamou a atenção do mundo por altíssimos níveis de violência com mais de 75 mil mortos e desaparecidos e impressionou autoridades das Nações Unidas, ao ponto da ONU decidir concentrar grandes esforços de mediação no pequeno país e estabelecer uma Comissão da Verdade, como condição para negociação do fim da guerra, que foi considerada por essa organização internacional uma experiência “modelo” de reconciliação.

Logo dos Acordos de Paz, nos anos 90, que puseram fim a hostilidade bélica nos países que conformam a América Central, os desafios da transição à democracia perpassam velhos e novos problemas tais como migrações, violência, narcotráfico e crime organizado, memória histórica, desenvolvimento econômico, espaço urbano, novas relações internacionais e direitos humanos. Essa última é a área que Cuellar, um dos fundadores da Rede Latino-americana de Justiça de Transição, lançada oficialmente no Congresso Internacional do qual participou na capital pernambucana, analisa com base na experiência e nos dá importantes perspectivas de dentro da região que servem também de reflexão para o processo brasileiro nessa temática.

Como você se envolveu com a militância em Direitos Humanos? O que você observou e aprendeu do período da guerra salvadorenha?

A princípio, segui os passos do meu irmão mais velho, que foi fundador e diretor do Instituto Interamericano de Direitos Humanos, e também do meu pai, que foi secretário-geral da Universidade de El Salvador. Em 1972, quando os militares invadiram e passaram a administrar a universidade, ele foi perseguido e agredido por soldados na nossa própria casa. São imagens que marcam a formação de uma pessoa.

Entrei na universidade já militarizada em 1973, como estudante de Direito, e logo integrei a equipe de futebol da instituição. Disputávamos e ganhamos vários campeonatos, inclusive continentais, até que as FPL me proibiram de seguir jogando, sob o argumento de se tratava de uma atividade a serviço da ideologia pequeno-burguesa (risos). Uma pena, não é? Era a melhor cobertura que poderia ter, já que não imaginariam que um jogador da equipe oficial da universidade estava envolvido com a guerrilha. Mas apesar de terem-me feito sair do time, em 1982 me pediram para levar uma televisão até ao acampamento de Chalatenango (região ocidental de El Salvador que durante a guerra estava sob controle da guerrilha). E para que? Para ver a Copa do Mundo daquele ano…

Ainda como estudante, participei de projetos de alfabetização em zonas periféricas do país, utilizando o método Paulo Freire. E, em 1974, durante essas atividades, conheci algumas pessoas das FPL que me recrutaram para a organização. Estive nas FPL até maio de 1983 quando decidi me retirar. Ainda não tinha muita noção precisa de Direitos Humanos, mas uma intuição e, na guerra, via-se uma diversidade de temas problemáticos: crianças trabalhando como mensageiros, direitos das mulheres, trato de prisioneiros.

Em outubro daquele mesmo ano, fui para o exílio no México, para onde já havia ido o meu irmão, logo depois da morte de Monsenhor Romero (bispo de El Salvador cujo assassinato em 1980 foi o estopim da guerra civil). Ali, com a ajuda de um frade que havia apoiado meu irmão, participei do projeto de criação de uma instituição de direitos humanos e fundamos o Centro de Direitos Humanos Frade Francisco Victoria, que se torna um dos maiores do México.

Permaneci no país exatamente até 5 de janeiro de 1992, quando regresso a El Salvador, já às vésperas da assinatura oficial dos Acordos de Paz que deram fim ao conflito bélico no país (em 16 de janeiro daquele ano) e contratado pela Universidade Centro-americana José Simeón Cañas (UCA) para dirigir o recém-criado Instituo de Direitos Humanos (Idhuca).


Como você avalia a situação dos Direitos Humanos de maneira geral na América Central, e mais particularmente em El Salvador?

Eu divido a região em sub-regiões. Uma coisa é Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Os dois últimos já sabemos que se distinguem de características mais gerais de bem-estar do resto da região, mas também Nicarágua, que tem altos índices de pobreza e desigualdade social, não tem a violência e os problemas principais que temos no Triângulo Norte da América Central (El Salvador, Honduras e Guatemala) que são fome, sangue e impunidade.

