Showing posts with label Entrevistas. Show all posts
Showing posts with label Entrevistas. Show all posts

Wednesday, 9 April 2014

Fome, sangue e impunidade: as transições incompletas de Brasil e El Salvador

No mês passado tive a oportunidade de entrevistar Benjamin Cuellar, tão conhecido quanto polêmico ativista de Direitos Humanos em El Salvador. Importante material que a agência Rede Brasil Atual comprou e originalmente publicou e reproduzimos no blog Centro-américa em foco - nosso projeto de construção de uma rede de opinião especializada centro-americana, para ter visibilidade principalmente no Brasil,  que impulsionamos desde a UFPE como parte das atividades do doutorado.
Deixo o registro também aqui no  velho combatente Dêiticos :)

-----------------


Entrevista com Benjamin Cuellar: um dos mais importantes ativistas de Direitos Humanos na América Central, convidado do Ministério da Justiça para o Congresso Internacional sobre os 50 anos do golpe militar-civil brasileiro, fala sobre os processos de verdade, justiça e reparação na conturbada região pós-guerra e sobre as expectativas de resultados desse debate e da Comissão da Verdade no Brasil

*Por Aleksander Aguilar




Nove anos na organização guerrilheira salvadorenha Forças Populares de Libertação (FPL); oito anos, dois meses e cinco dias no exílio no México e 22 anos como diretor do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Centro-americana (UCA). É assim, com o mesmo hábito que parece comum nas narrativas de ex-presos políticos ao contabilizar até o número de dias em que esteve fora do lugar de origem, que um dos mais importantes ativistas em Direitos Humanos da América Central, Benjamin Cuellar, resume os períodos mais definidores de trajetória.

Cuellar foi um dos convidados entre os muitos nomes de alto perfil que participaram nos dias 10 e 14 de março, em Recife, do Congresso Internacional “50 anos depois: A Nova Agenda da Justiça de Transição no Brasil”, primeiro evento oficial da Comissão de Anistia do Ministério de Justiça sobre o aniversário de cinco décadas do golpe de Estado militar-civil no Brasil, que abriu uma extensa programação de atividades em todo o país.

Especialistas e pesquisadores de várias áreas acadêmicas e reconhecidos militantes da América Latina, Estados Unidos, Europa e África analisaram criticamente os atuais avanços e obstáculos da Justiça de Transição no Brasil, o que ainda resta da ditadura em nossos dias e como fomentar ações sobre memória, verdade, justiça e reparação. Entre esses, o juiz espanhol, responsável pela condenação do ditador chileno Augusto Pinochet, Baltazar Garzón; o Procurador Geral da Argentina, Pablo Parenti: o cineasta Silvio Tendler, que no evento comentou a pré-estreia do longa-metragem “Militares da Democracia: os militares que disserem não” e Patricia Valdez, da Coalizão Internacional de Sítios de Consciência.

O outro nome desse rol, em destaque nesta entrevista, o salvadorenho Benjamin Cuellar, é, aos 58 anos, um homem de muitas histórias e opiniões contundentes, certamente polêmicas, sobre a conjuntura política centro-americana e o estado dos Direitos Humanos nessa região historicamente convulsionada do globo.

Comumente negligenciado por boa parte do debate político de projeção internacional, entre o hegemônico Norte e o promissor Sul do continente americano, está o Centro, a chamada América Central, o pequeno istmo geográfico conformado por sete Estados com menos de 50 milhões de habitantes em pouco mais de 500 mil km² (o Brasil, sozinho, tem mais de oito milhões de km²). A realidade sociopolítica da América Central – embora geopoliticamente inscrita no que se entende como América Latina, área que mobiliza muitos interesses econômicos, políticos e acadêmicos nessas primeiras décadas do século 21 – situa-se nesse lugar periférico do sistema internacional.
No período da Guerra Fria, porém, a região centro-americana foi foco de atenção dos problemas internacionais de uma geração de analistas que entendiam o istmo como um dos principais palcos do conflito bipolar e concentravam-se em problemas relacionados, principalmente com as causas e consequências desses conflitos armados.  Em El Salvador a guerra entre as forças rebeldes organizadas na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e os governos autoritários do país durou, oficialmente, de 1980 a 1992, e deixou marcas “exemplares” de terrorismo de estado, que chamou a atenção do mundo por altíssimos níveis de violência com mais de 75 mil mortos e desaparecidos e impressionou autoridades das Nações Unidas, ao ponto da ONU decidir concentrar grandes esforços de mediação no pequeno país e estabelecer uma Comissão da Verdade, como condição para negociação do fim da guerra, que foi considerada por essa organização internacional uma experiência “modelo” de reconciliação.

Logo dos Acordos de Paz, nos anos 90, que puseram fim a hostilidade bélica nos países que conformam a América Central, os desafios da transição à democracia perpassam velhos e novos problemas tais como migrações, violência, narcotráfico e crime organizado, memória histórica, desenvolvimento econômico, espaço urbano, novas relações internacionais e direitos humanos. Essa última é a área que Cuellar, um dos fundadores da Rede Latino-americana de Justiça de Transição, lançada oficialmente no Congresso Internacional do qual participou na capital pernambucana, analisa com base na experiência e nos dá importantes perspectivas de dentro da região que servem também de reflexão para o processo brasileiro nessa temática.

Como você se envolveu com a militância em Direitos Humanos? O que você observou e aprendeu do período da guerra salvadorenha?

A princípio, segui os passos do meu irmão mais velho, que foi fundador e diretor do Instituto Interamericano de Direitos Humanos, e também do meu pai, que foi secretário-geral da Universidade de El Salvador. Em 1972, quando os militares invadiram e passaram a administrar a universidade, ele foi perseguido e agredido por soldados na nossa própria casa. São imagens que marcam a formação de uma pessoa.

