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Wednesday, 6 July 2011

Não, mestre. O senhor é um homem transcendental


O crítico literário, professor, mestre de todos nós, Antonio Candido, faz nesta quarta-feira a conferência de abertura da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Foi sua amizade com Oswald de Andrade que o fez aceitar o convite para participar do encontro.


A nona edição da festa literária homenageia Oswald (1890-1954), intelectual ícone do modernismo brasileiro, a quem o mestre chamava de "Oswaldo".


(Entrevista completa do mestre na Folha Ilustrada aqui.)


"Considero minha vida intelectual completamente encerrada. Sou um sobrevivente. Não dou entrevista, não dou curso, não publico mais nada. Revelo aqui se vocês não contarem para ninguém, mas ainda escrevo a máquina. Sou um homem do passado, encalhado no passado. Não tenho computador, não tenho e-mail”, declarou.



Eis um brevíssimo exemplo das reflexões que provoca esse “homem do passado”, entre o lógico e o mágico:


Nos quatro ou cinco séculos que decorreram da entrada mais ou menos direta dos povos primitivos para o convívio dos povos civilizados, eles têm sidos considerados pendularmente como brutos e como seres privilegiado, através de concepções que assumem diversos matizes. Há cerca de meio século apareceu um modo renovado de encará-los como bichos, com todas as ressalvas da ciência e da filosofia. É a teoria famosa de Lévy-Bruhl, segundo a qual a mentalidade do primitivo seria, por assim dizer, qualitativamente diversa, na medida em que subordina a visão do mundo, não princípios lógicos, como nós, mas a uma espécie de indiferenciaçao entre sujeito e objeto, entre as categorias e os corpos, de modo a definir um espírito “pré-lógico”, incapaz de abstrair e de observar o princípio da contradição.


Esta concepção é sedutora. Permite interpretar fenômenos aparentemente obscuros, conserva em torno do primitivo um halo de mistério, e não há dúvida que contribuiu para investigar os aspectos alógicos da mente humana. Mas, pouco depois do seu êxito, Malinowksi, ao invés de compulsar relatos de viagem ou repositórios de folclore, foi viver dois anos numa aldeia de melanésios, e os seus trabalhos fizeram ver que, relacionada ao quotidiano, a bela construção era falaciosa. Os povos primitivos distinguem, essencialmente como nós, o lógico e o mágico, embora na sua mente ambos formem configurações diversas, e o mágico sobressaia proporcionalmente mais do que o lógico no tecido da sua existência.


Quando lança ao mar uma canoa, como toda sorte de esconjuros para que os espíritos da flutuação a façam sobrenadar contra os espíritos da submersão, o artesão de Sinaketa não supõe que ela navegue por obra e graça deles. Conhecendo empiricamente os princípios da flutuação e os processos adequados para os utilizar, jamais lhe passaria pela cabeça pegar um tronco e jogá-lo na água, confiado em que apenas a força dos espíritos o manteria emerso. Ele aplica rigorosamente a técnica, mas crê também na eficácia indispensável do ritual mágico. Forçando a nota, diríamos que, de modo parecido, o engenheiro moderno levanta cientificamente a sua ponte e pede a um santo que a mantenha de pé. E talvez (como já foi lembrado), o historiador do ano 3000 venha a dizer que os civilizados do século XX lançavam os seus navios com a bênção de um sacerdote e a quebra ritual duma garrafa de vinho, acreditando que boiavam graças a estas práticas. No homem de hoje, perduram lado a lado o mágico e o lógico, fazendo ver que, ao menos sob este aspecto, as mentalidades de todos os homens têm a mesma base essencial. Num livro recente, diz Lévi-Strauss, com exemplos sugestivos, que em muitos casos o primitivo revela uma capacidade de racionalização e de observação sistemática maior do que a do civilizado. O que a muitos pareceu incapacidade de generalizar pode ser requinte analítico, e certas formas em que realmente ele dissolve o particular numa aparente indiferenciaçao manifestam a capacidade generalizadora de cunho ideológico, que lhe foi contestada.


Isso retifica as teorias da mentalidade pré-lógica, mas pode reconduzir de maneira algo simples ao velho postulado do espírito humano igual em toda parte. Ora, ambas as posições são modalidades da falácia antropocêntrica – seja por verem no primitivo um bicho quase de outra espécie, seja por quererem reduzi-lo mecanicamente à nossa imagem, dispensando o esforço de penetrar nas suas singularidades. A verificação de que as culturas são relativas leva a meditar em tais singularidades, que seriam explicadas, não à luz de diferenças ontológicas, mas das maneiras peculiares com que cada contexto geral interfere no significado dos traços particulares, e reciprocamente, - determinando configurações diversas. Assim, a atitude correta seria investigar a atuação variável dos estímulos condicionantes, pois se a mentalidade do homem é basicamente a mesma, e as diferenças ocorrem sobretudo nas suas manifestações, estas devem ser relacionadas às condições do meio social e cultural. Isso explicaria por que os comportamentos, as soluções, as criações variam tanto no primitivo e no civilizado, sem que se possa falar em mentalidade pré-lógica.