Em Nicarágua, sim, há fome, mas não há sangue. E, junto à Costa Rica e Panamá, nesses países houve processos históricos, revolucionários ou institucionais, que se não alcançaram fazer mudanças estruturais, pelo menos trouxeram mudanças que os colocaram em melhor posição, com mais participação de comunidades organizadas, com melhores condições de educação e seguridade social.
Já nos países do Triângulo Norte, com maior ou menor intensidade, as revoluções truncadas ou empatadas que não chegaram ao poder, ajudaram a deixar os países do jeito em que estamos; em que prevalecem as causas que os levaram aos conflitos armados: fome, sangue e impunidade, para jogar com as palavras, mas que também se pode traduzir em falta de direitos econômicos, sociais e culturais, falta de direito à segurança cidadã e de direito à justiça.

Há outros, mas se não priorizamos caímos justamente na crítica de Ignacio Ellacuria (filósofo, escritor e teólogo espanhol, naturalizado salvadorenho, que foi assassinado pelas Forças Armadas salvadorenhas quando ocupava o cargo de reitor da UCA, em 1989, junto a outros cinco padres jesuítas dirigentes universitários no episódio da guerra que ficou conhecido como “o massacre da UCA”) sobre a falta de historificação dos Direitos Humanos que, por vezes, se apresenta como uma larga lista supostamente acessível para todos, que são iguais e universais… Isso é mentira, porque é preciso historicizar segundo a realidade de cada lugar.

Sobre o governo Mauricio Funes, da FMLN, (2009-2014) sobre o qual o senhor tem sido bastante crítico, qual sua avaliação da política de Direitos Humanos?

Eu sempre fui crítico de todos os governos. É o trabalho que corresponde a um ativista de direitos humanos, aplaudir o que é bom e apontar o que é mau. O problema não é botar o dedo na ferida, o problema é a ferida. Mas aqui foi preciso colocar o dedo na ferida com mais evidencia porque deveria ter sido o governo da mudança, porém a fome, o sangue e a impunidade persistem.
Às vezes, se escuta aqueles que dizem que a situação dos Direitos Humanos em El Salvador está boa, mas isso só pode ser dito porque a estão comparando com o inferno em que estávamos antes! Se compararmos com o paraíso que foi prometido na campanha de Mauricio Funes, ainda estamos, na verdade, muito mais próximos desse inferno.

E por que esse “governo da mudança e da esperança” teve esses resultados nas últimas eleições? (a FMLN se reelegeu no segundo turno da eleição de março com uma diferença de apenas 0.2% do candidato direitista da oposição, do partido Arena).

Porque fomentou o clientelismo político com programas assistenciais, criando grande gasto social, não investimento social, para que o povo se agarre aos sapatos e cadernos que lhes foram disponibilizados e permaneçam na posição de ajudados sem se converter em sujeitos políticos.


Mas não houve avanços em Justiça de Transição?
Fome e sangue são estruturais. Tem a ver com acordos internos entre os interesses presentes no país que incluem o setor privado – e não com os homens das cavernas que se dizem do setor empresarial-privado em El Salvador – e um Estado que faça investimento social. Já a impunidade tem a ver com algo que, para mim, faz de Mauricio Funes um presidente nefasto.

Apresentar-se como um discípulo de Monsenhor Romero, um santo de América, e chegar aos organismos internacionais, como à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e dizer que cumpriu com o que lhe cabia, com as reparações… Por favor! Que reparação no caso da UCA, por exemplo? Fizeram uma homenagem aos jesuítas, aos 20 anos do massacre, e entregaram a Ordem Jose Matias Delgado, a mais alta do país, e pediram perdão. Mas nem foram incluídas todas as vítimas fatais na homenagem, apenas os seis jesuítas, a mãe e a filha, funcionárias da universidade, que estavam lá e morreram pelo simples fato de estarem lá, nem foram mencionadas.

O mais importante, porém, é que a investigação, o julgamento e a sanção dos responsáveis pelo massacre não foi realizado. E menos ainda fez-se esforços para revogar a lei de anistia. Por qual razão? ‘Ah, o fiscal-geral da República não quer investigar. Pedimos para investigar, mas não o fez’. Isso foi dito pelo representante do governo salvadorenho na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, David Moraes, que agora é o Procurador de Direitos Humanos do país.