Entrei na universidade já militarizada em 1973, como estudante de Direito, e logo integrei a equipe de futebol da instituição. Disputávamos e ganhamos vários campeonatos, inclusive continentais, até que as FPL me proibiram de seguir jogando, sob o argumento de se tratava de uma atividade a serviço da ideologia pequeno-burguesa (risos). Uma pena, não é? Era a melhor cobertura que poderia ter, já que não imaginariam que um jogador da equipe oficial da universidade estava envolvido com a guerrilha. Mas apesar de terem-me feito sair do time, em 1982 me pediram para levar uma televisão até ao acampamento de Chalatenango (região ocidental de El Salvador que durante a guerra estava sob controle da guerrilha). E para que? Para ver a Copa do Mundo daquele ano…

Ainda como estudante, participei de projetos de alfabetização em zonas periféricas do país, utilizando o método Paulo Freire. E, em 1974, durante essas atividades, conheci algumas pessoas das FPL que me recrutaram para a organização. Estive nas FPL até maio de 1983 quando decidi me retirar. Ainda não tinha muita noção precisa de Direitos Humanos, mas uma intuição e, na guerra, via-se uma diversidade de temas problemáticos: crianças trabalhando como mensageiros, direitos das mulheres, trato de prisioneiros.

Em outubro daquele mesmo ano, fui para o exílio no México, para onde já havia ido o meu irmão, logo depois da morte de Monsenhor Romero (bispo de El Salvador cujo assassinato em 1980 foi o estopim da guerra civil). Ali, com a ajuda de um frade que havia apoiado meu irmão, participei do projeto de criação de uma instituição de direitos humanos e fundamos o Centro de Direitos Humanos Frade Francisco Victoria, que se torna um dos maiores do México.

Permaneci no país exatamente até 5 de janeiro de 1992, quando regresso a El Salvador, já às vésperas da assinatura oficial dos Acordos de Paz que deram fim ao conflito bélico no país (em 16 de janeiro daquele ano) e contratado pela Universidade Centro-americana José Simeón Cañas (UCA) para dirigir o recém-criado Instituo de Direitos Humanos (Idhuca).


Como você avalia a situação dos Direitos Humanos de maneira geral na América Central, e mais particularmente em El Salvador?

Eu divido a região em sub-regiões. Uma coisa é Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Os dois últimos já sabemos que se distinguem de características mais gerais de bem-estar do resto da região, mas também Nicarágua, que tem altos índices de pobreza e desigualdade social, não tem a violência e os problemas principais que temos no Triângulo Norte da América Central (El Salvador, Honduras e Guatemala) que são fome, sangue e impunidade.

Em Nicarágua, sim, há fome, mas não há sangue. E, junto à Costa Rica e Panamá, nesses países houve processos históricos, revolucionários ou institucionais, que se não alcançaram fazer mudanças estruturais, pelo menos trouxeram mudanças que os colocaram em melhor posição, com mais participação de comunidades organizadas, com melhores condições de educação e seguridade social.
Já nos países do Triângulo Norte, com maior ou menor intensidade, as revoluções truncadas ou empatadas que não chegaram ao poder, ajudaram a deixar os países do jeito em que estamos; em que prevalecem as causas que os levaram aos conflitos armados: fome, sangue e impunidade, para jogar com as palavras, mas que também se pode traduzir em falta de direitos econômicos, sociais e culturais, falta de direito à segurança cidadã e de direito à justiça.

Há outros, mas se não priorizamos caímos justamente na crítica de Ignacio Ellacuria (filósofo, escritor e teólogo espanhol, naturalizado salvadorenho, que foi assassinado pelas Forças Armadas salvadorenhas quando ocupava o cargo de reitor da UCA, em 1989, junto a outros cinco padres jesuítas dirigentes universitários no episódio da guerra que ficou conhecido como “o massacre da UCA”) sobre a falta de historificação dos Direitos Humanos que, por vezes, se apresenta como uma larga lista supostamente acessível para todos, que são iguais e universais… Isso é mentira, porque é preciso historicizar segundo a realidade de cada lugar.

Sobre o governo Mauricio Funes, da FMLN, (2009-2014) sobre o qual o senhor tem sido bastante crítico, qual sua avaliação da política de Direitos Humanos?

Eu sempre fui crítico de todos os governos. É o trabalho que corresponde a um ativista de direitos humanos, aplaudir o que é bom e apontar o que é mau. O problema não é botar o dedo na ferida, o problema é a ferida. Mas aqui foi preciso colocar o dedo na ferida com mais evidencia porque deveria ter sido o governo da mudança, porém a fome, o sangue e a impunidade persistem.
Às vezes, se escuta aqueles que dizem que a situação dos Direitos Humanos em El Salvador está boa, mas isso só pode ser dito porque a estão comparando com o inferno em que estávamos antes! Se compararmos com o paraíso que foi prometido na campanha de Mauricio Funes, ainda estamos, na verdade, muito mais próximos desse inferno.

E por que esse “governo da mudança e da esperança” teve esses resultados nas últimas eleições? (a FMLN se reelegeu no segundo turno da eleição de março com uma diferença de apenas 0.2% do candidato direitista da oposição, do partido Arena).

Porque fomentou o clientelismo político com programas assistenciais, criando grande gasto social, não investimento social, para que o povo se agarre aos sapatos e cadernos que lhes foram disponibilizados e permaneçam na posição de ajudados sem se converter em sujeitos políticos.


Mas não houve avanços em Justiça de Transição?
Fome e sangue são estruturais. Tem a ver com acordos internos entre os interesses presentes no país que incluem o setor privado – e não com os homens das cavernas que se dizem do setor empresarial-privado em El Salvador – e um Estado que faça investimento social. Já a impunidade tem a ver com algo que, para mim, faz de Mauricio Funes um presidente nefasto.

Apresentar-se como um discípulo de Monsenhor Romero, um santo de América, e chegar aos organismos internacionais, como à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e dizer que cumpriu com o que lhe cabia, com as reparações… Por favor! Que reparação no caso da UCA, por exemplo? Fizeram uma homenagem aos jesuítas, aos 20 anos do massacre, e entregaram a Ordem Jose Matias Delgado, a mais alta do país, e pediram perdão. Mas nem foram incluídas todas as vítimas fatais na homenagem, apenas os seis jesuítas, a mãe e a filha, funcionárias da universidade, que estavam lá e morreram pelo simples fato de estarem lá, nem foram mencionadas.

