Monday, 20 March 2017

Porque o assunto é muito importante, e a entrevista é muito boa

E porque 'hegemonia' é mesmo, ainda, uma palavra-chave, e de enorme complexidade.

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Poder, religião e preconceito. A ascensão política dos evangélicos
por redação A Pública | 20 de março de 2017

Entrevista aborda o crescimento dos evangélicos no mundo político e discute seus significados

Criou polêmica nas redes sociais no final de semana uma denúncia do colunista do Jornal O Dia, Cid Benjamin, de que o Bispo Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, teria pedido a demissão do colega de jornal, Caio Barbosa, por conta de uma reportagem sobre a situação de postos de saúde em meio ao medo da febre amarela. Crivella negou. “É falsa a informação divulgada”, disse em nota.
Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e senador pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), o agora prefeito Crivella foi um dos assuntos da primeira entrevista realizada na Casa Pública neste ano, que tratou da ascensão dos evangélicos ao poder.

A atual legislatura conta com 87 deputados federais e três senadores evangélicos. Os dados, que são parte de um levantamento do Núcleo de Mídia, Religião e Política da Universidade Metodista, também indicam que mais da metade dos 90 parlamentares pertencem a três igrejas: a Assembleia de Deus, a campeã; Igreja Universal do Reino de Deus, em segundo; e Igreja Batista, em terceiro. Os demais parlamentares estão distribuídos em 23 denominações diferentes.

Munida desses dados, a repórter especial da Pública, Andrea Dip, entrevistou o pastor Henrique Vieira, a pesquisadora Christina Vital, da Universidade Federal Fluminense (UFF), e o jornalista da CBN Fernando Molica. Os principais trechos você lê a seguir.

Andrea Dip – Henrique, como você enxerga essa bancada evangélica, a sua atuação, essa aproximação dos políticos evangélicos com a direita e se é possível ser evangélico e lutar por pautas progressistas.

Henrique Vieira – Como teólogo e pastor, e também militante de direitos humanos, entendo que a frente parlamentar evangélica é uma expressão do fundamentalismo religioso evangélico do Brasil. O fundamentalismo é um fenômeno crescente não só aqui como em todo mundo. Essa frente parlamentar evangélica se traduz em um projeto de poder que é extremamente conservador. Tentando sistematizar: é o fundamentalismo evangélico pautado numa leitura bíblica literalista, extremamente dogmática, que não se reconhece enquanto processo de interpretação, que ocupa cada vez mais espaços públicos e eletivos para pautar a coletividade a partir dessa visão doutrinária de Deus. Ela, hoje, é um risco à democracia, é um risco aos direitos humanos, é um obstáculo a diversas lutas, como a luta feminista, como a luta LGBT, como a luta quilombola, como a luta indígena, como a luta camponesa, e se associa sistematicamente à bancada da bala e à bancada do boi, ou seja, à indústria armamentista e o agronegócio.

Se é possível ser evangélico e militante das causas libertárias e progressistas, não tenho dúvida. Eu acho que o primeiro passo para furar esse bloqueio é não generalizar os evangélicos. Esse é um setor que tem poder político, econômico, midiático, televisivo, por isso ele tem muita força de expressão, de caracterização do que significa ser evangélico no Brasil. Algumas coisas têm que ser percebidas. Primeiro, desde o século 16, na origem do protestantismo, uma característica essencial é a diversidade. Existem diversas experiências evangélicas ao longo da história e do Brasil. Segundo, é que existem experiências evangélicas progressistas. Existe a MEP – Movimento Evangélico Progressista –, a Rede Vale, a ADU, expressões evangélicas progressistas, populares, que têm compromisso com a democracia, e setores que inclusive se sentem envergonhados dessa representação hegemônica e majoritária que tem o poder político econômico, midiático e televisivo. Precisamos entender que o campo evangélico é um campo em disputa, tem muitos símbolos, e para além dos movimentos organizados de perspectiva progressista.

Para concluir, tem uma contradição que a gente precisa entender e é de difícil compreensão: a religião evangélica, salvo engano, cresce especialmente nas camadas mais populares. Esse é um dado curioso. Então vou dar um exemplo. Acompanhei como parlamentar uma ocupação do MTST em Niterói, e a primeira noite de ocupação foi muito tensa, com risco de violência policial. O movimento conseguiu se manter. Eu acompanhei como membro da Comissão de Direitos Humanos todo o processo de negociação e voltei lá no outro dia de manhã para conversar com as pessoas, que estavam já se assentando e organizando o processo de assembleia. Enfim, porque estou contando essa história? Porque encontrei uma senhora e perguntei: “Vem cá, como terminou a noite?”. E ela me respondeu assim: “Glória a Deus, irmão, a gente conseguiu ficar”. Uma mulher que encontra na sua fé em Deus um elemento de empoderamento para fazer uma luta urbana por acesso a moradia. Isso não é um dado casuístico. Quando eu acompanhei o processo de ocupação, praticamente todas as assembleias tinham grande presença feminina, negra e evangélica. Aí você tem desde o protofascismo à luta por moradia. Tem que saber entender essa complexidade para furar os bloqueios e dialogar.

Andrea Dip – Cristina, gostaria que você contasse um pouco sobre a sua pesquisa para o livro Religião e política: medos sociais e extremismo religioso, eleições 2014. Entrevistei o Guilherme Boulos e também o pastor Ariovaldo Ramos. Ambos me disseram que a esquerda deixou de lado o trabalho político nas bases, nas comunidades pobres, e que quem ocupou esse vácuo foram as igrejas evangélicas, que se aproximam mais de um pensamento conservador.

Cristina Vital – Quando se fala dos evangélicos na sociedade, é de um grupo que está no poder, seja o poder eletivo, político ou midiático. Até 2014 era uma estratégia muito de ocupação dos Legislativos e, a partir de 2014, se torna uma estratégia bem direcionada de ocupação também dos Executivos. Isso ficou claro numa carta chamada “Antes pedintes, hoje negociadores”, do pastor Rodovalho, que é da igreja Sara Nossa Terra. Ali ele falava de uma passagem dos evangélicos na sociedade de ovelhas a players. Há uma distinção entre perfis evangélicos na sociedade. Houve uma pesquisa do Datafolha, em 2014, entrevistando evangélicos na sociedade em relação a determinadas pautas, que tinham a ver com LGBT, aborto, armas, redução da maioridade penal. Posteriormente se ouviu os deputados que compunham a frente parlamentar evangélica no Congresso sobre esses temas. É interessante ver os momentos de aproximação entre esses grupos, os que estavam no Congresso e os que estavam na sociedade, e era justamente nessas temáticas LGBT e das mulheres, digamos assim, que havia um encontro muito grande entre a base evangélica na sociedade e o que defendiam os parlamentares na Câmara. Em relação às armas, em relação à maioridade penal, tinha uma distinção: eles não estavam falando com a base. Mas tinha uma estratégia importante de articular as bases a partir dessas temáticas.

