Sunday, 4 December 2016

A Lava Jato "chega" a América Central...


Acordo hoje (além das noticias da cobertura do enterro de Fidel Castro, que faleceu aos 90 anos dia 30 de nov) "hasta siempre, comandante!) com a seguinte manchete: "Propina do PT bancou campanha de aliado em El Salvador, diz Odebrecht", publicada num dos maiores jornais do Brasil, a Folha de São Paulo.

As inúmeras possibilidades de análise sobre a famosa/famigerada operação judicial anticorrupção no Brasil, a Lava Jato, em andamento desde 2014, com suas poderosas, profundas e inescapáveis repercussões que tem no presente e terá no futuro sociopolítico do país, não são foco em sentido estrito do que tenho registrado nesse arquivo pessoal online. Mas as aguardadas delações dos executivos da Odebrecht – empresa que nesta semana lançou uma importante nota pública “Desculpe, a Odebrechet errou” ao tempo que fechou acordo de leniência com procuradores da operação – chegaram a Centroamérica. Divulgada pela Folha de S. Paulo neste sábado, 03/12/16, a notícia aponta um repasse de R$ 5,3 milhões feito pela empreiteira à campanha de Mauricio Funes, quando era candidato à Presidência de El Salvador.

Segundo a reportagem, a intermediária foi a brasileira Vanda Pignato, ex-primeira dama desse meu segundo país, que teria negociado o pagamento com a alta cúpula do PT, em 2008, ano, aliás, em que eu morava em El Salvador, a conheci pessoalmente e trabalhei na Embaixada brasileira no país, durante a organização da visita de Lula - a primeira visita oficial de um Chefe de Estado brasileiro a El Salvador - através do contato com ela. Vanda sempre me pareceu muito gentil, objetiva, interessada e eficiente.

O marqueteiro João Santana, que comandou a comunicação da campanha de Funes – eleito em março do ano seguinte – também teria participado da operação, recebendo o valor da Odebrecht. De acordo com matéria do Jornal do Commercio em 23 de fevereiro deste ano, “em sua primeira eleição presidencial bem-sucedida fora do Brasil, João Santana atuou na campanha de Mauricio Funes, que iniciou em 2009 um mandato que durou até 2014 em El Salvador. Durante a presidência de Funes, a Polistepeque Comunicación y Marketing S.A. de C.V. - subsidiária da Polis no país centro-americano - conquistou contratos de publicidade com o governo, o que levantou suspeitas trazidas à tona pela oposição e por jornais salvadorenhos. ”

A Casa Presidencial salvadorenha havia negado, então, sucessivos pedidos feitos por jornais do país para divulgar os números com base na Lei de Informação Pública vigente em El Salvador. A resposta do governo foi negativa, com o argumento de que os contratos estariam sob sigilo para preservar a evitar conceder "vantagem indevida entre os próprios meios de comunicação" em licitações.

Separada de Funes desde o ano passado, Vanda havia começado a militar no PT nos anos 1980, chegando a representar o partido na América Central, quando se mudou para El Salvador no começo dos anos 1990 através de trabalho junto ao Itamaraty. Ela se desfiliou da sigla em 2010 e hoje é a titular da Secretaria de Inclusão Social de El Salvador, pasta que tem status de ministério, no segundo governo da FMLN no país, agora sob a presidência de Salvador Sanchez Cerén, ex-comandante guerrilheiro da FPL (Fuerzas Populares de Liberación) - uma das cinco organizações que integrava a Frente Farabundo Martí.

O ex-presidente Lula foi um dos principais apoiadores internacionais de Funes durante a campanha presidencial do salvadorenho. O mote da vitória presidencial de Funes foi, inclusive, o mesmo usado pelo brasileiro em 2002: “A esperança venceu o medo”. E em seu discurso de posse, Funes afirmou que Lula era sua principal referência política e seria seu modelo de gestão, e o governo de El Salvador efetivamente implementou, então, programas baseados na experiência petista, como o Bolsa Família. Hoje Funes, logo de haver concluído seu governo, está exilado na Nicarágua, com alegações de sofrer perseguição política por investigação por desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito no período como chefe do Executivo.

À “Folha de S.Paulo” Vanda negou que tenha atuado na arrecadação de dinheiro para a campanha de Funes. Ela disse também que nunca conversou com Lula sobre doações para Funes e que desconhece ajuda do petista na arrecadação.

CRÍTICA
O blog “ O Cafezinho” foi o primeiro em que vi algumas críticas sobre a notícia, - com algumas afetações do "ex-governismo petista" - mas seguramente haverá muito que acompanhar, especialmente nos meios centro-americanos, sobre as repercussões do caso, e explorar sobre a questão, dado que o tema anticorrupção, em particular, tem crescido muito em toda a América Central desde 2014, com destaque para a operação “La Linea”, na Guatemala, e o movimento “Los Indignados”, em Honduras.