O mais importante, porém, é que a investigação, o julgamento e a sanção dos responsáveis pelo massacre não foi realizado. E menos ainda fez-se esforços para revogar a lei de anistia. Por qual razão? ‘Ah, o fiscal-geral da República não quer investigar. Pedimos para investigar, mas não o fez’. Isso foi dito pelo representante do governo salvadorenho na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, David Moraes, que agora é o Procurador de Direitos Humanos do país.

Veja, o trabalho em Direitos Humanos exige três coisas: recursos, capacidades, vontade política, que quaisquer políticos dizem que tem, todos querem acabar com a impunidade. Mas a isso é preciso agregar coragem, para tocar o intocável.

O governo FMLN teve aliados que lhe deram maioria na Assembleia em distintos períodos do mandato. Poderia ter apresentado a Assembleia Legislativa algo para, pelo menos, reformar, segundo standards internacionais, a lei de anistia, mas não o fez.

Isso foi a situação do governo Funes ou é a posição da FMLN? Agora que, pela primeira vez, a Frente estará no poder com um presidente que foi um ex-comandante guerrilheiro (Sanchez Ceren, recém eleito) isso não poderá representar progressos de fato nesse campo?

Irá ele revogar a lei de anistia? O primeiro, nesse caso, a ser acusado seria ele mesmo, por conta de todos os episódios de violência na guerra nos quais esteve envolvido. Ou seja, não irá fazer nada. E, além disso, na própria campanha já anunciava que é preciso olhar para a frente. Eu não falo de otimismo ou pessimismo. Porque se tivesse otimismo, eu seria como aquele a quem empurram de um edifício de 20 andares e, durante a queda, lá pelo décimo andar, ele fica contente porque ainda não lhe aconteceu nada… Eu falo é de realismo.

Há indícios de militares que sabia da ordem do massacre da UCA, por exemplo, que não colaboraram com a Comissão da Verdade, nem com o processo na Audiência Nacional Espanhola (os oficiais acusados de envolvimento no massacre foram intimados na Espanha). E os protegem. Há sinais que mostram que vai passar com Ceren o mesmo que passou com Funes. No governo de Funes, me olhavam como se fosse da Arena, mas trabalho com Direitos Humanos e aqui não há nem rico nem pobre, nem esquerda nem direita, mas, sim, a dignidade das pessoas.

Quando Funes estava em campanha ninguém se deu conta, ou se fizeram de desentendidos, que ele disse que não tocaria em três coisas que efetivamente impediriam que a fome, o sangue e a impunidade seguissem no país: no tratado de livre comércio com os Estados Unidos, na dolarização da economia de El Salvador (vigente desde 2001) e na lei de anistia. Sanchez Ceren já disse o mesmo.

Como centro-americano e a partir da experiência e expertise nesse debate de Justiça de Transição, como o senhor vê essa discussão sobre memoria, verdade e justiça no Brasil?

Eu acho que o Brasil é um exemplo de como fazer as coisas. Não são perfeitas, obviamente, mas além do Estado, na figura muito ativa do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abraão, eu sinto que há, na base, por baixo e por dentro, uma participação muito maior da sociedade. Porque El Salvador é um exemplo de que de por fora e por cima não se arrumam as coisas.

Nem com acordo, nem com eleições, nem com alternância, nem com governos “puro sangue”, ou seja, sem participação das pessoas, não se resolve. Se a FMLN trabalha bem, terá apoio da sociedade. Eu, como cidadão, como Benjamin Cuellar, vou aplaudir o que for bem feito. Mas não haverá solução sem a participação das pessoas. Em El Salvador, por conta de uma guerra tão intensa como a que houve, é que ocorre essa polarização que há no país, porque as pessoas esperaram que a guerrilha lhes resolvessem os problemas com a guerra e, depois dos Acordos de Paz, que a FMLN agora lhes resolvessem os problemas como partido, com eleições. Sabe como é o ditado: ‘só o povo salva o povo’, mas apenas se estiver organizando, demandando e exigindo soluções.

Considerando sua posição realista, como o senhor se define, considera que o Brasil está num melhor caminho? Digo isso, porque, pragmaticamente, falando que a lei de anistia segue sendo um entrave à Justiça de Transição no Brasil tanto quanto parece ser em El Salvador…

Sim, mas a diferença está enquanto às vítimas de fome, sangue e impunidade assumem o papel protagonista nesse processo reparatório e, no Brasil, sinto que o assumem muito mais do que em El Salvador. Tenho dois anos de trabalho com organizações brasileiras para a criação da Rede Latino-americana de Justiça de Transição e sinto que essa diferença é marcante.


 
Considerando a experiência também da Comissão da Verdade de El Salvador, do que foi e dos seus resultados, o que se pode esperar da Comissão brasileira?

Insisto, se o protagonismo da sociedade não se mantém, ocorrerá no Brasil o que ocorreu em El Salvador, isto é> aqui a comissão é nacional, criada pelo governo. A salvadorenha foi criada três meses depois do fim da guerra e toda a equipe era internacional, mas as recomendações, mesmo no governo da FMLN, não foram cumpridas e as coisas ficaram por isso mesmo.

Mesmo a depuração das Forças Armadas. Saíram apenas 100 de mais de 1300 oficiais, ou seja, se considera que apenas 100 foram violadores de Direitos Humanos durante a guerra. A criação da Policia Nacional Civil (PNC) foi marcada por uma falha de origem e continuou militarizada. O melhor exemplo do fracasso dessa Polícia é que, desde 16 de julho de 1993, apenas um ano e meio depois da assinatura dos Acordos de Paz, o exército tem estado nas ruas fazendo papel de polícia permanentemente. Em 2011, no governo Funes, segundo informe oficial do Ministério da Defesa, temos mais de 8 mil soldados na segurança pública.