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Andrea Dip – Fernando, você investigou o Crivella. Quem é o prefeito do Rio?

Fernando Molica – Crivella foi fundamental na implantação da Igreja Universal do Reino de Deus na África. Na sua estratégia de convencimento de ocupação de espaços, a Universal é muito agressiva. Depois de muito esforço, achei dois livros do Crivella, Evangelizando a África, em inglês, e outro que ele fala de cem pensamentos do bispo Edir Macedo. Eu tomei um susto quando li, porque é um negócio assustador o grau de reacionarismo, de preconceito, de exclusão que ele manifesta no livro, não somente em relação às religiões de matriz africana, que ele chama de “feitiço”, como também em relação à Igreja Católica, ao hinduísmo. É tudo muito barra-pesada dentro de uma lógica que é a lógica da Universal.

Agora, se você me pergunta quem é o Crivella, não sei. É uma boa pergunta. Agora, quando você lê o que ele escreveu… Depois o Crivella tentou se explicar, falou que era um jovem pastor, mas ele tinha 40 anos naquela época. Para mim, aquilo que li sintetiza a visão da Universal, que é uma disputa de mercado. Você vê claramente uma luta entre o bem e o mal. Não é uma visão de integração, é uma lógica de separação: ou você está aqui ou você está com os demônios, porque você não pode ter uma lógica ecumênica se está disputando o mercado.

Andrea Dip – Eles têm um exército.

Fernando Molica – Eles têm um exército, mas é sempre essa lógica do obreiro, então todo o resto é inimigo. A ideia da idolatria faz parte da mesma lógica infernal, da mesma lógica do mal. Numa reportagem que fiz eu conto de um pastor que disse. “Se o seu filho fuma maconha, se seu marido bebe; a culpa não é dele; a culpa é do demônio”. Então isso dá um alívio, dá uma solução. Agora, eu nem gosto muito de misturar a Universal com as demais, porque ela é muito liberal na questão dos costumes. O Edir Macedo já falou várias que é favorável à legalização do aborto, pelo pior motivo do mundo: ele diz que, se a mãe tem um filho indesejado, ele vai virar bandido.

Andrea Dip – Eu queria falar um pouco do Partido Republicano Brasileiro (PRB), que em 2004 nem existia oficialmente, em 2012 emplacou 78 prefeitos e 1.204 vereadores e em 2016 elegeu o prefeito do Rio e quase elegeu o Russomanno em São Paulo. Ele não é oficialmente um partido da Universal. O Edir Macedo não assume, mas todas as pessoas do topo do partido são pessoas ligadas à Universal, o próprio Marcos Pereira [atual Ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços] é braço-direito do Edir Macedo, é um cara muito importante na história da Universal.

Cristina Vital – Há uma disputa importante no Congresso Nacional entre o PSC e o PRB, e de algum modo uma disputa entre Assembleia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, que têm projetos e inserções distintas em termos teológicos, doutrinários. A Igreja Universal do Reino de Deus tem um modelo episcopal que é mais centralizado e parecido até com a Igreja Católica. Vocês podem observar que o Crivella, no pronunciamento de posse, não faz uma fala típica de um pastor pentecostal ou neopentecostal cheio da força do espírito santo, de manifestações.

Eles tinham um plano em 2014 de ter um crescimento percentual da bancada deles do PRB, e o PSC pretendia dobrar a bancada, e a gente viu que o PSC em 2010 elegeu 17 deputados e em 2014 conseguiu eleger 12. O PRB, por conta da eleição do Russomanno, levou um número grande de parlamentares, o que fez com que a bancada do PRB no Congresso Nacional mais do que dobrasse. Então são 21 parlamentares. Segundo os dados do IBGE, a Assembleia de Deus tem, segundo os dados de 2010, quase 3 milhões de pessoas vinculadas à igreja. A Universal teve um decréscimo de 2000 para 2010, então são 1 milhão e 800 pessoas vinculadas à Universal do Reino de Deus. Então, o Crivella ganhar no Rio significa uma vitória da Universal? Significa a vitória de uma estratégia político-religiosa.

Fernando Molica – Apenas para fazer uma observação que o Brasil já teve um presidente evangélico. O Geisel, se eu não me engano, era luterano, e isso rendia, no máximo, uma piada de que o presidente do Brasil era um pastor alemão. Mas o Geisel não alardeava isso como valor, pois não representou para os evangélicos ou protestantes uma lógica de ocupação de espaços de poder.

Mariana Simões – Recebemos várias perguntas pelo streaming. O Israel Moretoni perguntou para o Henrique qual seria a melhor maneira de ser um chefe do Poder Executivo de fé evangélica. Como governar uma cidade sem deixar a sua fé interferir na forma de governar e nas políticas sociais?

Henrique Vieira – Ninguém vai atuar a partir do nada. A experiência da fé é uma experiência muito fundacional da formação de um indivíduo. O que é possível é ter um conteúdo de fé que dialoga com a vida plena para todas as pessoas com garantia dos direitos individuais e coletivos, com a celebração da diversidade, com a promoção da justiça e com o respeito ao outro tendo o outro não como diferente que sofre o estigma, mas que tem o seu direito de existir garantido. Então, é incompatível para quem tem uma fé de conteúdo fundamentalista e/ou extremista. Para quem tem a fé não como uma doutrina, mas como uma experiência que te abre ao mundo e te abre ao outro, é uma possibilidade muito genuína, singela e realmente factível. Acho que a incompatibilidade se dá quando você olha o Estado como uma extensão da igreja, quando você olha o Estado como uma extensão da doutrina. E essa é uma característica de fé de setores fundamentalistas e/ou extremistas. Então dá para governar uma cidade sendo cristão respeitando as diferenças, a diversidade, compreendendo a dinâmica da democracia, da República e dos direitos humanos, e por aí vai. Não há neutralidade dentro e fora da experiência religiosa. Todo mundo vai governar a partir de algum lugar.