Veja, o trabalho em Direitos Humanos exige três coisas: recursos, capacidades, vontade política, que quaisquer políticos dizem que tem, todos querem acabar com a impunidade. Mas a isso é preciso agregar coragem, para tocar o intocável.

O governo FMLN teve aliados que lhe deram maioria na Assembleia em distintos períodos do mandato. Poderia ter apresentado a Assembleia Legislativa algo para, pelo menos, reformar, segundo standards internacionais, a lei de anistia, mas não o fez.

Isso foi a situação do governo Funes ou é a posição da FMLN? Agora que, pela primeira vez, a Frente estará no poder com um presidente que foi um ex-comandante guerrilheiro (Sanchez Ceren, recém eleito) isso não poderá representar progressos de fato nesse campo?

Irá ele revogar a lei de anistia? O primeiro, nesse caso, a ser acusado seria ele mesmo, por conta de todos os episódios de violência na guerra nos quais esteve envolvido. Ou seja, não irá fazer nada. E, além disso, na própria campanha já anunciava que é preciso olhar para a frente. Eu não falo de otimismo ou pessimismo. Porque se tivesse otimismo, eu seria como aquele a quem empurram de um edifício de 20 andares e, durante a queda, lá pelo décimo andar, ele fica contente porque ainda não lhe aconteceu nada… Eu falo é de realismo.

Há indícios de militares que sabia da ordem do massacre da UCA, por exemplo, que não colaboraram com a Comissão da Verdade, nem com o processo na Audiência Nacional Espanhola (os oficiais acusados de envolvimento no massacre foram intimados na Espanha). E os protegem. Há sinais que mostram que vai passar com Ceren o mesmo que passou com Funes. No governo de Funes, me olhavam como se fosse da Arena, mas trabalho com Direitos Humanos e aqui não há nem rico nem pobre, nem esquerda nem direita, mas, sim, a dignidade das pessoas.

Quando Funes estava em campanha ninguém se deu conta, ou se fizeram de desentendidos, que ele disse que não tocaria em três coisas que efetivamente impediriam que a fome, o sangue e a impunidade seguissem no país: no tratado de livre comércio com os Estados Unidos, na dolarização da economia de El Salvador (vigente desde 2001) e na lei de anistia. Sanchez Ceren já disse o mesmo.

Como centro-americano e a partir da experiência e expertise nesse debate de Justiça de Transição, como o senhor vê essa discussão sobre memoria, verdade e justiça no Brasil?

Eu acho que o Brasil é um exemplo de como fazer as coisas. Não são perfeitas, obviamente, mas além do Estado, na figura muito ativa do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abraão, eu sinto que há, na base, por baixo e por dentro, uma participação muito maior da sociedade. Porque El Salvador é um exemplo de que de por fora e por cima não se arrumam as coisas.

Nem com acordo, nem com eleições, nem com alternância, nem com governos “puro sangue”, ou seja, sem participação das pessoas, não se resolve. Se a FMLN trabalha bem, terá apoio da sociedade. Eu, como cidadão, como Benjamin Cuellar, vou aplaudir o que for bem feito. Mas não haverá solução sem a participação das pessoas. Em El Salvador, por conta de uma guerra tão intensa como a que houve, é que ocorre essa polarização que há no país, porque as pessoas esperaram que a guerrilha lhes resolvessem os problemas com a guerra e, depois dos Acordos de Paz, que a FMLN agora lhes resolvessem os problemas como partido, com eleições. Sabe como é o ditado: ‘só o povo salva o povo’, mas apenas se estiver organizando, demandando e exigindo soluções.

Considerando sua posição realista, como o senhor se define, considera que o Brasil está num melhor caminho? Digo isso, porque, pragmaticamente, falando que a lei de anistia segue sendo um entrave à Justiça de Transição no Brasil tanto quanto parece ser em El Salvador…

Sim, mas a diferença está enquanto às vítimas de fome, sangue e impunidade assumem o papel protagonista nesse processo reparatório e, no Brasil, sinto que o assumem muito mais do que em El Salvador. Tenho dois anos de trabalho com organizações brasileiras para a criação da Rede Latino-americana de Justiça de Transição e sinto que essa diferença é marcante.