Trecho de “Estímulos da Criação Literária”, páginas 51-53, em Literatura e Sociedade, de Antonio Candido

Sunday, 15 May 2011

"Por uma vida melhor" e as ignorâncias

A linguística está em pauta novamente. A polêmica em torno do livro de português avalizado pelo MEC para a adoção nas escolas públicas, Por uma vida melhor, é uma ótima oportunidade para que mais e mais pessoas passem a entender que o estudo da língua e da linguagem é ciência. Ao mesmo tempo, porém, revela que a situação é preocupante, pois a ignorância é grande e os preconceitos linguísticos e de classe são enormes.


A rede Globo, por exemplo, se apressou em buscar controvérsia ao noticiar a questão através de matérias com esse tipo de chamada: “MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta”. Em uma linha, quase um altar completo erguido em tributo ao preconceito.


Leia um trecho da matéria:


“Um livro de português distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação.


A defesa de que o aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta está na página 14 do livro “Por uma vida melhor”. O Ministério da Educação aprovou o livro para o ensino da língua portuguesa a jovens e adultos nas escolas públicas.” TEXTO COMPLETO AQUI.


Mas a chance de sair da escuridão em mais essa "polêmica" lingüística já chegou, pois Marcos Bagno comentou o assunto:


POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?


Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.


Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).


Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa depetista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.


Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.


Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.


Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.


A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.


Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).


Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.


Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la


O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).


O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?


Thursday, 28 April 2011

Sabiam que o rinoceronte dá um leite formidável? - a lingua e os comunistas-nacionalistas

  • Uma lei para regrar o uso de uma língua não serve para nada mais do que chamar a atenção para o autor da proposta através dos holofotes midiáticos que uma polêmica geralmente acende.


O deputado da Assembléia Legislativa do meu Rio Grande do Sul, Raul Carrion (PCdoB), inspirado pela proposta inócua que seu colega de partido na Câmara Federal, Aldo Rebelo, fez há mais de dez anos, resolveu entrar no barco dos nacionalistas linguísticos. Parece ser um meio de transporte que funciona bem, que chega rápido ao destino de criar falsas polêmicas e oportunidades de capitalizar em cima de falsos fatos políticos. Aliás, e infelizmente, os comunistas do PCdoB gostam muito dessa tática, haja vista que Rebelo também é pivô da polêmica do novo Código Florestal Brasileiro, e assim la nave va...


E os deputados gaúchos, linguisticamente mal assessorados, aprovaram por 26 votos a 24, na semana passada, o projeto de Carrion que estabelece a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa sempre que houver no idioma uma palavra ou expressão equivalente.


O companheiro-governador Tarso Genro tem 30 dias para sancionar ou vetar a lei e para tal decisão a Assessoria do Piratini disse que Tarso irá ouvir especialistas. Pois de fato se assim o faça nosso governador, que se manifestou contra a ridicularização do projeto de Carrion alegando que a França e o estado canadense de Quebec já tomaram medidas semelhantes, entenderá, porém, que as línguas não mudam nem para o bem nem para o mal, mas sim para atender as necessidades dos usuários da língua. Tentar reger um fenômeno lingüístico por lei é tão falacioso quanto querer legislar sobre a taxa de mutação do gene p53.



LINGUAS NÃO SÃO HOMOGENEAS – O BRASIL É MULTILINGUE


O primeiro problema detectado no PL concerne ao conceito de língua apresentado tanto por Carrion como por Rabelo. Eles acreditam que a língua portuguesa em uso no Brasil é um sistema homogêneo, passível de ser compreendida por qualquer cidadão em qualquer “rincão” do vasto território brasileiro.


Marcos Bagno, um linguista para ser ídolo, explica que o Brasil ocupa o quinto lugar entre os países de maior diversidade linguística do mundo!


São mais de duzentas línguas faladas em território nacional, entre línguas indígenas (a maioria), línguas de imigração (europeia e asiática), línguas afrobrasileiras e línguas crioulas (de base francesa, no Amapá).


Mas quem sabe disso? Quem fala sobre isso? Impregnados da máxima autoritária “um país, um povo, uma língua”, que remonta à formação dos estados nacionais no século XVIII, inclusive lingüisticamente ainda estamos muito atrasados com relação a outras democracias do mundo e até a nossos vizinhos - o Uruguai recentemente reconheceu português-uruguaio como patrimônio linguístico nacional (alguém aí sabia que existe um português uruguaio, falado por lá desde antes da independência deles e nossa?).