Andrea Dip – “Ninguém, nenhum deputado evangélico vai ser a favor da descriminalização do aborto, ponto”, me disse a Dilma numa entrevista no ano passado. Por isso, quero saber de vocês o que pensam.

Henrique Vieira – Dentro do setor evangélico, nós também vamos encontrar teólogos, teólogas, frentes que vão defender a descriminalização, a regulamentação, a devida legalização do aborto. Então, é importante registrar isso para mais uma vez vencer o discurso de que todos vão ser contra. Concordo que é uma maioria, mas não é uma unanimidade. A criminalização do aborto é uma das principais causas de morte de mulheres no país, e com um recorte social e racial gravíssimo. Mulheres ricas vão abortar com algum grau de segurança. Mulheres pobres, majoritariamente pretas, vão morrer. Então eu quero olhar para a vida concreta e perceber que a operação de preservação da própria vida passa pela descriminalização para tratar isso pelo viés da assistência da saúde e do respeito. Então, dá para teologicamente reajustar a tradição porque a tradição não aprisiona a experiência de Deus. Porque a experiência de Deus se manifesta na vida concreta. E quem fez isso e foi crucificado por isso? Jesus Cristo de Nazaré.

Andrea Dip – O que esperam os evangélicos da política?

Fernando Molica – Os evangélicos querem o poder, como qualquer ator político. Tem um livro do Edir Macedo, muito bem estruturado, que é o Plano de poder. Ele traça ali, se coloca, e isso está até na sua matéria que deixa claro que a Universal do Reino de Deus é a primeira a estruturar esse discurso político-partidário de uma forma organizada. Acho que a grande questão é discutir como é este poder. E em que medida a sociedade acha justo você entrar nessa briga levando Deus. Acho que a disputa política tem que ser no argumento político, inclusive defendendo teses conservadoras, contra a descriminalização das drogas, contra a legalização do aborto, mas que esse debate seja feito entre mulheres e homens, e não com Deus. Agora, por último, o Crivella é um prefeito que vai se adequar à lógica política, ele foi eleito com três vereadores do partido dele, são 51 vereadores no Rio. O PMDB não está ativamente no primeiro escalão de governo, não está representado. Passa que ele se preparou para ganhar a eleição e demonstra não ter se preparado para governar, a quantidade de bola fora que já deu é impressionante, de besteiras que secretários andaram falando, de pessoas que foram nomeadas e ele teve que desnomear por uma série de problemas na vida pregressa. A lógica da igreja serve para sustentar o discurso eleitoral, serve até para que tenha uma tolerância em relação a ele; em momentos maiores de crise, ele vai dizer “ah, isso é preconceito, porque eu sou evangélico, porque eu sou cristão”. Ele vai usar isso, mas isso tem um limite. Ele não pode ficar quatro anos só segurando na mão de Deus e indo. Ele vai ter que administrar, e acho que vai ter uma dificuldade maior do que o Eduardo Paes, que era do PMDB e tinha uma grande bancada na Câmara.

Cristina Vital – A gente tem um debate aí para enfrentar em torno da laicidade porque a laicidade virou o patamar da salvação nacional. A defesa da laicidade implica obstacularizar a presença do religioso no espaço público ou na política? Como se isso fosse salvar a nação do conservadorismo? A gente está falando aqui dos evangélicos, mas não sei se vocês viram a nota que a Associação de Magistrados Espíritas colocou contra a ação de juízes que estavam lutando na política de redução de danos na questão do aborto. A gente está falando de uma população majoritariamente cristã que tem uma leitura dessa questão da vida, e mesmo entre os kardecistas, católicos e evangélicos, os católicos sempre foram os maiores opositores nessa questão do aborto. A Frente pela Vida é uma frente comandada pelos parlamentares católicos.


Henrique Vieira – Acho que a expectativa é de um tempo de muitas lutas e tensões. Procurei aqui identificar a minha tristeza, a minha vergonha, o meu lamento, por conta dessa referência evangélica conservadora, que é contrária à democracia e aos direitos humanos. Mas eu também quero fazer um registro importante. Os tempos são difíceis não apenas por isso. Os gerentes do capital podem, inclusive, se utilizar disso para continuar promovendo um país injusto. Então, o Temer não é evangélico, e eu estou preocupadíssimo com a reforma da Previdência, com a flexibilização das leis trabalhistas. Continua no Brasil uma criminalização da pobreza terrível, extermínio da juventude pobre, preta, periférica, e favelada, extermínio da população quilombola, indígena, ribeirinha e camponesa, e tudo isso gerenciado por esse sistema, por esse modelo. O governo do Crivella não vai ser ruim só porque ele é um evangélico conservador, mas porque ele vai reproduzir um modelo de cidade relacionado ao interesse dos empresários de ônibus, da especulação imobiliária. Ele vai ser um gerente desse modelo de morte, o que é o Estado hoje na minha opinião. É importante combater o fundamentalismo religioso, mas também entender que, enquanto ele for convincente e interessante para esse modelo geral, inclusive outros agentes desse modelo vão continuar se alimentando dele. E o que os evangélicos querem? Essa pergunta eu vou refazer, porque tem evangélicos e evangélicos, têm Martin Luther King e Silas Malafaia. Eu sou evangélico e o meu projeto de sociedade tem muito a ver com o de Rosa Luxemburgo: um mundo onde sejamos socialmente iguais, nem ricos nem pobres, humanamente diferentes, respeitados nas nossas singularidades e, finalmente, totalmente livres para que possamos aproveitar esse dramático, frágil e potente espetáculo que é a vida.

Saturday, 18 March 2017

"Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro"

Há nove dias eu aqui, novamente, pelas terras do não-triste-trópicos cumpri mais um aniversário, ou ciclo, ou girar em torno a dilemas da existencialidade... Não é intencional nem programado, mas noto que me passa, ainda, de pensar nas voltas do famoso/famigerado tempo quando assumo o calendário gregoriano para enmarcar esses supostos parâmetros de etapas.

Nesse exercício quase involuntário, me lembrei desse texto que reescrevo neste momento, que fiz pela mesma ocasião ao recém haver regressado a Recife logo de um  fantástico período de nove meses de PSDE-Capes na Costa Rica, no já velho 2016, e que não havia publicado nesse meu arquivo pessoal online (que nos próximos meses , by the way, cumprirá dez anos de yo y mis circunstancias...).