 
Considerando a experiência também da Comissão da Verdade de El Salvador, do que foi e dos seus resultados, o que se pode esperar da Comissão brasileira?

Insisto, se o protagonismo da sociedade não se mantém, ocorrerá no Brasil o que ocorreu em El Salvador, isto é> aqui a comissão é nacional, criada pelo governo. A salvadorenha foi criada três meses depois do fim da guerra e toda a equipe era internacional, mas as recomendações, mesmo no governo da FMLN, não foram cumpridas e as coisas ficaram por isso mesmo.

Mesmo a depuração das Forças Armadas. Saíram apenas 100 de mais de 1300 oficiais, ou seja, se considera que apenas 100 foram violadores de Direitos Humanos durante a guerra. A criação da Policia Nacional Civil (PNC) foi marcada por uma falha de origem e continuou militarizada. O melhor exemplo do fracasso dessa Polícia é que, desde 16 de julho de 1993, apenas um ano e meio depois da assinatura dos Acordos de Paz, o exército tem estado nas ruas fazendo papel de polícia permanentemente. Em 2011, no governo Funes, segundo informe oficial do Ministério da Defesa, temos mais de 8 mil soldados na segurança pública.

Então, das recomendações da comissão, apenas aquelas que eram politicamente toleráveis e que se podiam implementar por acordo foram feitas. Do grupo de recomendações sobre reconciliação nacional estão, por exemplo, a construção de um monumento às vítimas, um dia nacional de honra as vítimas, indenização moral e material, discussão nacional sobre o que se fazer com essa verdade – nada se cumpriu. Segue pendente, ainda, como parte da garantia de não-repetição desses feitos, a assinatura ao Estatuto de Roma (que adscreve o país à Corte Penal Internacional). Enquanto os violadores de direitos humanos do passado estão brindados com a anistia, os violadores de direitos humanos do futuro estão brindados com a não adesão ao estatuto. Em El Salvador, cinco dias depois da divulgação do informe da Comissão, passaram a lei de anistia. Ou seja, mataram o informe, enterraram-no e a lápide se chama “lei de anistia”.

Para que serve o informe da Comissão da Verdade?

Ele não é um fim em si mesmo, é uma ferramenta para que as vítimas e a sociedade o tomem nas mãos e exijam o cumprimento. Se o povo ficar esperando que o PT, no Brasil, ou a FMLN, em El Salvador, tragam a solução, ficarão sem ver nada.


*Aleksander Aguilar é jornalista, mestre em Estudos Internacionais pela Universitat de Barcelona, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco.

Friday, 23 August 2013

10 anos de autonomia Zapatista


* Texto meu originalmente publicado no website do qual sou colaborador, NOTA DE RODAPÉ

*Foto: José Andrés Solorzano

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo. 
São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na
 Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.  
ESCOLA PARA A LIBERDADE
No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal
 New York Timesdenominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde
 La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos. 

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.
Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.


*Aleksander Aguilar
 é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

Wednesday, 22 May 2013

Reais-ficções de carnaval


Estreia no blog NOTA DE RODAPÉ!
"Fernando perdeu, e a faca, os seus longos dreads. Cortaram só de maldade – como parte da punição que a autoridade sentenciou e executou sem julgamento (...)".

acesse lá em:
http://www.notaderodape.com.br/2013/05/reais-ficcoes-de-carnaval.html

Thursday, 9 May 2013

Minha entrevista com Slavoj Zizek na Retrato do Brasil

Nesta ediçao de maio da Retrato do Brasil, a entrevista que Slavoj Zizek (chamada na capa) me concedeu em Recife. Nas melhores bancas! Quando possível disponibilizarei o texto.


Tuesday, 14 August 2012

Give it a read: Latin American Bureau

Latin America Bureau (LAB) is a London-based independent research and publishing organisation. We work to broaden public understanding of issues of human rights, development, culture and social and economic justice in Latin America and the Caribbean. LAB has been publishing original books and running education programmes, workshops and events for more than 30 years.

I am a supporter and a collaborator of it. And a reader! :)



Latin Americans living in London and the UK have long been a largely invisible and unrecognised community. The ethnicity box In the UK census form does not include ‘Latin American’, let alone any of the range of ethnicities that comprise being Latin American. It’s not surprising that there is no accurate information available on the number of Latin Americans living in the UK (estimates range up to a million) and that this community has been largely ignored by the government and mainstream society.