“Para a Lava Jato e suas delações cuidadosamente forjadas, o PT queria dominar o mundo, começando por El Salvador... Tudo autorizado por Lula, claro, esse corrupto tão generoso que permite que suas propinas sejam usadas para bancar campanhas em outros países enquanto se satisfaz com um kitnet triplo em Guarujá. É mais uma mentira para gerar manchetes, consolidar o golpe, e desviar atenção pública dos descalabros do governo Temer. A Odebrecht bancou a campanha de um candidato em El Salvador pela mesma razão que empresas patrocinam campanhas no mundo inteiro: porque esperava fazer negócios com o governo. Provavelmente, outra empresa bancava a campanha do adversário.  O que o PT tem a ver com isso?Afinal, por que a população vai se indignar com o governo Temer se a Odebrecht pagou propina para o PT em El Salvador? É como escrevia Rimbaud, "enquanto recursos públicos se evaporam em festas de fraternidade, um sino de fogo rosa soa nas nuvens".

ATUALIZAÇÃO – Matéria sobre o assunto publicada no jornal salvadoreño La Prensa Gráfica na segunda-feira, 5 de dez 2016.

FMLN defiende “honorabilidad” de Pignato
La diputada y jefa de fracción del FMLN, Norma Guevara, metió ayer las manos al fuego en defensa de los señalamientos contra la ex primera dama y secretaria de Inclusión Social, Vanda Pignato, de supuestamente haber sido la intermediaria para conseguir dinero proveniente de soborno de la empresa Odebrecht para financiar la campaña electoral de su exesposo y expresidente de la República, Mauricio Funes, a través del Partido de los Trabajadores (PT), de Brasil.  
“Estoy con ella. Es una persona honrada, y sé que eso no es cierto”, respondió Guevara al pedirle su opinión, luego de participar en la asamblea de veteranos de guerra del FMLN, en el Instituto Nacional de los Deportes de El Salvador (INDES).“Yo creo en ella, es una mujer íntegra y, claro, no está fuera del flanco de ataques que de manera sistemática se hacen contra el expresidente (Funes), y contra su familia”, defendió la legisladora. 
Este sábado, el periódico Folha de Sao Paulo publicó que la mayor constructora de Brasil, Odebrecht, afirmó ante la justicia que una parte del dinero ilícito destinado al PT se dedicó a la campaña presidencial de Funes. La constructora, que colabora con el caso de investigación de corrupción Lava Jato, aseguró que Funes habría recibido $1.5 millones para su campaña electoral en 2008, provenientes del dinero ilícito entregado como soborno por parte de la empresa a ese partido brasileño. Según el medio, Pignato pudo haber mediado para conseguir el dinero gracias a su militancia en el PT. El dinero, según las declaraciones, se pagó en 2008 por Odebrecht a través de una empresa del publicista Joao Santana, quien comandó la campaña que llevó al poder a Funes en 2009, y que ahora es procesado en Brasil. 
La funcionaria, a través de un comunicado, negó haber solicitado fondos para su entonces esposo y dijo que conoció a Marcelo Odebrecht hasta que Funes fue presidente.Guevara alegó que la campaña del primer presidente del FMLN, ahora asilado político en Nicaragua mientras aquí se lleva un proceso civil por posible enriquecimiento ilícito, se desarrolló con dificultades financieras, y que saben que parte de los recursos provenían del grupo “Amigos de Mauricio”. 
Más cauteloso se mostró el diputado efemelenista Calixto Mejía. “Creo que no es responsable de parte de ningún liderazgo político del país dar una opinión sobre especulaciones sin tener bases”, dijo.  
El sábado, el fiscal general adjunto de El Salvador, Aquiles Parada, también confirmó que el país intercambia información con las autoridades brasileñas sobre el caso, pero no adelantó más detalles.  
Funes criticó en Twitter a la Fiscalía por investigarlo a él y no a “los destinatarios” de la donación de Taiwán, “existiendo pruebas en juicio”. “En cambio investiga donación de Brasil que nunca se dio”, escribió. El director ejecutivo de la Fundación Democracia y Transparencia (DTJ), Roberto Burgos Viale, dijo que “ es un panorama en el cual el financiamiento de esa campaña dejó muchas sospechas y preguntas que ahora habrá que responder”. Eduardo Escobar, de la organización Acción Ciudadana, advirtió que, de confirmarse que el dinero de Odebrecht financió a Funes, se demuestra la falta de transparencia y control sobre el financiamiento de los partidos políticos. Además, dijo que es motivo de preocupación de cara a las próximas elecciones de 2018 y 2019.



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