Fiz, então, um enjambement, e o (re)utilizo, especialmente porque o ordinarismo tipicamente cotidiano com que a data tem se passado pra mim nos últimos anos encontrou naqueles 360-e-picos-dias-imperfeitos do ciclo anterior a coincidência de ter sido o mesmo dia em que o quase-sagrado músico pernambucano Naná Vasconcelos morreu, ou regressou ou cumpriu sua passagem, tendo, portanto, merecidamente sido o grande homenageado neste carnaval 2017. Naná, que com  todo o talento e força cultural encarnava não só a alma (é, falemos em jargão cosmogênico...) de Pernambuco mas talvez de todo o Brasil, conduzia o poderoso encontro de Maracatus de Nação na abertura oficial da festa em Recife, sempre com mais de 500 instrumentistas e seus tambores, num espetáculo já tradicional e delicioso que desta vez fez-se para o mestre.

Se concreto, ilha, paranoia, coco, grafiti, dura, estridente, quente são palavras-chave de um pouco do que Recife e Olinda é pra mim, também há que se destacar, claro, que aqui é lugar de boa capoeira. Desde sempre onde eu vou a capoeira, que comecei a praticar no longínquo 1996 (sim!...), vai junto, ou eu vou buscá-la. E em lugar de bolo e parabéns, passei meu começo de novo ano no ano passado em mais um treino com o grupo que nestas me acolheu , o Chapéu de Couro,  do Mestre Corisco.

Em meio a energia, suor, ancestralidades e comunitarismo de sempre,  Corisco aproveita o ensejo da morte de Naná para relembrar a anedota do dia em que ele foi fazer uma visita ao Chapéu de Couro. O mestre conta – e lhe é típico contar histórias e fazer reflexões aos finais dos treinos – que lá no clube Barrozo, espaço que fica na Rua da Aurora, uma via parte do cartão postal da cidade, às margens do rio Capibaribe e um dos lugares onde o grupo pratica a capoeira há mais de 30 anos, Naná aparece sem aviso prévio, a convite de um amigo que também treinava ali. Toca à porta,  e quem lhe atende é um capoeirista do grupo que desceu as escadas, incauto, a pedido do mestre Corisco. Ao abri-lá, não esconde a surpresa de ser Naná em pessoa a sua frente.

Mais surpreendente ainda foi a reação do artista que, venerado e admirado por muitos, imediatamente se ajoelha, faz uma saudação com os braços e a cabeça ao chão,  e dispara: “Mestre! Muito obrigado pela capoeira! Por esse trabalho maravilhoso de preservação da nossa ancestralidade, pela força do nosso sangue africano expressa nessa arte!”, e etc, etc, ali, saudando, ajoelhado,  o companheiro de treino.

Perplexo e intimidado, o capoeirista tenta, gaguejando, esclarecer a situação: “Na-não, eu não, sou mestre, não. O mestre tá lá em cima”, e aponta para o alto. E Naná responde rápido ao gesto de humildade do companheiro: “Eu sei, mestre. O grande mestre tá nos céus, mas eu aqui quero saudar o senhor, mesmo, pela importância de ajudar a manter a capoeira viva”, sem entender que aquele se referia a Corisco, quem estava conduzindo o treino no primeiro andar do Barrozo, lá em cima...

Que bom ouvir histórias de Naná contadas por Corisco! Que bom a capoeira poder jogar! Que bom, eu mesmo, ‘vivir para contarla’... Agradeço.

E que bom, ainda, os amigos! Saindo daquele treino, no caminho de casa, que passa pelo não menos icônico Pátio de Santa Cruz, do ‘meu’ bairro da Boa Vista, tive outro privilégio: por acaso ali estão um time de hermanos, seleção de poetas, de artistas da ciência das ruas e da força das palavras, que tal como “murro guardado no punho”, admiro e respeito: nada menos que Miró, Fred Caju, e Adilson. Agradeci novamente, pelas coincidências dos grandes encontros que renovam o espírito da rebelião.
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Parodiando a Daaniel Araújo:
"Foda-se Pelotas, você tem fodido o meu coração"

Isso relatado acima, como dito, foi no ano passado. Neste, foi outra história, de 15 whatsapp´s, duas msgs no Skype e três e-mails. O único telefonema, isto é, contato viva-voz pela data, foi o da minha mãe. Eu contei. Porque achei/acho curioso as implicações dessa ordem, das lembranças e importâncias atribuídas a datas pessoais, ao não se estar no facebook. Pois desses números, apenas seis pessoas eu conheço há mais de doze anos, ou seja, são da minha vida pré-jornada a Ítaca, são da minha cidade natal.

Além de dar o que pensar, claro, sobre o papel crescente das redes sociais como um tipo de memória externa também para relações interpessoais – dado que são elas hoje quem nos avisas quem cumpre mais um aniversário e, portanto, a depender da nossa relação com a pessoa em questão, mandamos uma saudação (mesmo que as vezes quase mecanicamente) – esse levantamento juvenil me chamou a atenção em particular pelos perfis desses amigos que lembraram e se deram o gentil trabalho de manifestar-se. O fato de eu ter acabado de regressar de um período de alojamento, sentindo o toque de se encolher, de seis meses, seiscentas emoções-atribulações, seis milhões de reflexões-decisões e obrigatórias produções em terra natal nos pampas, logo de onze anos sem estar por lá por mais de 30 dias, sim me fez pensar...

Isto é, vi e revi muita gente de primeiras experiências, primeiros trabalhos, primeira formação universitária, primeiras saídas boemias, primeiros debates políticos e etc que hoje dão de ombros pra se estás ou não estás, fostes ou ficastes, cumpristes mais um aniversário ou morrestes. Não é por mal, talvez, mas é mal, me parece, pois revela as ressignificações desumanizantes, ou então simplesmente a insignificância que atingistes, o que é o mais provável...

Talvez, também, valorizemos demais as “primeiras” coisas da vida, o que também é provável. Mas é no mínimo curioso observar quem, e porque, se lembra, sem Facebook pra avisar, do aniversário de alguém. Deveria ficar lisonjeado ou entristecido ou blazé com precisas 20 msgs de lembrança (destaco de novo, sem facebook!) pela data, sendo que a grande maioria desses é de quem está na minha vida apenas nos últimos cinco anos? O ‘real’ e o ‘virtual’ não tem fronteiras tão porosas ainda, como se tem dito ultimamente? A mediação virtual das relações ainda não dá conta de presença, intimidade e intercâmbios diários físicos-diretos? Ou simplesmente segues caindo no abismo do esquecimento, e é melhor aproveitar a queda-livre (que aliás mucho me gusta!) e, como a maioria, não olhar pra trás?