This situation is slowly changing and as Latin American culture is becomes more visible, communities are starting to fight for their right to be recognised alongside other minority groups in the UK. Alianza Iberoamericana promotes a campaign of the Thee Rs: Recognition, Respect and Regularization for the Latin American and Spanish- and Portuguese- speaking communities living in the UK. They highlight some very interesting facts: for example in the borough of Lambeth, Portuguese is not taught in any secondary school despite the fact it is by far the largest minority language spoken there.

The first wave of Latin Americans came to the UK as exiles from the Southern Cone dictatorships. Subsequent waves of migration have included Colombians and Ecuadorians in the 1980s and 1990s, with many of them claiming asylum, although this is rarely granted. In recent years the majority of new arrivals have been economic migrants, with Brazilians forming the largest nationality group, with secondary migration from other European Union countries, especially Spain, adding to the numbers.

Pioneer in supporting this significant, although legally unrecognised, ethnic minority group in British society is IRMO, a charity based in South London that works with Indo-american refugees and migrants. John Perez, one of their directors, explains the issues to LAB’s Nayana Fernandez (Listen here).

Latin American women in the UK face multiple discrimination. The Latin American Women’s Rights Service spoke to LAB (read more) about their work and their report “No Longer Invisible” (The full report can be downloaded here), which is the most comprehensive research on London’s Latin American community undertaken to date providing a picture of considerable hardship, discrimination and social exclusion.

La Casa Latina offers legal and advisory services, training, childcare and cultural activities to the Latin American community. Their online magazine, Ventana Latina, is dedicated to reinforcing Latin American identity in the Diaspora. Read more.

Lucila Granada, a long term LAB collaborator and PHD student has researched the links between language, identity and integration among the members of the Latin American community of London. She explores the problem of language as an obstacle for the integration of many Latin Americans in British society. Read more.

Braziliality, a non-profit organization, promotes Brazilian artists and others inspired by Brazil. Alicia Bastos, its founder, artistic and management director talks about about how culture becomes part of the identity of the Brazilian diaspora. Read more.

Latin American culture and music in London are constantly transforming and adapting to new influences. Movimientos combines live music with documentary film to raise awareness about social and political issues in the region . The bands signed to their label are represent a fusion of Latin American, London-based and other global sounds Read more.

A short video produced by LAB’s Nayana Fernandez  contains brief interviews  with11 Latin American immigrants based in London. From different backgrounds and from various countries in the region, including Argentina, Brazil, Colombia, Ecuador, Honduras and Peru, they tell us about their reasons for moving from their home country and their impressions and experiences of living in the UK. Watch here.

A second video we recommend to LAB readers is called  “La Gran Historia” - episode 9, produced in Spanish by HispanTV and presented by Javier Farje, from LAB. It is a 24-minute programme on the effects of Latin American culture in the UK and its interaction with British culture.

Finally, in this cornucopia of cultural riches, LAB has drawn together a brief directory of organisations, events and their web-links Read more.

Friday, 23 March 2012

AMENAZA: SER PERIODISTA EN EL SALVADOR


Periódico digital salvadoreño amenazado por sus informes


El miércoles pasado (14 marzo 2012) el periódico digital salvadoreño El Faro publicó una nota en la que revelaba la existencia de un pacto entre las pandillas – uno de lós más grandes y complejos problemas de El Salvador – y el gobierno para reducir los índices de homicidios.


El artículo se llama "Gobierno negoció con pandillas reducción de homicídios". Las investigaciones sostienen que este pacto incluía el traslado de líderes de las pandillas del penal de máxima seguridad a penales de menor seguridad, a mayores comodidades y a otros beneficios. Esa misma semana, la pasada, el promedio de homicidios se redujo más de la mitad.


El reportaje estaba basado en diversas fuentes de inteligencia de varias agencias del Estado, por funcionarios de gobierno y, en la calle, por jefes locales de pandillas. Dos días después, el gobierno respondió con una conferencia de prensa del ministro de Seguridad, en la que negó la existencia de este acuerdo.