Então, das recomendações da comissão, apenas aquelas que eram politicamente toleráveis e que se podiam implementar por acordo foram feitas. Do grupo de recomendações sobre reconciliação nacional estão, por exemplo, a construção de um monumento às vítimas, um dia nacional de honra as vítimas, indenização moral e material, discussão nacional sobre o que se fazer com essa verdade – nada se cumpriu. Segue pendente, ainda, como parte da garantia de não-repetição desses feitos, a assinatura ao Estatuto de Roma (que adscreve o país à Corte Penal Internacional). Enquanto os violadores de direitos humanos do passado estão brindados com a anistia, os violadores de direitos humanos do futuro estão brindados com a não adesão ao estatuto. Em El Salvador, cinco dias depois da divulgação do informe da Comissão, passaram a lei de anistia. Ou seja, mataram o informe, enterraram-no e a lápide se chama “lei de anistia”.

Para que serve o informe da Comissão da Verdade?

Ele não é um fim em si mesmo, é uma ferramenta para que as vítimas e a sociedade o tomem nas mãos e exijam o cumprimento. Se o povo ficar esperando que o PT, no Brasil, ou a FMLN, em El Salvador, tragam a solução, ficarão sem ver nada.


*Aleksander Aguilar é jornalista, mestre em Estudos Internacionais pela Universitat de Barcelona, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco.

Friday, 16 July 2010

Quase entrevistei Arnaldo Antunes

Em arranjos e tratativas há umas três ou quatro semanas, ao aproximar-se a data da sua performance em Londres tudo parecia que se confirmaria. Uma exclusiva com Arnaldo (desculpem a intimidade) durante uma ampla e prestigiosa programação sobre o Brasil num dos principais centros culturais da capital britânica.

A perspectiva de entrevistar um personagem de quem se é fã desde a adolescência é empolgante e arriscada. Demanda, como mínimo, uma razoável pesquisa sobre seus últimos trabalhos, seus atuais projetos, uma revisita à própria dissertação que escrevi como trabalho final da Faculdade de Letras sobre a sua obra, a construção de um roteiro decente de perguntas que tenham em vista qual Arnaldo Antunes se quer abordar.

Se você é parte, ainda, do eufemisticamente triste grupo de pessoas que identifica Arnaldo apenas com os Titãs e com os Tribalistas, explico: Arnaldo Antunes é um dos maiores poetas, artistas visuais e – também – músicos vivos do Brasil. Deixou os Titãs no início dos anos 90 justo em tempo de fazer valer, com toda a legitimidade, toda essa reputação conquistada. Consolidou uma carreira merecida como artista que transcende estereótipos e classificações ao valer-se de diferentes plataformas de arte, fundindo mídias e linguagens. E experimentando, sempre experimentando. Arnaldo, segundo, o professor da USP, Paulo César Carvalho, “é muitas televisões ligadas simultaneamente em canais inteligentes”.

A arte de Arnaldo Antunes é articulada de maneira multimidiática e intersemiótica, o que promove a incorporação orgânica de diversidade estética e tem como orientação geral a condensação de sentidos no intuito de gerar plurissignificaçao (este trecho é da minha monografia sobre ele...).

Arnaldo é um descendente da polêmica tradição concretista de Haroldo e Augusto de Campos e Decio Pignatari nos anos 50; esses foram intelectuais brasileiros que colecionavam inimigos na época chocados com a audácia de mesclar, strictu sensu, letras e arte. Dessa linhagem, que tem como referências Mallarmé e E.E Cummings, vem o Arnaldo Antunes contemporâneo, extrapolando tudo o que nosso século de “pos-ismos” pode oferecer, tecnológica e culturalmente.

Mas a entrevista não rolou. Mudanças de último minuto, assim como cancelamentos de última hora. Arnaldo deveria se apresentar duas vezes no Festival Brazil; uma, a que ocorreu, numa performance poética, a outra mais musical com o excelente grupo Porcas Borboletas. Esta última foi cancelada, razão a saber. Mas o Porcas Borboletas toca no Lovebox Festival este fim de semana, no Victoria Park. Alias, não estaria mal tentar dar uma chegada...

Creio que pelo menos uns vinte emails foram trocados entre a assessoria de prensa do Southbank Centre, o agente do Arnaldo, eu, e outra pessoa da assessoria que estava lidando mais diretamente com a vinda dele a Londres. Aqui alguns exemplos da “negociação” que não acabou como esperada, na ordem:

***********************************

Hi Kate and Aleksander,

Arnaldo rang me yesterday to ask if the press conference was on. He was told by his agent, Julio Quattrucci, that there was a press conference today. Kate, are there any other interviews scheduled for Arnaldo Antunes today? I said that Julio (who arrives today in London), was dealing with that.

I believe Arnaldo is free today. Please let me know if I can help.

Regards, Sarah

*******************************************

Fantastic. Aleksander – when can you meet with Arnaldo? Hopefully this afternoon.

Christina – please check if this afternoon is a good time to meet with Aleksander.

Aleksander- please can we have your mobile number so Christina can call you and confirm the interview.

Christina – can you check with the hotel whether there is a room they can do the interview in? Or perhaps there is a cafe? near by which will work.

Kind regards, Kate

*************************************

Hi Aleksander,

We’re getting there. It’s likely we’ll be able to arrange an interview after 4pm at the Southbank Centre. I’ll have more details shortly – just waiting on all parties to confirm schedule.

Kind regards, Kate

******************************************

Dear Aleksander

I’m sorry to say that Arnaldo Antunes is not able to undertake your interview request. I am sorry to disappoint, especially as this answer has taken a long while to reach. His agent Julio Quattrucci, will be at the event tonight if you want to ask him any questions about Antunes’ work and performances.

If there are any other Festival Brazil events I can help assist with please let me know.

Best, Sarah

********************************

Com isso, acabei apenas assistindo a sua performance na pequena sala do Queen Elizabeth Hall, sem tentar falar com ele no final do evento, nem ficar tietando esperando a saída. Não foi um concerto, senão uma performance mesmo, ao estilo vanguardista dos anos 70, declamando seus poemas de maneira “arnaldiana”: com gritos, sussurros, gagueiras, explorando timbres, graves, usando fotografias, projeções, sintetizadores, posters, rádios, tinta florescente. Tudo isso acompanhado de Marcelo Jeneci que fazia por vezes o acordeom, por vezes os teclados. Eu, por minha vez, acompanhado por tres não-falantes de português, que se impressionavam com a energia de Arnaldo e o aspecto cativante da performance, mas obviamente perdiam muito da mensagem e do sentido geral da coisa.