Numa tentativa de derrubar essa muralha ideológica, alguns linguistas (entre os pouquíssimos que consideram que sua profissão deve ter um mínimo impacto social e político) propuseram ao IBGE que incluísse no Censo 2010 uma pergunta sobre a língua que o entrevistado fala habitualmente em casa. O IBGE topou, a equipe formada levou um bom tempo formulando a pergunta de modo que ela não deixasse brechas para ambiguidades e contradições.


Mas no final o IBGE decidiu não incluir a pergunta linguística no Censo 2010. Razão alegada: o questionário já estava longo demais, era preciso cortar algumas perguntas…


Há um receio histórico de reconhecer que o Brasil é multilíngue, que a revelação dessa realidade teria implicações políticas e culturais profundas, como o reconhecimento dos direitos linguísticos dos falantes de línguas minoritárias, a necessidade de prover recursos para a educação bilíngue ou plurilíngue das áreas onde muitas línguas são usadas e outros investimentos.


ESTRANGEIRISMO NÃO DESCARACTERIZA


O renomado linguista José Luiz Fiorin, também refletindo sobre a questão, escreveu artigo no qual ele reafirma que a língua não é homogênea como pregam os comunistas-nacionalistas.


Mesmo assim, Fiorin mostra porque os supostos prejuízos que o uso de estrangeirismos podem causar a língua são falaciosos. “qualquer pessoa é capaz de aprender qualquer setor do vocabulário, se ele tiver algum sentido para ela”, ou seja, basta que o estrangeirismo faça (ou venha a fazer) parte do universo de referência do usuário da língua, como por exemplo, os termos de origem inglesa que compõem o vocabulário do mundo do futebol córner, pênalti, off-side etc..


Um idioma se caracteriza por uma gramática e por um fundo léxico comum. Se em nenhum dos dois casos o estrangeirismo afetar a base estrutural da língua não haverá descaracterização do idioma. Como, de acordo com Fiorin, em nenhum dos dois casos os estrangeirismos podem ameaçar os elementos que caracterizam o idioma português em uso no Brasil: porque é a gramática que sistematiza as pronúncias dos empréstimos estrangeiros, por meio de elementos fonológicos usados em conformidade com a morfologia e a sintaxe da língua portuguesa: Por exemplo: “O Office-boy flertava com a baby-sitter no hall do shopping Center.” O arcabouço da lingua está intacto nesta frase.


Através da história, sempre que uma língua influencia outra os discursos nacionalistas surgem tentando prever uma situação apocalíptica geradas por tais empréstimos. Nestes discursos não é verificado que as línguas mudam. Desta forma os estrangeirismos não representam o fim de uma língua, tampouco a desnacionalização ou o empobrecimento da língua que recebe o empréstimo. O processo é justamente o contrário, tal invasão de estrangeirismo, no caso da língua portuguesa, não empobrece, mas enriquece ao incorporar termos que não são previstos em seu léxico.


PURISMO É CONSERVADORISMO


Além disso o inglês não é o único idioma a “abusar” do povo brasileiro, como sugere o ilustre deputado. Também o latim e o francês tiveram influência decisiva, mas, principalmente o próprio português causou danos irreversíveis à cultura brasileira, extinguindo, por exemplo, mais de mil das línguas indígenas que foram faladas no Brasil, por meio de uma lei – imposta por Pombal.


O “esforço” de proteger a língua portuguesa mantendo-a pura de influências externas remete para outro problema. Este tipo de lei que vê no elemento estrangeiro uma ameaça à identidade nacional, traz subentendida a idéia de que se pretenda defender, também, uma só língua, a língua de poder, sob controle da classe dominante. Neste sentido, supõe-se que, por coerência, queiram mantê-la pura também dos ataques e influências internas, das variedades não-prestigiosas da língua, faladas pelos que não têm poder, que não escrevem e não consomem.


Como afirma Fiorin, ideologicamente, o deputado Aldo Rebelo e agora Raul Carrion, aproximam-se muito, em seu discurso, de setores da direita, conservadoristas, como é o caso do gramático Napoleão Mendes Almeida, que acreditava que aqui no Brasil se falava uma variante imprecisa e incorreta da língua portuguesa,acrescida de mestiçagem de falares indígenas e africanos, que corromperam a língua vernácula.


  • Segundo outro grande lingüista, Sírio Possenti, esse tipo de legislação cria possibilidades de preconceito lingüístico ao proibir o uso de termos estrangeiros como os provocados por Getúlio Vargas sobre as comunidades imigrantes do Sul do Brasil, durante a Grande Guerra. E essa imposição conservadora que extingue línguas e elitiza uma variação determinando como erradas e incultas as outras variações do idioma, é o conservadorismo do qual está pautado o PL de Carrion aprovado na Assembléia gaúcha.

Tuesday, 11 January 2011

Presidenta, sim!

Para quem ainda não se convenceu de que a Dilma é “presidenta”, mais Marcos Bagno, em artigo originalmente publicado em Carta Maior, para nos esclarecer. Linguística salva!


"Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que as marcas desse predomínio masculino tenha sido incrustada na gramática das línguas.



Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.



Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares.



Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.



Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?



Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública."

Tuesday, 4 January 2011

Começar o ano com Marcos Bagno: contra o preconceito

Autor de mais de 30 livros, entre obras literárias e de divulgação científica, Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, atualmente é reconhecido sobretudo por sua militância contra a discriminação social por meio da linguagem. No Brasil, tornou-se referência na luta pela democratização da linguagem e suas ideias têm exercido importante influência nos cursos de Letras e Pedagogia.


“A língua é um dialeto com exército e marinha”, (Max Weinreich)

Preconceito mais antigo que o cristianismo, a língua desde longa data é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle social.


O controle social é feito oficialmente quando um Estado escolhe uma língua ou uma determinada variedade linguística para se tornar a língua oficial. Evidentemente qualquer processo de seleção implica um processo de exclusão. Quando, em um país, existem várias línguas faladas, e uma delas se torna oficial, as demais línguas passam a ser objeto de repressão.


Falar de uma língua é sempre mover-se no terreno pantanoso das crenças, superstições, ideologia e representações. A Língua é um objeto criado, normatizado, institucionalizado para garantir a unidade política de um Estado sob o mote tradicional: “um país, um povo, uma língua”.


Durante muitos séculos, para conseguir a desejada unidade nacional, muitas línguas foram e são emudecidas, muitas populações foram e são massacradas, povos inteiros foram calados e exterminados.


Não podemos esquecer que o que chamamos de “língua espanhola”, “língua portuguesa”, ou “língua inglesa” tem um rico histórico, não é algo que nasceu naturalmente. Podemos amar e cultivar essas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias.


Dialeto e língua, fala correta e incorreta: na entrevista concedida a Desinformémonos (disponível no site da Brasil de Fato), Bagno desnaturaliza esses conceitos e deixa à mostra a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua, tão impregnada nas sociedades ocidentais.

Saturday, 9 October 2010

Nobel para Llosa, Tributo a Salarrué

El escritor y destacado intelectual peruano Mario Vargas Llosa obtuvo el pasado jueves, al fin y a los 74 años, el premio para el que fue eterno candidato año tras año desde la década de 1980.


El premio Nobel de Literatura fue galardonado por la sexta vez en la historia a un latinoamericano

.

Llosa es un novelista formidable, y como tal merece felicitaciones, pero también un gran polemista político, que merece las críticas recibidas a lo largo de su historia.


El peruano tuvo un gradual paso de izquierda hacia un capitalismo de libre mercado con un credo entusiasta, ortodoxa y militantemente liberal.


Esas posiciones lo han puesto en desacuerdo con gran parte de la élite de intelectuales del hemisferio.


Nacido en la ciudad andina de Arequipa en una familia de clase media, fue miembro de una célula clandestina del Partido Comunista de Perú y que admiró y defendió la Revolución Cubana.


La ruptura se produjo en la década de 1970. En medio del despegue del "boom", dejó atrás "todo lo que significa dogma y exclusivismo ideológico". Criticó a Cuba, consideró al socialismo enemigo de la libertad y se apegó a ideas liberales de derecha.


Vargas Llosa ha peleado con el presidente venezolano Hugo Chávez y a menudo critica al mandatario cubano Fidel Castro.


En un famoso incidente en 1976 en la ciudad de México, Vargas Llosa le dio un puñetazo a su otrora amigo Gabriel García Márquez. Se dice que ambos no se han hablado en décadas. No hubo reacción al premio por parte de Gabo.


Vargas Llosa es ganador de premios como el Cervantes, el Príncipe de Asturias, y doctor Honoris Causa de universidades americanas, asiáticas y europeas. En su vitrina ya no falta ahora también el Nobel


El escritor dijo que el galardón es para la lengua en la que él escribe y para la región de la que procede.


De hecho, nunca un no hispanohablante ha ganado el codiciado premio.


En la corta lista de los “Nobeles” del continente, están:


Mario Vargas Llosa (Perú, 2010)

Octavio Paz (México, 1990)

Gabriel García Márquez (Colombia, 1982)

Pablo Neruda (Chile, 1971)

Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967)

Gabriela Mistral (Chile, 1945)


Todos hispanohablantes. Y, si, un centroamericano. El guatemalteco Miguel Ángel Asturias escribió obras indispensables, como “Hombres de Maíz”.


Nunca un brasileño ha ganado un Premio Nobel. Tampoco un salvadoreño.


Pero en esta semana de alegrías para la literatura latinoamericana, hago mi registro de la conquista de Mario Vargas Llosa a través del homenaje a otro escritor del continente entre tantos que merecen reconocimiento.


Particularmente en Brasil, donde el promedio de conocimiento sobre Latinoamérica es casi ridículo, queda esta pista de uno de los monumentos de la literatura latinoamericana.