A esta conferencia, con periodistas de varios medios, no invitaron al personal de El Faro, indicó Carlos Dada, director de El Faro (foto arriba). En la reunión, los funcionarios afirmaron que tenían información de inteligencia que sugería que los pandilleros estaban enojados por el artículo de periódico y que el personal del sitio estaba en peligro, señaló Dada.


Al día siguiente, el ministro de Seguridad Munguía Payés indicó al personal de El Faro que corría el riesgo de ser atacado por las bandas criminales, pero no dio más detalles ni ofreció protección para el personal.


El trabajo de un medio de comunicación serio implica mantener una posición crítica, sospechosa y exigente con el poder. Implica cuestionar las versiones oficiales y las de personas e instituciones con poder económico, político, militar o de cualquier otra naturaleza.

Hacer este trabajo en estados débiles como El Salvador supone poner en riesgo, a veces, más que la credibilidad y el prestigio.


En mayo de 2011, El Faro ya habia publicado un artículo titulado "El cartel de Texis," que reveló una red de crimen organizado que involucra a líderes de pandillas, empresarios prominentes, y políticos locales en el noreste de El Salvador.


Dada afirmó a la organización no gubernamental Committee to Project Journalists (CPJ) que en febrero, nueves meses después de la publicación del artículo, el personal del periódico notificó que estaban siendo seguidos y fotografías por individuos no inidentificados. Dada indicó que sospechaba que la policía estaba siguiendo al personal del medio con el propósito de identificar las fuentes del artículo publicado en mayo.


"Estamos preocupados por la seguridad del personal de El Faro y estamos monitoreando la situación muy de cerca", afirmó Carlos Lauría, coordinador senior para el programa de las Américas del CPJ. "Responsabilizamos al gobierno salvadoreño por el bienestar de los periodistas de El Faro".


La investigación del CPJ indica que periodistas que informan sobre la violencia de las pandillas en El Salvador asumen el riesgo de convertirse en blanco ellos mismos. En 2009, Christian Poveda, cineasta franco-español, fue asesinado por miembros de la pandilla Mara 18.

Monday, 5 March 2012

Entrevistei Abdel Bari Atwan - Revista Retrato do Brasil jan/2012

Sem papas na língua. Característica inegável que lhe vale, nas suas próprias palavras, ser objeto de uma perseguição internacional. “Israel quer me silenciar”, afirma. Abdel Bari Atwan é o editor-chefe do al-Quds al-Arabi, com sede em Londres e um dos mais influentes jornais árabes no Ocidente. É também o jornalista que ganhou fama mundial ao entrevistar Osama Bin Laden, numa caverna em Tora Bora, no Afeganistão, cinco anos antes do ataque da Al-Quaeda contra o World Trade Center, em Nova Yorque. E Atwan é, além disso, uma voz irremediavelmente direta que em alto e bom som opina sobre temas políticos do Oriente Médio, principalmente da Palestina, sua terra natal – uma voz que de tão alta é quase estridente para os ouvidos sensíveis de diferentes partes do globo com interesses na região.





Monday, 13 February 2012

Entrevistei Tariq Ali - Revista Retrato do Brasil, dez/2011


Escritor, cineasta e ativista, Ali é um dos mais proeminentes pensadores políticos árabes desde os anos 1960.


Fundador e membro do comitê editorial da prestigiosa revista britânica New Left Review (NLR), ele deixou o Paquistão por causa da perseguição que sofria devido a sua atuação política contra o regime militar, e consolidou seu ativismo na Grã-Bretanha, onde vive até hoje.


Tariq Ali conversou exclusivamente comigo aqui na capital pernambucana em novembro passado para uma entrevista na revista Retrato do Brasil, da qual sou freelancer.


A matéria foi publicada na edição 53 da RB, dez/2011, e agora disponibilizada aqui.







Thursday, 12 January 2012

Witness: Life in San Salvador - Excelente reportagem da Al Jazeera

La violencia de las maras es una de las principales características de vida en El Salvador hoy.


Monday, 12 December 2011

Palestina sob ataque, de novo.

Comentários de pré-candidato republicano sobre palestinos causam revolta no mundo árabe (BBC Brasil)


O pré-candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Newt Ginrich, causou revolta no mundo árabe após ter qualificado os palestinos como ''um povo inventado'' e ''terroristas''.