Foi distribuído um programa com os textos lidos, que vinham junto com uma tradução em inglês. No entanto, traduzir poemas, que é sempre uma dura missão por excelência, tem a dificuldade multiplicada no caso de Arnaldo Antunes. Ainda que alguns poemas talvez funcionem, outros se perdem quase que totalmente em versão anglo saxônica. O jogo de palavras, subversão sintática, exploração da própria forma da letra no papel, o condensar sentidos através da quebra sintática para gerar novos significados, muitas vezes apoiado apenas na sonoridade, não encontra correspondente em várias traduções.

Por exemplo, o poema:

não há sol a sós.

Brilhante jogo de sentido e construção de ambigüidade valendo-se do jogo de sonoridade. Pois bem, onde está a poesia disso na tradução:

there´s no sun alone/there are suns

O desafio está lançado, e nao creio que serei eu que o solucione. Mas essa seria uma das perguntas que eu pautaria, se me tivessem dado a chance de falar com ele...

Uma lição de jornalismo tiro dessa historia: se você é repórter free lance e se pauta para esse tipo de matéria, melhor tentar bater diretamente na porta, não tente agendar previamente. Em outras ocasiões entrevistei Seu Jorge e Lenine, também em Londres, forçando a barra no backstage depois do show, sem horário marcado. Ao seguir o protocolo, sem a carteirinha de um veiculo que o agente do artista goste, ou pense que valha a pena, suas chances de conseguir a exclusiva são bem reduzidas. Real life, real measures.

Ainda assim, sem dúvida valeu a pena, sobretudo porque consegui, como “consolação”, ingressos grátis para Os Mutantes e Gilberto Gil na próxima semana.

Não entrevistei um artista, dos poucos, que chamo de ídolo, mas o vi ao vivo e aprendi lições praticas. Também reafirmei que Arnaldo Antunes é aquele que, “na nebulosa de alteração de sentido que perseguiu o pensamento de vários períodos literários, nesse poeta brasileiro encontra uma referência; uma representação de incessantes descaminhos e dribles de linguagem que provoca mobilização diante da palavra por meio das ruínas dos signos, sejam eles verbais ou icônicos e tendo como norte a simultaneidade” (essa também é da minha dissertação...).

Friday, 9 July 2010

¡Cristianos salvadoreños, sosegad! Fe y Estado no se mezclan.

Dado que he recibido algunos comentarios y respuestas, principalmente por email, al post anterior, me manifiesto nuevamente para un intento de aclaración.


Ya me imaginaba que mi texto podría ser causante de reacciones entre algunos cristianos, pero créenme que no lo he escrito porque quisiera provocar malestar a nadie. Apenas no he podido dejar de manifestarme sobre este episodio poderoso, emblemático y histórico de El Salvador, es decir, que incluye el acto de barbarie per se del 20 de junio y la absurda respuesta de las autoridades.


¿Por qué absurda? Mi posición no es un ataque a la palabra de dios, sino una critica a la OBLIGATORIEDAD de que se lea la palabra de dios. (Y esto aun sea previsto en la ley, estoy enterado, la salvaguardia para los que no quieren atender la sesión de lectura. Aun así el Estado si está posicionando en una materia que no le toca).


Yo soy cristiano y no le niego nunca a nadie. No lo soy, quizás, en el sentido - que incluso puede ser que esté correcto - que plantea que el verdadero cristiano lo vive la fe, al diario; adopta la fe y un especifico estilo de vida como una postura de existencia. Vale. No, si este es el único sentido real de ser un cristiano, entonces no lo soy.


Pero si también lo es aquel que cree en dios y en cristo entonces si lo soy. Pero mas allá, independientemente de lo que soy o no soy, de lo que creo o no creo, defiendo que no es correcto establecer la Biblia como el instrumento “verdadero” de inculcar valores o de reconstrucción del tejido social. El concepto de verdad, sobretodo en este ámbito, es una cuestión de fe, y fe no se le obliga la gente a tenerla, ni se les educa a asimilarla. Fe es una experiencia íntima y personal que no puede y no debe estar sujeta a las conveniencias políticas.


EL ANTIGUO TEMA DE LA VERDAD


No creo en el cristianismo militante, ni tampoco en ninguna religión militante. La fe la ejerce, la tiene y/o la vive uno por opción, por libertad individual radical, por el toque del Espíritu Santo; y no porque se le inculcaron, porque se les estableció la convención a creer.


Uno no tiene fe porque sigue o cree en el conjunto de valores, y códigos, que cierta religión establece, sino al revés; uno sigue o acepta determinadas conductas porque tiene fe. La fe viene primero, y esto no se le puede enseñar a uno, u obligársela a vivir.


Y, sobretodo, esto derecho a la fe en la vida en sociedad de un Estado democrático y de derecho debe ser algo inalienable y abierto. Algo que no puede ser aplicable solo a la fe cristiana, sino a cualquier tipo de fe, en cualquier religión. Porque puede ser que yo crea que la verdad sea la Biblia, y lo demás sean deturpaciones. Sin embargo, el otro, que también es tan humano como yo, que tiene tanta fe como yo pero en otra religión, también tiene el derecho de creérselo en lo que quiera y de decir, por ejemplo: el Corán es la palabra sagrada.


MI FE ES MAS VALIDA QUE LA TUYA(¿!)


¿Quisieran los cristianos que en su país hubiera una ley que estableciese en todas las escuelas de la nación la obligatoriedad de leer siete minutos diarios del Corán?

¿O acaso dirán los cristianos que el Corán no es un libro apropiado para reconstruir el tejido social e inculcar valores validos para la sociedad?

¿No lo es por que? ¿Por que no es un libro de Dios Jehová? ¿Por que no es la verdad? Pero es el libro del dios Allah; es la verdad musulmana. Entonces si lo es apropiado para los musulmanes.