Cuentos de Barro, de Salarrué, es probablemente el libro más conocido por los lectores salvadoreños, y el que de alguna manera “representa” las letras de El Salvador en numerosas antologías de literatura latinoamericana.


Salarrué, supremo habitante del gran libro del trópico, cuyo centenario de nacimiento se conmemoró en 1999, merece dimensión universal para la que siempre estuvo señalado.



Tranquera

"Como el alfarero de Ilobasco modela sus muñecos de barro: sus viejos de cabeza temblona, sus jarritos, sus molenderas, sus gallos de pitiyo, sus chivos de patas de clavo, sus indios cacaxteros y en fin, sus batidores panzudos; así con las manos untadas de realismo; con toscas manotadas y uno que otro sobón rítimico, he modelado mis Cuentos de Barro.

Después de la hornada, los más rebeldes salieron con pedazos un tanto crudos; uno que otro se descantilló, éste salió medio rajado y aquél boliado dialtiro; dos o trés se hicieron chingastes. Pobrecitos de mis cuentos de barro… Nada son entre los miles de cuentos bellos que brotan día a día; por no estar hechos en torno , van deformes, toscos, viciados; porque, ¿qué saben los nervios de línea pura, de curva armónica? ¿Qué sabe el rojizo tinte de la tierra quemada, lakas y barnices?; y el palito rayador, ¿qué sabe de las habilidades del buril?...

Pero del barro del alma están hechos; y donde se sacó el material un hoyito queda, que los inviernos interiores han llenado de melancolía. Un vacío queda allí donde arrancamos para dar, y ese vacío sangra satisfacción y buena voluntad.

Allí van esa hornada de cuenteretes, medio crudos por falta de leña: el sol se encargará de irlos tostando."

Thursday, 30 September 2010

Alguém pra chamar de mestra – Réquiem para Edith Barreto

“Aleksander, como definimos a representação da base categorial que conformam as relações gramaticais entre as estruturas profundas?”


Lembro do jeito firme, seguro e – sempre – elegante que ela tinha de pronunciar meu nome. Esqueçamos o medíocre sujeito e predicado. Fui apresentado, por ela, embasbacado, ao Sintagma e ao conceito de unidade sintática. Dai veio o cosmos... a Gramática Gerativa, criticas aos modelos distribucionistas, o próprio Noam Chomsky (e o conheci assim, um lingüista divisor de águas, muitos antes de saber de sua versão política), diagramas arbóreos: era a Língua, a Lingüística; era um universo inteiro que se revelava, passava a fazer sentido. Graças a ela.


Foram várias vezes em que ela teve que fazer com que eu voltasse à Terra quando viajava demasiadamente empolgado em discussões nas salas da Faculdade de Letras da UFPel pelo universo da Pragmática e da Estilística. Cada aula era um orgulho, uma realização, um arrebatamento. Que sensação poderosa eram os insights, a percepção de descoberta e de compreensão que ela gerava! Era um desafio e um privilégio acompanhar sua irrepreensível atuação. Sim, porque ela não dava aula, mas performava. Já era uma lenda viva naquele tempo. Edith Barreto era o nome que transpirava respeito e admiração e inclusive medo. Ser aprovado nas cadeiras ministradas por ela era sinônimo de superação, valor. Se fosse com uma boa nota, a coroação do êxito.


Edith não era apenas brilhante, mas instigante, dona de uma finíssima ironia além de paciente e sofisticadamente educada. Ao mesmo tempo um mistério. Ate hoje, um Google com o seu nome traz como resultado quase nada e imagens dela na web parece ser algo impossível de se encontrar. Pouco sabia da sua vida pessoal, da sua trajetória humana. Aparentemente vinha de uma família abastada, mas nos permitia ver que suas posições políticas não eram conservadoras, como naturalmente se pensaria, mas progressistas.


Edith Barreto era para mim, e sempre será, um nome mítico. Era e é ainda o nome do Diretório Acadêmico da Faculdade de Letras da UFPel, nome escolhido pelos próprios estudantes em algum momento de epifania. (** Depois de ter publicado este poste fui informado que o nome do D.A havia mudado nos anos 2000 sob o argumento de que Edith ainda estava viva. Como se homenagens fossem apenas para os mortos...). Fiz parte, também com orgulho, da Coordenação Geral da entidade em 2000-2001 numa época em que travamos grandes lutas estudantis. Mas lamento não ter nenhuma foto da Edith, nem com ela. Seria como guardar aquelas lembranças de objetos queridos e representativos que são mantidos como um componente do que se é. Tenho dois livros que ela me presenteou em uma das duas vezes que fui até sua casa, tímido e orgulhoso, para discutir um projeto lingüístico. Um desses livros foi também um marco na minha formação e paixão por política e semiótica, lingüística e comunicação. Edith foi uma das responsáveis, entre pouquíssimas em tão decisiva lista, por me apresentar um mundo. E a isso sou grato e por isso seu declarado admirador. Obrigado, Edith.