Ainda mais provável é que isso seja uma reflexão/comentário inútil, né? Mas é inevitável que essas pessoas, do “passado distante”, que se lembram qual é o dia em que nascestes e param um minuto do seu cotidiano veloz e opressor (o qual sempre destacamos pra tudo, usando-o de justificativa pra tudo...) pra te mandar um “felicidade-parabéns”, simples ou cheio de intimidade, sejam vistas/lembradas com sentidos particulares.  Também, de novo, agradeço, bem como a todxs demais, mais recentes na jornada, que aqui estão. ☆★

Tuesday, 27 December 2016

2017 (no) volver a los 17



Escrevi aos 17 em 1997. Aliás, esse é um dos primeiros poemas que lembro de ter escrito. Eu lembro do dia, lembro do contexto. Um ano depois, publicaram-no num pé de página de um jornal local. Encontrei-o este ano, apenas a fotocópia, entre vários arquivos pessoais que estavam armazenados na casa dos meus avós, na minha cidade natal. Enfrentamos o  famoso"quartinho dos fundos" este ano, para colocar um projeto importante para a família em pé, e ali reencontrei, revisitei e reorganizei várias caixas e pastas de histórias e nostalgias. 'Arte e questionamento', sim, mas hoje também alguma outra certeza, por favor. 



Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Tuesday, 29 November 2016

!Es la articulación y no la unidad, estúpido! O el mar de los dos demonios y el dilema del puercoespin en Brasil, nuevamente...

Mantendo o registro nos alfarrábios, texto publicado originalmente em Asuntos del Sur em 12 de outubro de 2016.

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La cuestión más relevante para el contexto político brasilero actual, y que ha llamado la atención y la dedicación de la mayoría de los análisis preocupados por las posibilidades y límites de las transformaciones y emancipaciones sociales del Brasil post-PT, es el dilema de la organización. Son diversas en número y en fundamentos las opiniones entre militantes de los movimientos sociales, intelectuales y cuadros partidarios de la izquierda sobre cómo enfrentar el momento: recomposición, reinvención, rescate, transición.

Tal tarea exige reflexiones verdaderamente de fondo: ¿Cuál es el “ser” de izquierda? ¿Cuál es la lógica y la naturaleza de la formación de las identidades colectivas? ¿Cuáles son los límites/posibilidades del hacer político por la vía no institucional? ¿Cuáles son en verdad las instituciones estatales?

Ninguna de estas preguntas tienen respuestas evidentes, fáciles o exclusivas, pero el actual espacio para su formulación es también una invitación a la acción. Las instituciones, por ejemplo, claramente nunca son entidades neutras; al contrario, representan la cristalización de las relaciones de fuerza entre agentes políticos, una situación de equilibrio temporario entre ellas. Esa afirmación es casi palpable: cuando un proyecto de transformación social comienza a ser implementado, este entrará en choque con el orden institucional vigente, y tendrá que ser modificado tarde o temprano.

Esa modificación puede ocurrir de varias formas y en varias dimensiones, de acuerdo al tiempo histórico y a la geografía en cuestión. Los gobiernos de Chávez, Morales y Correa en Venezuela, Bolivia y Ecuador, respectivamente, (los “piratas del Caribe”, apodado por Tariq Ali) en el auge del “progresismo” suramericano al comienzo de los años 2000, tuvieron éxito en las reformas constitucionales que permitieron que los avances sociales fueran llevados a cabo y se consolidaran.

Sin embargo, para el final de aquella década y el comienzo de la que vivimos, los gobiernos de Zelaya, en Honduras y de Lugo, en Paraguay, sin la misma capacidad de movilización de sus pueblos, transitaron el mismo camino y acabaron, por reacción- agrupación de sus fuerzas conservadoras nacionales, viendo a sus presidentes electos por el voto popular destituidos de sus cargos, a través de un mayor o menor grado de coerción y uso directo de la fuerza, inaugurando lo que comúnmente ha sido llamado “golpe de Estado de nuevo tipo”.

En Brasil, cuyos gobiernos de la era del PT deliberadamente se amarraron a la forma tradicional y decadente de hacer política (siempre invocando la famosa gobernabilidad de la realpolitik y la culpabilidad del sistema de presidencialismo de coalición para buscar justificarse a sí mismo) siquiera se intentó incluso algo parecido a esos cambios institucionales para que se disputase efectivamente la hegemonía (en el sentido gramsciano) de la sociedad, y los resultados, para este partido que presumía de ser el centro de la órbita de las izquierdas, fueran horribles no solo por la brecha que se abrió para el “golpe” que se consumó en septiembre, si no también véase las elecciones locales de octubre.

Entre Escila y Caribdis
Se puede decir, entonces, que la era del PT fue marcada por dos límites: su certeza petulante en la negación por buscar cambios estructurales (que necesariamente pasaría por las reformas constitucionales) y su anclaje (algo común en experiencias gubernamentales de izquierda en regímenes de democracias liberales) en la burocracia y el meandro de poder (falso) del Estado –una combinación que inevitablemente deja de lado la movilización por mecanismos de presión social sobre las instituciones.

En ese sentido, la característica más original de los gobiernos nacionales y populares de América Latina, como analiza Ernesto Laclau, fue realmente el calibre entre una dimensión horizontal de autonomía y una dimensión vertical de hegemonía, y como se observa, en el Brasil post-PT, en este país se operó un efectivo equívoco de esa dosis. En el prefacio, de 2013, de su último libro publicado, “La razón populista”, el cientista político es preciso: “Dar énfasis exclusivo a la dimensión hegemónica conduce a regímenes burocráticos que no se alimentan de una movilización maciza de base. En este caso, el resultado solo puede ser el retroceso del proceso transformador y su progresiva absorción por el viejo establishment”.

Lo más importante en el aporte laclauniano al debate político, principalmente el que está dado en Brasil hoy, es el entendimiento de que un ideal libertario supuestamente “puro” que rastree sus objetivos totalmente por fuera del espacio estatal también es una receta para la amargura del fracaso (al menos en cuanto el Estado como tal se mantiene como la esfera regulatoria de la vida social). 