Mohammed Sobeih, o representante da Liga Árabe que cuida de assuntos palestinos, afirmou que ''se uma autoridade árabe ou palestina fizesse um comentário racista que equivalesse a um milionésimo do que o candidato americano afirmou, o mundo iria se revolutar''.


Durante uma entrevista, Ginrich afirmou que os palestinos são ''um povo inventado que, na verdade, são árabes e que são historicamente parte da comunidade árabe e eles tiveram a chance de ir para muitos lugares e, por uma série de motivos, nós temos tolerado esta guerra contra Israel desde a década de 40, e isso é trágico.''


Durante um debate transmitido pela TV no sábado (10/12), Ginrich defendeu sua afirmação e ainda acrescentou: ''O que eu afirmei é correto do ponto de vista factual? Sim. Alguém precisa ter a coragem de dizer a verdade. Essas pessoas são terroristas''.


O primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad, afirmou que ''nem mesmo os colonos (israelenses) mais extremistas se atreveriam a falar de forma tão ridícula''.

Friday, 9 December 2011

Europe is splitting up and Britain will be the scapegoat

David Cameron will have delighted and united his Conservative party by wielding the veto, and will be feted as a conquering hero by most of the British press. But he faces the risk of becoming the scapegoat if the euro does collapse, a consequence with huge diplomatic consequences, probably leading to a further recasting of Britain's relations with the EU.


Will things in Europe never be the same again?


The European question: will it be splendid isolation or miserable?

It's too early to gauge the impact of Cameron's EU veto but one thing is certain: things will never be the same again

Michael White

guardian.co.uk, Friday 9 December 2011 10.52 GMT



A very scary day, not one for Red Bull on the cereal whichever side you take. I've attended enough European summits over the past 20 years to know that we don't yet understand the full implications of what was agreed in Brussels early on Friday. Nor will we until the political dust settles and the small print is scrutinised over the next few days.


But it looks like the Big One, the moment when a government in London exercised the famous British veto on an important EU matter and withdraws to the margins of the European Union, thus ending 50 years of more-or-less consistent policy. What's more I've just heard Sir Ming Campbell, pro-European pillar of the Lib Dem wing of the coalition, saying that David Cameron had no choice but to do what he has done. Wow! No split there, then – or is that premature? Read on.


"Splendid isolation" was a celebrated British boast in the late-Victorian era, but that was then, when the British Empire was still – just about – the leading world power. Within a few years, London was drawn into defensive alliances to resist the rise of Germany and the stage was set for two bloody world wars, punctuated by the Great Depression.


So is today's isolation splendid or miserable? Is it better or for worse? Well, plenty are dashing on to radio and TV to assert both options with glib over-confidence. In refusing to join the emerging fiscal union Cameron has forced the EU majority to create what are known as "inter-governmental" arrangements, not formal EU arrangements. Paris and Berlin will not be pleased.


Yet I do not hear the sound of champagne corks or celebration among British Eurosceptics. Beware of what you wish for, is a wise saying. Who knows what happens now? But Europe, for all its follies and failings, has become a scapegoat for weaknesses that are really our own. We may be about to rediscover that awkward truth. It was why we joined in the first place.


As Nick Watt reports overnight from the Belgian capital, the break point for Cameron (who kept Nick Clegg and George Osborne in touch) was the need to protect the British financial services industry – our equivalent of BMW and Mercedes Benz, 10% of the UK economy – in ways the EU majority do not want to.


They want to scapegoat the banks, in Europe and the US, for their problems. Banks are very culpable, but their poor risk-assessment policies and arrogance are not the cause of the eurozone's crisis: the zone was poorly constructed in the first place, a triumph of hope over experience.


A French diplomat is quoted as saying that Britain had come to the summit like a man attending a wife-swapping party without bringing his own wife along. An interesting comparison that one, which suggests that Dominique Strauss-Kahn's corrupting influence in French public life may be even wider than appreciated. But the analogy doesn't work. Paris has always left its wife – the common agricultural policy – at home, she's got a headache. It bends rules it devised when it suits its needs, always did: check it out. In wanting to stuff the City of London it was bringing along someone else's: ours.