O mundo perdeu Edith Barreto na segunda-feira, dia 27 de setembro. Entre as várias coisas que não sei sobre ela, deduzo que a sua idade era mais de 60 e menos de 80. Quando recebi a noticia através de amigos da época da Faculdade, ela já havia sido enterrada. Ao que parece, ela travava a algum tempo uma luta contra um câncer, mas eu pouco sabia do que lhe passava nos últimos anos. Senti uma particular tristeza por haver estado na cidade, Pelotas, este ano e ter perdido a oportunidade de ver-la, mas registro, entre tanto que acontece no mundo nesta semana e tanto que tenho para escrever, minha homenagem a alguém que de fato a merece. Edith Barreto é alguém pra chamar de mestra.


P.S: Dêiticos também é um conceito que me foi apresentado por Edith Barreto e que dá nome e sentido a este blog.


P.S 2: A conhecida professora Paula Mascarenhas, da Faculdade de Letras da UFPel, que de alguma maneira encontrou esta homenagem a Edith na rede, deixou gentil comentário neste post, compartindo respeito por Edith, e re-corrigindo o dito anteriomente: o nome do D.A da Letras segue, sim, tendo o nome de Edith Barreto.

Saturday, 20 February 2010

Trago ou Trazido? Mais Marcos Bagno ja!

Um único Marcos Bagno já é um alivio, um cutucão, uma oportunidade de luz sob o cenário escuro do ensino de letras no Brasil que é tão cheio de ignorância, de preconceitos e de dimensões sócio-políticas não bem entendidas mesmo por muitos profissionais da área.

Mas para que esse tímido foco se converta em imensas fogueiras de inteligência, necessitamos não apenas um, mas dois, três, milhares de Marcos Bagno. Textos como esse pequeno artigo abaixo, publicado na Caros Amigos, explicam o porquê.



"Um dos mais interessantes vetores da mudança linguística é a chamada hipercorreção, a atitude do falante que aplica certas regras gramaticais onde, em princípio, elas não se aplicariam. Em sociedades com uma pesada tradição normativa, como a nossa, impera também uma forte insegurança linguística na maioria da população.
Acostumados a ouvir que “brasileiro não sabe português” (porque só os portugueses “falam certo” a língua que, afinal, “é deles”) ou que “português é uma das línguas mais difíceis do mundo”, somos levados a querer acertar demais, isto é, exageramos na aplicação das regras gramaticais. Bom exemplo é a flexão no plural do verbo haver, impessoal (“Houveram muitos problemas”), ou a concordância indevida com a expressão “trata-se de” (“Tratavam-se de casos excepcionais”), por pressão da regra estapafúrdia que manda ir para o plural os verbos acompanhados do pronome “se” (“Alugam-se casas”, como se casas pudessem alugar-se a si mesmas!). Outro caso clássico de hipercorreção é a famigerada “colocação pronominal”, que tira o sono dos brasileiros há século e meio. Como o uso do pronome depois do verbo (ênclise) é totalmente estranho ao português brasileiro (onde o pronome oblíquo antes do verbo é a colocação intuitiva, natural e espontânea), as pessoas tendem a usar exclusivamente essa colocação, inclusive onde a gramática normativa proíbe (“Não lembro-me”, “Já telefonei-lhe”, “Espero que sinta-se bem”, “Eu tinha mandado-a embora”).

Também ocorre hipercorreção com os chamados “verbos abundantes”, que têm mais de um particípio. Muita gente acha que só existem as formas “ganho”, “entregue”, “pago” etc. e que é errado dizer ou escrever “eu tinha ganhado”, “tinha entregado”, “tinha pagado” etc. Por analogia e hipercorreção, surgiram novos particípios irregulares que, só porque são novos, sofrem o combate sistemático dos patrulheiros gramaticais de plantão. Estou falando dos particípios “trago” (“Ele tinha trago os livros”) e “chego” (“Ela tinha chego atrasada”) que, a julgar pelo combate violento que sofrem, já devem estar muito bem instalados na gramática intuitiva da maioria dos brasileiros. Sobre “trago”, por exemplo, encontrei essa belezura na internet: “Isso é uma asneira que é ouvida por aí entre alguns beócios”. Que meigo, não? Agora pergunto ao caro leitor: você acha certo ou errado dizer “o corrupto foi pego em flagrante”? Acha certo? Pois veja o que dizia o conhecido dicionário Caldas Aulete (na 5a ed., 1964) no verbete pego: “Só os incultos empregam este termo”.