La lucidez de esa crítica se destaca en este tramo:
Lo peor que le puede acontecer a un proceso incipiente de transformación es quedar paralizado entre Escila y Caribdis, esto es, entre dos demonios: o seducido por una perspectiva puramente liberal, que acepta las formas institucionales existentes como el único marco posible de accionar el público, o estimulado por una política de pura protesta, que se agota en su autorreferencia.

Sin embargo, independientemente de si es correcto pensar que es la razón populista (en el sentido en que Laclau analiza la categoría) el fundamento mismo de la política –y por tanto también del rompimiento con esas dos racionalidades, esos dos demonios, que, al fin y al cabo, presuponen o el fin de la política como tal (esto es, de aquella que pregona una reconciliación total de la sociedad entera) o a su reducción tout court (o sea, la mera administración pública)–, es urgente, al menos para la izquierda, el enfrentamiento del problema de la organización. E irremediablemente comprenderemos: no habrá unidad, solamente articulación. 

El enemigo ausente y el puercoespín
El primer paso para enfrentar este problema, y en un sentido general la propia lucha política, es entender las necesidades del corte antagónico; necesitamos saber nombrar al enemigo. Hemos en Brasil, por las razones descritas arriba, y que irremediablemente traspasa los límites (deseados) del Lulopetismo, fallado en eso. Los gobiernos del PT, por temor a los costos políticos-electorales de determinados y determinantes enfrentamientos, no hicieron el nombramiento del enemigo.

Pero cuando una sociedad es confrontada por una anomia radical, la necesidad de algún tipo de ordenamiento, de cualquier tipo, se torna más importante. El orden del Leviatán, en el clásico de Tomas Hobbes, es el ejemplo extremo y seminal, pero puede explicar también, en cierta medida, por qué ciertos grupos sociales prefieren (y convocan, como se vio en algunas manifestaciones brasileras en los últimos tiempos) el autoritarismo y el control extremo.

Esa falta de nominación se vuelve fundamental porque si el enemigo para el cual fuimos convocados a luchar se vuelve, por conveniencia electoral de una elite partidaria, el amigo “táctico”, pero luego, porque traicionó a esa elite que lo alineó, vuelve a ser apuntado como nuestro antagónico (los “golpistas”), obviamente el juego del toma y daca es percibido y las desconfianzas se exacerban, los actores políticos combativos se atrincheran en sus diferencias, sin disposición a nuevas propuestas de unidad.

Es ahí que el actual dilema de la organización de izquierda en Brasil se asemeja a los puercoespines de Schopenhauer a quien Freud, y después también Laclau, hacen referencia: si estuvieran muy distantes unos de otros, sienten frío; si se aproximan de más para calentarse, se acaban perjudicando con sus espinas. Y de ahí también el sentido de parodiar, nuevamente, la célebre frase de James Carville que se volvió “snowclone” (una frase que se hace cliché en que uno o más elementos pueden ser sustituidos, y es popularmente repetida hasta el cansancio con múltiples usos).

El estratega de campaña de Bill Clinton a la Casa Blanca en 1992 sabía que George Bush (padre) era virtualmente imbatible en la elección de aquél año, principalmente por cuenta de una política exterior considerada exitosa. Carville sugirió enfocar las preguntas más directamente relacionadas con la vida cotidiana y las necesidades más inmediatas de la ciudadanía, y colocó carteles en las sedes de campaña con tres frases: “Cambios versus Más de lo mismo”; “No se olvide de la salud”; “La economía, estúpido”. Lo que se suponía que era sólo un recordatorio para los equipos de trabajo de campaña se volvió un slogan nacional no oficial, y contribuyó definitivamente para cambiar la correlación de fuerzas en las elecciones, y permitir la victoria, improbable, de Clinton. En nuestro caso: ¡no es la unidad, es la articulación, estúpido!

Hegemonía de nuevo tipo
Si tomáramos como hecho que la izquierda, de forma global, todavía no tiene un discurso que la pueda volver una alternativa institucional al capitalismo neoliberal, dado que en la práctica, como se ha visto en la experiencia brasilera reciente, esta supuesta izquierda  para asumir el gobierno está dispuesto a aliarse con quienes otrora eran los enemigos (siempre en nombre de la “realidad” de la política de “verdad”) es prácticamente imposible concebir un común positivo compartido: el enemigo no está dado.

Por su constitución biológica los puercoespines no pueden evitar sus espinas, y herirse unos a otros, por más que deseen aproximarse con el objetivo de calentarse, por mayor que sea el frío que les aflige. Para alcanzar ese objetivo, vital, su cooperación deberá ser por articulación, y no por unificación.

Siguiendo a Rosa Luxemburgo, la unidad de la clase obrera (la que esta autora consideraba el sujeto histórico privilegiado) no está determinada a priori por la primacía de lo económico, sino por los efectos acumulados de la división internacional de la movilización social – todas las variedades de luchas son vistas como vinculadas entre sí no porque sus objetivos concretos estén intrínsecamente ligados, sino porque esas variedades equivalen en su confrontación con el régimen opresor.

La “unidad” de esa variedad se establece, por tanto, no por algo positivo que ellas compartan, sino por la identificación con lo negativo, por la articulación de sus diferencias en una cadena de equivalencias en oposición a un enemigo común.

Es preciso, entonces, tener como base de nuestra nueva organización una reconfiguración de la noción de hegemonía. En el caso del PT, en particular, esto para por la asunción real de que no existe la menor posibilidad de que el “partido de Lula” (expresión a la que tristemente se redujo la sigla, en lugar de la poderosa articulación de masas de la que formaba parte en los años ‘80 y ‘90) se reconfigure como partido hegemónico de las izquierdas brasileras. La ausencia de un partido hegemónico (en el sentido clásico), por otra parte, tal vez no sea la principal barrera que debemos superar, como se limita a analizar Tarso Genro, uno de los más importantes cuadros del PT, ex gobernador de Rio Grande del Sur, el estado más al Sur de Brasil, y ex ministro de Estado, y que se ha comprometido con aparente seriedad en una reflexión autocrítica que vale su nombre.