Así que el gran peligro, y es un peligro obvio, reside en que una ley como esta, al final y al cabo, está impregnada de valores discriminatorios. Es decir, el hecho de que la mayoría de los nacionales de El Salvador sea cristiana, no pude significar que el país pueda considerar la Biblia como “EL” libro sagrado - y consagrado por legislación estatal.


Esto es cosa medieval, retrograda al extremo. Esto es lo que hacen algunos países islámicos, tan duramente criticados por el Occidente (y a veces con razón) por su fundamentalismo y pintados como fanáticos.


¿Quiere El Salvador, además de ya recibir el triste e “impresionante” titulo de uno de los más violentos países del mundo, añadirse el titulo de fanático fundamentalista? Si, porque si hay una tendencia de la política-estatal para valorar mas una fe que otra, entonces, perdona, pero hay que ser directo, estaremos convierténdonos en un Estado fanático.


!ESTADO, NO SE META EN LA FE!


Y, para concluir, que el país, principalmente sus autoridades civiles máximas (parlamento, presidente) adentre a esto tipo de debate en un momento como lo que se vive en El Salvador, es digno de un cuento surrealista de Gabriel García Márquez. Debatir lo cuanto esta medida puede reducir la violencia (aparte de ser legítima o no, de herir la Constitución o no) es propio de un día en la ciudad de Macondo. Como afirma el rector de la Universidad Centroamericana José Siméon Cañas, UCA, José María Tojeira “los diputados siempre nos sorprenden con su bajo nivel no sólo intelectual, sino político. Poner la lectura de la Biblia en la escuela como uno más entre los remedios a la actual violencia y delincuencia no deja de ser asombroso. El contexto nacional, con tanta diversidad de opiniones entre las iglesias, con la presencia de grupos fundamentalistas que no dudan en afirmar que quienes no interpretan la Biblia como ellos van automáticamente al infierno aunque sean buenos ciudadanos, no parece dificultar la medida ni preocupar a los diputados".

¡Que el buen juicio prevalezca en El Salvador!

Sunday, 13 December 2009

Falar em indígenas irrita o presidente

* Articulo de mi autoria, solo en portugués, sobre la charla de Rafael Correa en la LSE, en octubre de 2009. Una sencilla contribución al debate.





O presidente Rafael Correa chegou pontual e sorridente à London School of Economics (LSE). Ex – professor universitário, não escondeu a satisfação de, como mencionou, relembrar os velhos tempos ao ser convidado, no final de outubro, para uma palestra na renomada instituição londrina sobre o seu conceito de “revolução cidadã”, que defende estar em curso no Equador durante o seu governo.


Elegantemente palestrando em inglês, fez-se muito claro, a pesar do forte sotaque castelhano, na critica a arquitetura financeira internacional e à “arrogância da sua burocracia que insiste em modelos de organização econômica que se provam falhos”, disparando contra organismos multilaterais como o Banco Mundial. Apenas um tema acabou com a tranqüilidade do presidente e o fez mudar o tom de voz e abandonar o inglês para responder em espanhol: os movimentos indígenas.


Para Correa, a explicação para os protestos violentamente reprimidos pelo governo, inclusive com saldo de morte, ocorridos no país em setembro são as eleições da Conaie – poderosa organização indígena do país que reúne mais de três milhões de originários – que ocorrem neste mês. Quando questionado sobre a posição dos povos originários acerca do risco da privatização da água no Equador a partir da nova lei, o presidente cerrou as sobrancelhas e logo mandou que alguém lhe trouxesse a Constituição nacional para provar que neste tema não ha debate.


Quase dez minutos gastos buscando e lendo artigos da Constituição para justificar porque esse tema o incomoda tanto. De fato, a carta magna parece clara ao proibir a privatização da água. E a contradição que havia na primeira proposta da lei que mencionava a possibilidade de gestão privada já não se vê na terceira versão do projeto, fruto também da pressão dos movimentos para a retirada das ambigüidades do texto da lei.


Entretanto, na visão de Correa, ao mesmo tempo em que isso prova que não ha razão para polêmica, tampouco não haveria nenhum tipo de erro por parte do governo na relação estabelecida com os povos originários, nem falta de compreensão, nem falta de diálogo. Correa defende, engrossando a voz, que todo o problema tem um fundo eleitoreiro, e que a pauta dos povos originários vai se esgotando diante da recepção e execução do governo de suas demandas.


Os povos originários no Equador apoiaram e re-apoiaram os dois mandatos de Correa. Votaram por ele, defenderam seu projeto e entregaram ao presidente “la chimba”, bastão de poder que representa a construção do bem comum. Os indígenas reconhecem os avanços do governo Correa como uma senda para mudanças estruturais no país. Mas Correa não parece ter a mesma disposição, nem capacidade de apreensão e muito menos tato. “O levantamento indígena contra a privatização da água foi uma grande irresponsabilidade, uma grande mentira”, vociferou. (Disponivel no videocast da LSE)


O presidente afirma ter trabalhado com os indígenas e conhecer suas ”virtudes e defeitos”. Mas apesar do voto de confiança dado pelos originários, Correa prefere tons de voz ameaçadores, alertando para o “cuidado que deve haver para não se mitificar os movimentos indígenas” e acusa-os de estarem criando uma falsa polêmica e criando tensões para se reposicionarem politicamente. Mesmo com todo seu suposto conhecimento da temática, o presidente ainda se vale apenas de uma linha de análise fundamentalista para tentar explicar as críticas que sofreu dos originários. Trata-se de uma posição paradoxal ao que defende como representante do Socialismo do século XXI, pois nessa lógica segue incorrendo na linha do quem não esta comigo esta contra mim, que não se encaixa ao socialismo que apregoa. “Foi uma jogada para se reposicionarem politicamente”, resume cartesianamente o presidente.


Mas não se trata de um jogo simplista, entre direita e esquerda, dentro do movimento indígena. Menos de uma conspiração para desestabilizar o governo, uma contra-revolução. Os indígenas trazem à discussão o tema do Estado plurinacional não porque estão desesperados na busca por uma agenda política, mas porque acreditam que é justamente o governo Correa que poderá dialogar sobre o direito que possuem de participar do acesso às riquezas naturais, que lhes foi arrancado durante séculos de exploração. Correa precisa ampliar os mecanismos de analise para a compreensão da questão indígena e fazer valer sua revolução cidadã.