Never mind, a British moneyman has just boasted on the radio that Britain's refusal to join the newly integrated fiscal union means it has just avoided boarding the Titanic. My personal prejudice lies that way, too – I can't see the democratic politics or the growth-denying economics of the eurozone working over the long haul – but I am not so confident as chummy is that we are right.


The Germans may be right, they may impose their will on France and other weaker neighbours or insist that transactions denominated in euros must be conducted within the eurozone, bad for the City. But they may also be wrong – the details of the very urgent eurozone bailout are far from complete and markets are falling – but the process of finding out will damage us as well as them. The Chinese will be watching scornfully.


Pro-European thinktank buff Charles Grant is on BBC Radio 4 saying it's a bad day for Britain which is left with only Hungary as its sole ally on the fringe of Europe – not a good place, to be sure. Actually, the Czechs and the Swedes (always a significant player) have not signed up either. As I say, it's very unclear at this stage.


Cameron has played a weak hand badly, says Labour's foreign affairs spokesman, Douglas Alexander. He's failed to nurture allies (remember, how he and William Hague walked out of the Euro-Tory group, the EPP, at Strasbourg?), he refused to help fund the Greek bailout and told Angela Merkel only last March that he didn't want to be in the room when the eurozone's problems were under discussion.


Well, he won't be now, even though he's changed his mind. The official position of British ministers – Hague has just been on air, too – is that if the 23 (or group of 25?) want to do things they can't use the EU's official machinery because the fiscal union is not a European Union matter, but an intergovernmental one, as France, the champion of nation states (especially its own), prefers.


There will be a lot of fuss about such principles and practices, but it won't hold. There is now a two-speed Europe, a Europe of variable geometry, as Hague has just explained. There are lots of just such examples, the Schengen agreement on border control (not working very well) or the Anglo-French defence co-operation agreement. Life will go on, he says.


Hague may not be crowing because he's got what he always wanted and Lady Thatcher would want too if she's still watching TV: a free-trade relationship with Europe, a bit like Switzerland, one Tory MP – the wonderfully named Mark Reckless – suggests. Not crowing will make it easier for Clegg and Co to bite the bullet. Ming Campbell's soothing words on BBC Radio 4's Today programme suggests it won't be too hard: power binds them in.


We'll find out some of the answers in the coming days and weeks – as well as the more important issue of whether the necessary steps are being taken to shore up the weaker members of the eurozone. My hunch is that they have not done it.


The financial muscle of the German surpluses has not yet been deployed to protect the borrowers, the Germans still want their money back. The European Central Bank is not yet the lender of last resort with the monopoly power to print electronic money and float the zone – and us – off the rocks of recession. Or do I mean the iceberg?


Is the European commission weakened, bypassed even, by what is in the process of being sewn up in its home city this weekend? Is the single market – central to Britain's vision of a free-trade Europe, looking outward to the world – weakened too? France and Germany do not share that Anglo-Saxon preference.


These issues are far bigger than our domestic politics. But they matter, too. I cannot see how the Eurosceptic Thatcherite right, which does not like or trust David Cameron, can do anything other than praise him for standing firm and protecting his vision of British sovereignty. How much British sovereignty will prove to be worth remains to be seen.


There again, they praised John Major's opt-out negotiation at Maastricht, too – at the start.


Labour will support the outcome but say that coalition carelessness forced Cameron into a binary choice that better diplomacy could have avoided. Ed Miliband will be right about that, but it will not make much difference. Public opinion, the bombastic faction and the tabloids will be pleased; for now. The dilemma is the Lib Dems' dilemma. A lot of people in the party, MPs and ministers too, will be very very unhappy.


Even David Owen – ex-Labour foreign secretary and SDP leader – who is brilliant but erratic, says he is unhappy, though he too opposed the euro. We didn't vote for this. Cameron had no mandate to isolate us, he is already saying. Lord Owen has no army to lead. But he remains formidable and will be talking to others.


If there are any Lib Dem ministers unhappy with the coalition, fired up with principle or ambition, now would be the time to "do a Robin Cook" and resign with maximum impact. I have not a scintilla of evidence to suggest Chris Huhne may be thinking hard today. He is clever, ambitious and pro-European. The Tories are being nasty about his green policies, the brutes, and he has unresolved issues over speeding points with the Essex constabulary.


Just a thought.