E agora veja o que diz o dicionário Houaiss (1999): “pegar apresenta duplo particípio: pegado, pego (ê ou é)”. Como as coisas mudaram em 35 anos, não? De uma análise preconceituosa para uma apresentação neutra, sem nenhum juízo de valor. Por isso, em vez de sair por aí esbravejando contra o que é novo na língua, melhor procurar entender serenamente os processos de mudança linguística. Assim, daqui a 50 anos, ninguém vai rir da sua cara ao ver que você condenava um uso que se tornou absolutamente normal, corriqueiro e bem aceito por todos os falantes, inclusive os que se acham muito cultos e letrados!"

Tuesday, 25 December 2007

Para ser um tradutor

Eu nao vou copiar o artigo aqui. Ja fiz isso antes motivado pelo prazer de ler os artigos do Le Monde Diplomatique Brasil cuja qualidade provoca a vontade de pedir para os outros le-los tambem. Desta vez eu vou apenas deixar o link aqui e se voce puder ceder um minuto, va adiante porque vale a pena. Se eu nao fosse apenas um mero mortal lutando por manter em forma a capacidade de escrever atraves deste blog alguem poderia pensar que eu sou pago pelo Le Monde dada a frequente mencao dos artigos deles aqui. Antes assim fosse. Eu somente tento compartilhar opinoes animadas sobre bons textos que de vez em quando se ve. A autora em questao eh uma jovem escritora (bem jovenzinha) que no seu primeiro artigo para o Le Monde escreve sobre o fascinante exercicio de ser um tradutor. Soh em portugues.
Being a translator
I will not copy and paste the article here. I have done it before motivated by the pleasure of reading the Le Monde Diplomatique Brasil texts whose quality incites one to tell everyone that they should also read it. However it makes much more sense just putting the link here so if you have a minute to spare go on. If I was not only a mere mortal struggling to keep the capacity of writing in shape by maintaining this blog, one would think I am getting paid by Le Monde due to the frequent mention to its articles here. I wish I could at least pretend it. Actually, I just hope to share some excited opinions about a good piece when I bump into one. The author in question is a young writer (very young) who, in her first piece to Le Monde, writes here about the fascinating exercise of being a translator. Unfortunately, this is a Portuguese text. If you manage, enjoy it!
LEIA AQUI:

Sunday, 26 August 2007

Eu queria ter escrito isso

Reforma estúpida
Mais uma vez, burocratas de pouco tino pretendem enfiar-nos uma reforma ortográfica goela abaixo. Segundo reportagem da Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal ou do UOL), as mudanças podem começar já no ano que vem. Há aí dois despropósitos e uma sacanagem.
Em primeiro lugar, a reforma proposta é ruim: gasta-se muita energia para obter avanços menos do que tímidos em termos de unificação da escrita dos países lusófonos. Isto, é claro, se Portugal comprar o pacote, o que talvez não faça. Em segundo e mais importante, é errado e inútil tentar definir os rumos de uma língua natural.
Só vão sair ganhando aqueles editores mais ágeis, que já têm prontos dicionários, gramáticas, cursos de atualização e material didático de acordo com a "nova ortografia" --e é aí que reside a esperteza.
Nunca foram meia dúzia de consoantes mudas --como nas formas lusitanas "adopção" e "óptimo"-- que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. O mesmo se pode dizer do trema, das quatro ou cinco regras de acentuação que serão alteradas e das sempre exóticas disposições sobre o hífen --os demais pontos que a reforma abarca. Se há empecilhos à boa compreensão entre falantes do Brasil, de Portugal e de países africanos e asiáticos (não nos esqueçamos de Timor Leste), eles estão na escolha do léxico e no uso de expressões locais, felizmente ao abrigo da sanha legiferante de dicionaristas e parlamentares.
Línguas são como organismos vivos: nascem, crescem e morrem. Numa palavra, evoluem. Só que, ao contrário de entidades compostas por moléculas de carbono e codificadas por genes, fazem-no principalmente pelo que os biólogos chamam de "genetic drift" (deriva genética), isto é, sem muita seleção --até pode haver alguma competição entre idiomas, mas bem menos do que entre indivíduos. Escrever "super-homem" ou "superomem" não torna o português mais ou menos apto a sobreviver no mundo lingüístico.
E, se há algo especialmente desimportante para determinar o sucesso ou fracasso de um idioma, é a ortografia tomada isoladamente. Analisemos o caso do inglês, indiscutivelmente o idioma de maior prestígio hoje no mundo. A complexidade de sua ortografia, que é muito pouco fonética, já gerou toda uma mitologia. O escritor Mark Twain, por exemplo, propôs em tom de chiste que a palavra "fish" ("peixe") fosse escrita "ghotiugh", em que o "gh" soa como "f", como ocorre em "enough" ("bastante"); o "o" tem som de "i", como em "women" ("mulheres"); o grupo "ti" vale por "ch", como em "nation" ("nação"); e o grupo "ugh" não tem som algum, como em "ought" ("dever").
Só que o problema ortográfico do inglês, apesar de trazer mesmo uma série de dificuldades, em especial na alfabetização de crianças e no aprendizado como língua estrangeira, revelou-se também um dos ingredientes que, ao lado de outras características, tornaram-no uma língua extremamente versátil, o que contribuiu para o seu sucesso. Com efeito, a anomia ortográfica aliada ao despojamento dos sistemas nominal e verbal trouxe uma vantagem insuspeitada. Como as palavras podem ser escritas de qualquer jeito mesmo e substantivos se tornam verbos sem a necessidade de nenhuma adequação morfológica --em português, para tornar-se verbo, é preciso obedecer à flexão, recebendo, por exemplo, um "r" no infinitivo, como em "amar"--, a língua ganha uma enorme flexibilidade. Praticamente qualquer palavra estrangeira pode ser assimilada em sua forma original. Nenhum termo fica estranho demais para "soar" inglês. Mais do que isso, pode tornar-se, além de um simples nome, também um verbo. É o caso de "toboggan" ("tobogã" e também "fazer tobogã") que veio do idioma algonquino "ipsis litteris". O inglês é, nesse sentido, uma língua perfeita para a era da globalização e, não por acaso, aquela com maior número de vocábulos, boa parte dos quais emprestados de outros povos.
O "genetic drift" também faz com que idiomas possam conservar traços imemoriais sem que isso implique custos demasiado altos. Tal característica torna as línguas naturais verdadeiros palimpsestos, capazes tanto de assimilar modismos criados na véspera como de guardar relíquias herdadas de idiomas muito mais antigos. Seu curso, ainda mais que o da seleção natural, é absolutamente imprevisível. Vale a pena investigar dois ou três casos.
Para o termo "beócio", por exemplo, o dicionário Aurélio registra: "curto de inteligência; ignorante, boçal". Se olharmos para a etimologia, descobriremos estar diante de um preconceito das elites gregas, para as quais os habitantes da província da Beócia --os beócios-- não passavam de camponeses estúpidos e glutões. O sentido de glutonaria se perdeu, mas o de estupidez se manteve em várias línguas modernas.
Obviamente, não eram apenas os gregos os arrogantes e intolerantes. Os judeus do século 12 a.C. também tinham seus desafetos, mais especificamente os filisteus, com quem viviam guerreando. Foi assim que, em hebraico, "pelishti" ganhou conotações pouco abonadoras, que, passados 33 séculos, continuam existindo no português contemporâneo. Para "filisteu" o dicionário Houaiss traz: "aquele que é ou se mostra inculto e cujos interesses são estritamente materiais, vulgares, convencionais; que ou aquele que é desprovido de inteligência e de imaginação artística ou intelectual".
Freqüentemente, surgem bem-intencionadas patrulhas lingüísticas tentando corrigir as injustiças. Ainda não vi ninguém propondo eliminar "beócio" e "filisteu" de nosso léxico, mas acho que a sugestão não apareceu mais por desconhecimento do que por falta de disposição. Recente cartilha do governo federal queria limar termos "preconceituosos" como "anão", "aidético", "barbeiro", "beata", "comunista", "xiita", "funcionário público", "peão". Escrevi algo a respeito na coluna
"Tributo à estultice".
Tais esforços, além de tolos, acabam muitas vezes tendo efeito muito diferente do inicialmente imaginado. É o caso da palavra "cretino". Em regiões montanhosas, como a Suíça, são pobres as fontes de iodo ambiental, o que, antes do processo de iodatação do sal de cozinha, tendia a provocar alta prevalência de hipotireoidismo congênito (ou cretinismo). Como os bons helvéticos já eram politicamente corretos "avant la lettre", recusavam-se a chamar as crianças afetadas pela síndrome pelo nome de "idiotas". No século 18, passaram a usar o mais piedoso termo "cristão", que soava "crétin" no francês dialetal ali falado. Acabaram inventando, sem querer, a palavra "cretino", hoje de alcance mundial e politicamente incorreta. Preconceitos podem até ser reforçados pela língua, mas são capazes de sobreviver muito bem sem ela.
A lição a tirar dessas historietas é que é bobagem tentar legislar sobre um fenômeno tão complexo como a linguagem. Uma analogia válida seria a de deputados tentando baixar uma lei para regular a taxa de mutação do gene p53. Não vai dar certo. Quer dizer, a reforma poderá até nos levar a escrever as palavras de um geito (sic) diferente, mas isso em nada alterará a essência ou os processos da língua e não chegará nem perto de tornar as muitas variantes do português mais intercompreensíveis. Ao contrário, irá apenas criar o incômodo de exigir de alguns milhões de usuários que percam algum tempo para aprender as novas regras cuja arbitrariedade só não é superada pela inutilidade. Se há algo a ser eliminado, não são acentos e hifens, mas a estultícia de burocratas.
Hélio Schwartsman, 41, editorialista da Folha de São Paulo. Coluna do dia 23/08/2007