Monday, 5 October 2009

Ojos Fritos sobre Strange Fruit

En una coincidencia placentera, los pocos días destinados para cumplir en Barcelona con compromisos académicos pudieran ser utilizados también para disfrutar de una de las principales fiestas de Cataluña, el impresionante Festival de la Merce. Entre todos quehaceres, una ciudad transformada en un gigantesco escenario con derecho a Rachid Taha, DJ Shantel e una infinidad de actividades culturales bajo el sol mediterráneo conforman un fin de semana “genial”, como suele decir mi amiga, petit campesine, (o mejor dicho, ahora la periodista musical), Ojos Fritos (alias, Marie).

Entre tantas sorpresas, la que rindió una entrevista de última hora, motivada por el deslumbramiento causado, Strange Fruit. El grupo performatico australiano, que en la búsqueda por el sueno de volar mezcla danza y teatro colgados en palitos flexibles a cinco metros de altura, capturo aplausos y reconocimiento del público en el Parc Ciutadella. Ojos Fritos no perdió tiempo. Manejando cada vez mejor y con más ganas el “revelador” software de edición, ella puso manos a obra. Un ejemplo, entre otros aun mejores: el video abajo, grabado y editado con sus propias manos y oídos, pues claro que la selección de músicas es parte esencial del trabajo. “Felicitations”!

Thursday, 4 December 2008

¡Radio Venceremos, desde el territorio salvadoreño bajo control insurgente!


Em El Salvador, o pequeno pais da America Central, ha um pequeno museu cujo tamanho não é obstáculo para guardar o grande tesouro que conta a historia de um grande povo. O Museu da Palavra e Imagem, popularmente chamado de MUPI, possui, entre outras riquezas do seu acervo, uma coleção de mais de 30 mil fotografias, centenas de documentários, manuscritos e objetos que foram reunidos durante mais de onze anos quando o país vivia uma das mais violentas guerras civis da historia contemporânea da America Latina, nos anos 80. O responsável pela conformação desse arquivo de memória histórica foi justamente um dos protagonistas da historia do conflito entre a Frente Farabundo Marti para Liberacion Nacional (FMLN) e o exercito salvadorenho, financiado e articulado pelos Estados Unidos em tempos de radical intervencionismo norte-americano.

Carlos Henriquez Consalvi, melhor conhecido pelo pseudônimo de Santiago, nasceu na Venezuela, mas é salvadorenho com todo o coração. Ele foi o fundador e atual diretor do MUPI, mas antes esteve onze anos nas montanhas no norte de El Salvador no comando da Radio Venceremos.

Apos estudar jornalismo em Caracas, Consalvi parte para Nicarágua em um grupo de ajuda humanitária para prestar apoios aos atingidos pelo grande terremoto de 72, em Manágua. Ali conhece os Sandinistas, contribui para a queda do ditador Somoza e em dezembro de 81 chega a El Salvador para ajudar a FMLN a instalar uma emissora de radio clandestina na zona sob controle insurgente.

Foram anos de trabalho sob condições de extrema dificuldade, não raro sob bombardeio, que foi reconhecido internacionalmente como uma confiável fonte de informação sobre a guerra e sobre El Salvador durante toda a década de 80. O projeto ampliou-se e chegou a constituir o Sistema de Comunicacion Venceremos, que incluía a radio, publicação de periódicos e produção de documentários com apoio de jornalistas estrangeiros num labor marcado pela intensa participação das comunidades da região de Morazan, de onde a radio transmitia.


Santiago foi recentemente premiado pela fundação holandesa de Direitos Humanos Prince Claus por seu trabalho como jornalista comprometido com a criação de espaços de liberdade e pelo seu compromisso com a promoção da memória e reconstrução da sociedade salvadorenha.


***************


Em El Salvador pude conversar pessoalmente com Santiago, o fundador da experiência histórica que inspirou movimentos de radio comunitária por toda a America Latina. O resultado são projetos ambiciosos que serão devidamente divulgados no seu tempo. Antes disso, alem de uma longa entrevista com ele que também será em breve publicada, a RadioCom 104.5 FM, em Pelotas, Brasil, leva ao ar no programa “Contraponto” do dia quatro de dezembro, as 8h30 e também no programa “Navegando na Contra-informação”, as 16h, um rápido bate-papo exclusivo e inspirador para lutadores sociais e radioscomunitarios comprometidos com a democratização da comunicação. A RadioCom pode ser escutada online aqui.

Sunday, 5 August 2007

A Brazilian in London - Intro


There are a lot of Brazilians living in London. According to the Office for National Statistics (ONS) in 2006 there was 25 thousands Brazilians in the British capital. For the ones who are in fact here, however, the official numbers are not convincing. With no effort – and at times preferring not have heard – the Brazilian Portuguese is easily found all over the city in the most common public spaces such as tubes, buses, corners and parks. The Brazilian Consulate in London, curiously, has no official statistic on the exact amount of Brazilian citizens living in the city or even in Britain. It is nevertheless on the number of seats occupied by the compatriots in the evangelic church temples spread over the UK that the Itamaraty bases its estimative. Thus, there are, likely an approximately, 100 thousand Brazilians in the country and at least half of those are in London.
Why have you left a country with such lovely weather to be living here? This is the question that many natives - unreconciled with their own weather - ask when they find out you have abandoned the “tropical paradise” to be in the constantly grey London drizzling. For a short period or indefinitely staying for working, studies, adventures or even simple pleasure would be the generic categories where the different types of stories fit in. Each of them has tastes, wills, wishes, fears and plans that vary so intensly and obviously as it does in any other person. But their cultural identity is crosscut by values that only the immigration experience produce. Here, they are not only Brazilians. They are Brazilians living in London.

Fortnightly, Deiticos will publish a quick interview with one of these names. The questions are set upon the Starters section of the Weekend magazine, Saturday supplement of The Guardian. The answers are unique and human, too human.