Tarso también ha hablado, siguiendo el análisis de Roberto Amaral, histórico político brasilero, en un “frente político de nuevo tipo”. Son comentarios que demuestren reconocimiento de que la sigla, aunque siga teniendo una gran base social orgánica anclada en los movimientos sociales tradicionales que nunca se apartan de la esfera del Partido de los Trabajadores (CUT y MST), redujo definitivamente su capacidad de movilización. Pero al sugerir este frente de nuevo tipo, no se arriesgan más allá de lo normal-conocido, o no son capaces de pensar la transición de las izquierdas más allá de la creación de un nuevo partido hegemón –o lo que es peor, proyectan el viejo PT recauchutado, con una identidad “rescatada”, lo que sería una apuesta infeliz e inocua.

Podríamos, así, comprender lo que sugiere el filósofo político Rodrigo Nunes por composición “multitudinaria”, esto es, no sólo una diversidad de tácticas entre grupos organizados, sino una presencia masiva de gente que no se define necesariamente como “activista” o “de izquierda”. En el caso de la política de las calles, hablando metafórica y literalmente, la defensa de una identidad supuestamente estable y estática es un equívoco; nuestro hacer político debe precisamente construir articulaciones que puedan colocarnos en equivalencias, sin eliminar o anular diferencias, en relación a un antagónico. Para eso, como afirma Nunes, “Tenemos que estar abiertos a ser como cualquiera, justamente para que cualquiera pueda ser como nosotros”.

La paradoja es que esto no invalida la idea de una hegemonía, sino nos insta a entenderla de esa otra manera. Cuanto más extendida sea nuestra cadena de equivalencias, menos será la capacidad de que cada lucha concreta se encierre en sí misma, en una identidad diferencial que sea exclusiva de ella.
La operación, en que una particularidad asume una universalidad cuya plenitud es necesariamente imposible, siempre incompleta, es lo que se entiende aquí por hegemonía – la totalidad por la cual debemos luchar para constituirnos como un “bloque histórico” es un horizonte, no un fundamento. Nuestras equivalencias se darán a partir de nuestras diferencias, y no a la inversa, y para eso necesitamos nombrar al enemigo, sin afecciones, sin histerias, y sin conveniencias electorales pseudo-justificadas.

Aquí Ernesto Laclau nos arroja luz nuevamente: “Un grupo es considerado hegemónico cuando no se cierra en una estrecha perspectiva corporativista, pero se presenta para la más amplia masa de población como el director de objetivos más extensos, como la emancipación o la restauración del orden social”.

El propio autor problematiza la noción de “objetivos más extensos” y “más amplia masa”. La lucha hegemónica por la cual nos debemos engranar no es simplemente un acuerdo negociado o la imposición de un principio organizador preexistente, y sin algo que emerja de la propia interacción política entre los grupos. Generar una posición capaz de conseguir un máximo de adhesión en un momento dado es, entonces, el desafío, que permite la acción transformadora. Y esa transformación socio-estructural, de la cual depende el pensar y el construir nuestra nueva organización, nunca es producida por un único actor pero es resultante de una serie de articulaciones, que a veces se combinan de modo inesperado.

Nuestra nueva organización política, por lo tanto, no se debe pensar en la vanguardia en su sentido leninista clásico, comenzando, por razones obvias, por el PT. La retaguardia, como afirma el ex secretario de Ciudadanía Cultural del Ministerio de Cultura, Celso Turino, parece ser un mejor lugar, en cuanto soporte a los movimientos sociales de hoy, sin buscar cooptarlos o controlarlos. Esa es una llave para abrirse a una lógica de partido-movimiento, en una pluralidad de estilo de un Frente en cuyo borde ya se prevé su desborde, un operar firme entre las dimensiones de la autonomía y de la hegemonía; un navegar preciso, y no temeroso, entre Escila y Caribdis en una travesía que no se termina, pero se renueva.


Thursday, 8 September 2016

Au Brésil, le Parti des travailleurs doit-il disparaître ?

Outro registro da circulação colaborativa de publicações, desta vez no altereco+plus de artigo originalmente publicado, em abril de 2016, na Asuntos del Sur.
Primeira vez que me vejo traduzido em francês :)

ALEKSANDER AGUILAR - 22/04/2016

La procédure de destitution de la présidente brésilienne Dilma Rousseff, qui s’apparente à un coup d’Etat, sera menée jusqu’au bout par la coalition qui l’a lancée. Cette coalition mêle des milieux d’affaires, des parlementaires, des médias et des magistrats. Si la procédure aboutit, elle engendrera des conséquences graves et durables pour l’Etat de droit démocratique du Brésil et pour toute l’Amérique du Sud. Pourtant, face à cette crise politique profonde, certains espèrent encore «sauver » l'identité du Parti des travailleurs (PT). Les identités politiques, cependant, ne sont ni fixes, ni stables pour pouvoir être ainsi simplement « sauvées ».

Un front contre la dictature
Le Parti des travailleurs, qui selon l’expression de Luis Inacio Lula da Silva, son principal représentant se flatte d’être « la plus grande et la plus aboutie des organisations de gauche latino-américaines »  est né en février 1980 et a longtemps fonctionné comme un vaste front au sein duquel ont cohabité des groupes de différentes origines et orientations idéologiques, toujours assimilés au champ politique présumé de la gauche. Un champ qui s’est constitué durant les dernières années de la dictature et contre celle-ci.

Mais aujourd’hui, après 36 ans d’existence et quatre victoires successives lors des élections présidentielles, le Parti des travailleurs n’existe que parce Luis Inacio Lula da Silva lui-même existe. Des récents sondages sur les intentions de vote désignent Lula comme le favori pour l’élection présidentielle de2018, confirmant que le parti dépend d’abord de son nom. Cette situation ne découle pas simplement des circonstances, mais résulte de la volonté délibérée du parti et de ses choix.

Durant toutes ses années à la tête du pouvoir fédéral, le PT s’est tellement consacré à bâtir sa fameuse « gouvernance », sans rénover dans le même temps ses cadres et ses dirigeants, que tout son héritage en matière de projet national s’est dilué. En cause, le manque patent d’autocritique qui a marqué son exercice du pouvoir. Cette erreur risque aujourd’hui de provoquer sa disparition.

Concessions éthiques
Dans un exposé sinueux, André Singer, politologue, journaliste, et porte-parole de la présidence durant le premier gouvernement de Lula, confirme cette analyse quand il écrit que le lulisme est dans le coma, mais qu’il n’est pas encore mort. Le PT semble en effet chercher une issue à son affaiblissement chronique dans un nouveau recours à Lula, mais en retombant dans la même erreur méthodologique que celle de ses seize années de gouvernement. C’est-à-dire en évitant de mettre en oeuvre des réformes structurelles et en continuant à faire des concessions, y compris (et même surtout) éthiques.