Saturday, 4 August 2007

A Brazilian in London - Interview


Leticia Lobão was born in Rio de Janeiro, Brazil, in 1979. She holds a degree in History from the Federal University of Rio de Janeiro, (UFRJ). She came to London in 2005 and went back to Brazil in 2006 only to return a few months later to the UK, but this time as the fiancé of the Hungarian Norbert and with the wedding celebration around the corner to take place on British soil. Leticia has been living in south London, in a location, which is exactly 23 minutes away by train from Black Friars Bridge station. She does not know when or whether she will be going back to Brazil.

What is you earliest memory?

I remember of having watched on TV the first Rock in Rio, in 1985, on my mum’s lap when I was around five years old. I was eating Mabel (an old Brazilian sweet brand) doughnuts – which are as old as my memories – dipped in double cream. I think I understood the concert because I remember I liked it. We watched Queen’s gig and I still like it nowadays, but not enough to go for a night out at the We Will Rock You (musical showing at West Wend)

What is you greatest fear?

I am scared of death.

Which living person do you most admire, and why?

Luis Fernando de Simone. He is a genius who knows precisely what he wants, despite of being a pianist in Brazil

What is the trait you most deplore in yourself?

I am critical, too critical in fact.

What was your most embarrassing moment?

Well, there is sort of one, but you cannot really publish it. We do not usually want the embarrassing episodes of our life to be divulgated, do we? All I can say is that it is related to sex.

What is your favourite word?

Justice


Where would you like to live?

At Rio de Janeiro, the best city in the world.

What is the first thing that crosscut your mind when you think of London?

Money and Capitalism

What makes you depressed?

Estagnation

When did you last cry, and why?

Yesterday, because I missed Brazil

What words or phrases do you most overuse?


Not. I am very pessimistic.

What do you consider your greatest achievement?

My backpacking trip around Europe was a great personal achievement.

What keeps you awake at night?


Nothing. Not even my father’s death managed to disrupt my sleep.

How would you like to be remembered?

The best friend, historian, lover...

Friday, 3 August 2007

Um brasileir@ em Londres - Intro

Há muitos brasileiros em Londres. De acordo com dados do órgão inglês Office for National Statistics (ONS) em 2006 havia 25 mil brasileiros na capital britânica. Para quem esta por aqui, porém, os números oficiais não convencem. Sem nenhum esforço – e ás vezes preferindo nem ter escutado – o português brasileiro é encontrado facilmente por toda a cidade, nos mais comuns espaços públicos como ônibus, metrôs, esquinas e parques. O consulado do Brasil em Londres, estranhamente, não tem nenhum dado oficial sobre a quantidade de cidadãos do país na cidade ou mesmo na Grã-Bretanha. Entretanto, é na quantidade de cadeiras ocupadas nos templos evangélicos espalhados pelo Reino Unido que o Itamaraty baseia a sua estimativa e, assim, há provavelmente cerca de 100 mil brasileiros no país e pelo menos metade na capital.
Por quê você deixou um pais de clima tão “lovely” para vir para cá? É a pergunta que muitos nativos inconformados com seu clima fazem ao saber que você saiu do “paraíso tropical” para estar na murrinha cinza londrina. Passagem curta ou definitiva para trabalho, estudo, aventura e mesmo pura fruição seriam as categorías gerais onde as histórias se encaixariam. Cada um deles tem também gostos, vontades, desejos, medos e planos que variam tão intensa e obviamente como em qualquer outro indivíduo, contudo sua identidade cultural está permeada por valores que só a experiência da imigração produz. Aquí, não são apenas brasileiros, são brasileiros em Londres.

Quinzenalmente, Dêiticos publica um breve ping-pong com um desses nomes. As questões são baseadas na seção Starters, da revista Weekend, suplemento do jornal The Guardian aos sábados. As respostas são únicas e humanas, demasiadamente humanas.

Um brasileir@ em Londres - Entrevista


Letícia Lobão nasceu no Rio de Janeiro in 1979. É graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Veio para Londres em 2005, foi ao Brasil em 2006 e alguns meses depois retornou ao Reino Unido, mas dessa vez noiva e prestes a casar, com o húngaro Norbert, em solo britânico. Leticia hoje mora no sul de Londres, há exatos 23 minutos de trem da estação de BlackFriars, e não sabe quando volta ao Brasil.


Qual é a sua mais remota lembrança?


Lembro de ter assistido pela TV a primeira edição do Rock in Rio, em 85, no colo da minha mãe, quando eu tinha cinco anos de idade. Eu estava comendo rosquinhas Mabel - que são tão remotas quanto a minha lembrança - molhadas no creme de leite. Acho que entendia o show porque lembro que gostei. Assistimos Queen e até hoje gosto bastante, mas não o suficiente para ir ver o “We will Rock You” (musical em cartaz em West End, em Londres).

Qual foi/é o maior medo da sua vida?

Medo da morte.

Qual a pessoa viva que você mais admira e por quê?

Luis Fernando de Simone. Ele é genial, sabe exatamente o que quer e é feliz, apesar de ser um pianista no Brasil.

Qual o traço/característica que você menos gosta em você mesma?

Ser crítica, demasiadamente crítica.

Qual foi o momento mais embaraçoso da sua vida?

Até tem um, mas não dá pra você colocar. O que é embaraçoso geralmente a gente não quer divulgar, né? Mas é referente a sexo.

Qual é a sua palavra favorita?

Justiça

Onde você gostaria de viver?


No Rio de Janeiro, a melhor cidade do mundo.

Qual é a primeira coisa que vem a sua cabeça quando você pensa em Londres?

Dinheiro e Capitalismo

O que faz você ficar deprimida?

Estagnação

Qual foi a última vez que você chorou e por quê?

Ontem, porque senti saudades do Brasil.
Quais são as palavras ou frases que você usa exageradamente?

Não. Sou muito pessismista.

Qual foi a maior realização que você já alcançou?

Ter feito sozinha um mochilão pela Europa.

O que faz você perder o sono?

Nada. Nem quando meu pai morreu eu perdi o sono.
Como você gostaria de ser lembrada?

A melhor amiga, historiadora, amante ...