Ces concessions, il les a faites dans le passé à l'industrie agro-alimentaire et aux géants internationaux du bâtiment qui ont diffusé la « culture de la corruption » et qui ont assuré la croissance économique du pays à un coût social terrible. Il les a faites également aux partis politiques néo-pentecôtistes, présents au Parlement, qui ont fait reculer les droits humains et sociaux.

Le PT s’est également montré très accommodant avec les grands groupes médiatiques (ceux-là mêmes qu’ils critiquent aujourd’hui à cause des accusations portées contre lui). Des groupes auxquels il a concédé des budgets publicitaires considérables pour esquiver le débat sur la nécessaire démocratisation des moyens d’information. Enfin, plus récemment, le PT n’a pas hésité à proposer sans vergogne de plus en plus de postes gouvernementaux à la droite nouvelle et traditionnelle (son alliée depuis le premier gouvernement Lula, en réalité) en échange de votes contre la procédure de destitution de Dilma Rousseff.

Changement lent
André Singer reconnaît que Lula et le PT n'ont jamais été préoccupés par la transformation des règles du jeu politique, mais qu’ils ont cherché à tout prix à devenir un acteur pertinent dans ce paysage. A ses yeux, l’idée que des réformes structurelles auraient pu être réalisées dans le pays pendant le boom des matières premières qui a assuré le succès des gouvernements Lula est une idée «abstraite » car le modèle défendu par le leader du PT a toujours prôné uneméthode de changement très lent, par la marge.

De manière délibérée, les gouvernements du PT n’ont pas voulu créer les conditions matérielles qui permettent de forger un projet national. Ils se sont transformés, aux côtés des élites traditionnelles, en otages de leur propre succès. Le PT a bâti une présumée intégration sociale fondée en réalité sur la consommation, et non pas sur une véritable citoyenneté, convaincu que tout irai bien tant que les pauvres seraient de moins en moins pauvres, mêmes si les riches devenaient de plus en plus riches.
Au lieu de modifier l'équilibre du pouvoir au Brésil, qui penche à l’évidence du côté des élites lesquelles maintiennent les inégalités et l'injustice sociale en repoussant les réformes indispensables (propriété de la terre, loi électorale, démocratisation des médias…), le parti a préféré continuer à jouer à « Games of Thrones », un jeu dans lequel soit on vainc, soit l’on meurt.

Le Lulisme et PT sont donc en train de mourir aujourd’hui. Le parti, en vertu de la fameuse « habileté » politique de Lula, a préféré payer un prix absurde pour conserver ses honteux alliés au nom d'une prétendue realpolitik, plutôt que de gouverner avec le peuple, comme l’affirme LuizaErundina, députés fédérale et figurereconnue sur la gauche dit Brésil, c’est-à-dire en formant une alliance, efficace avec la société civile.

L’aspect le plus pathétique de ce choix est que ses « alliés » de près de 20 ans contre lesquels il avait pourtant été mis en garde, y compris depuis l’intérieur du PT lui-même montrent aujourd’hui, à travers la procédure de destitution, qu’ils n’ont jamais vu dans le parti qu’un allié tactique qui leur a permis de garantir et de maximiser leurs profits pendant la décennie de boom des matières premières.
Mais précisément le capitalisme ne peut offrir une croissance économique stable, solide et durable. La combinaison de la chute de l'économie mondiale et des lourdes carences de la politique industrielle brésilienne ont mis un terme au cycle néo-libéral de l’insertion internationale du pays. En n’étant plus utile aux intérêts des élites et en ne bénéficiant plus par ailleurs de sa popularité passée, le PT est devenu un outil obsolète, comme le montre la procédure de destitution, aux allures de coup d’Etat, par laquelle les élites traditionnelles cherchent à contourner l’Etat de droit.

C’est la leçon que le PT doit encore apprendre : un parti politique ne constitue pas une fin en soi. Et ces outils que sont les partis politiques s’usent, et du coup peuvent ou même doivent disparaître.

Au centre-droit
En l'état, avec son évidente orientation de centre-droit, le PT ne sert plus à  personne aujourd’hui. Au vu de l’enfer que le gouvernement vit en ce moment, le parti sait (ou devrait savoir) qu’il n’obtiendra pas d’appui à droite. Et alors que le second gouvernement Dilma Rousseff a clairement mis en œuvre une politique économique néolibérale, le parti utilise maintenant la rhétorique du coup d’Etat mené contre lui pour solliciter l'appui d'une "base" de gauche. Comme on l'a fait remarquer de manière critique Frei Beto, le PT ne se souvient des mouvements sociaux que lorsqu’il doit éteindre un incendie…

Avec le même réalisme dont il s’est tant glorifié ces dernières années, le gouvernement devrait comprendre que c’est sur la gauche qu’il pourrait compter aujourd’hui pour peu qu’il envoie des signaux montrant qu’il est prêt à mettre en œuvre un programme progressiste, et même radical. Ce qui est en jeu au Brésil, ce n’est pas le gouvernement du PT, ni son héritage. Les manifestations des 18 et 31 mars ont montré que les forces politiques de gauche, et pas seulement les forces partisanes, sont prêtes à défendre le pays, à défaut de défendre le gouvernement.

Ces défilés " contre le coup d'Etat " ne sont pas historiques parce qu'elles étaient favorables au PT, mais parce qu’ils ont regroupé les gauches brésiliennes autour du slogan « A bas le réseau Globo » (NDLR : le plus grand groupe brésilien de médias) ce qui ne s’était pas vu depuis trente ans, renforçant ainsi leur revendication d’une démocratisation des médias de masse. Ce message doit être respecté et compris.

Il reste peut-être un dernier espace politique pour une réorganisation du PT en lien avec les mouvements sociaux pour peu qu’il s’engage à réaliser au minimum le programme qu’il avait mis en avant durant la campagne de l’élection présidentielle de 2014.

Dans le cas contraire, le PT aura atteint ses limites. Par cohérence et par un sens minimal de ses responsabilités, il devrait disparaître, devenir une référence du passé et laisser germer la nouveauté.

Aleksander Aguilar est journaliste et linguiste. Il coordonne la plateforme OISTMO

Cet article est publié avec l’accord de Asuntos del Sur